terça-feira, 21 de abril de 2009

A PESSOA É PARA O QUE NASCE*

Num dos últimos posts, escrevi sobre como é bom dançar sem o compromisso de acertar o passo, sem precisar estar no ritmo e coisas do tipo. Recebi um e-mail de um leitor (gente, que chique: a pessoa aqui tem leitores!) dizendo que eu deveria visitar um estúdio de dança e ver como o ambiente é descontraído e que é possível aprender a dançar (e fazer aquelas coreografias que pra mim são mais assustadoras do que Grego. Afinal, na faculdade estudei grego rs rs rs) sem perder a espontaneidade.
Leitor querido, acredito em você. De coração, acredito que deve ser muito legal o ambiente de um estúdio, que os alunos de dança devam ser excelentes companhias. Vale aqui aquela frase: É FÁCIL. QUANDO SE SABE. Ou pelo menos quando se tem facilidade para aprender. Aí é que tá: acredito que tem coisas que são fáceis para algumas pessoas e mais difíceis para outras. A questão (e foi sobre isso que eu quis dizer no post) é que eu posso gostar de dançar mas não querer saber as técnicas para isso.
Em 2005, numa palestra da
FLIP, fiz uma pergunta para a Marina Colasssanti que era mais ou menos assim "Escrever é um dom ou é preciso estudar para aprender a escrever? Já ouvi as duas afirmativas: uns dizem que tem gente que nasce 'pra coisa', que por ser sensível e observadora expressa em palavras o mundo a sua volta e que estudar técnicas tira a espontaneidade, faz o texto ficar 'mecânico', previsível. Já outras pessoas dizem que é fundamental aprender técnicas, estudar muita teoria literária para ser um bom escritor". A Marina Colassanti é uma poeta daquelas que toca fundo na alma da gente. E sua resposta também me tocou. Ela disse "Aline, uma coisa não exclui a outra. É possível ter o dom e estudar para aprender mais. A sensibilidade vai ditar o tom na hora da escrita. E como sabemos, estudo nunca é demais". Aí, completou "Você me parece escritora. Estou certa? ". Quase morri de vergonha e só respondi "Sou formada em Letras" e ela disse "viu? escolheu a faculdade porque tinha o dom. Aposto que tudo o que aprendeu lá somou pontos para uma futura carreira literária". Aí, como ela estava sendo entrevistada pela minha Tia Marina (Marina Gouvêa, minha poeta predileta) eu brinquei: eu sou sobrinha dessa outra Marina aí. Será que é genético? Demos risadas e a palestra ficou ainda mais gostosa. Nunca me esqueci do que ela disse: a sensibilidade vai ditar o tom.
Então, meu leitor indignado (eu aposto que você faz dança de salão. Acertei?), eu digo uma coisa: a sensibilidade também dita o tom na hora de dançar. Por isso, para você que faz aulas de dança, essas aulas só acrescentam. Pra mim, seriam um aprisionamento. Porque eu não tenho a sensibilidade e nem a intenção de aprender a dançar. E também não tenho lá muito jeito.
E sabe o que mais legal nisso tudo? É ver que cada um tem um dom, cada um tem um gosto para uma coisa. E um gosto não exclui o outro. Quem sabe um dia você me convide para fazer uma aula com você? Quem sabe eu não o convide para um dos work shops que faço sobre literatura?



*A PESSOA É PARA O QUE NASCE é um filme de Roberto Berliner sobre três irmãs cegas que viveram toda sua vida cantando e tocando ganzá em troca de esmolas nas cidades e feiras do Nordeste do Brasil.