segunda-feira, 12 de abril de 2010

O MEGA HAIR E EU




Sábado meia-noite. Estava em casa sem nada pra fazer, no maior tédio. Cenário perfeito para se fazer as coisas mais absurdas e non sense. Dito e feito: resolvi que não queria mais cabelo comprido. Ou, para ser mais específica e direta: cansei do Mega hair.

Pesquisa básica na web pra saber como se faz pra soltar aquelas mechinhas grudadas com cola de queratina. Claro que existe uma técnica pra descolar aquilo e a profissional que colocou retiraria em dois minutos. Mas aí eu teria de esperar até 2a-feira, marcar horário e tal e eu queria acabar com aquilo já. Pesquisa aqui e lá e, bingo!, álcool substitui o tal produto específico.

O profissional usa também um alicate especial pra "quebrar" a queratina, mas a garota que indicou o álcool disse que serve qualquer tipo de alicate. Fui procurar um alicate de unha, mas lembrei q não sei nem tirar esmalte sozinha, imagine tirar cutículas? Então, pra evitar que eu fique cutucando a unha e acabe perdendo um dedo, prefiro não ter essas coisas em casa. Sou daquelas que consegue fazer misérias com uma singela pinça: cutuco um pelinho encravado, puxo a pele do dedão... Enfim, quanto menos objetos perigosos desses ao meu alcance, mais segura eu estou.

Bem, voltando ao assunto: tinha álcool mas não tinha alicate de unha. Porém, sempre há uma esperança e nem tudo estava perdido: moro sozinha e não gosto de depender do tiozinho da loja pra consertar as coisas. Tenho minha própria maleta dessas coisas que não sei usar, como martelo, prego e... ALICATE.
Não tinha algodão também. Eu devia ter enxergado a falta de tudo como um sinal divino, tipo “Aline, aqui quem fala é o Pai Todo Poderoso. Eu tudo posso e tudo vejo. E to vendo que você tá arrumando sarna pra se coçar. Vai dormir, filha”. Mas eu sou teimosa e nem dei confiança. Substituir virou o verbo da noite. Sei lá porque, tinha uma caixa de Carefree (digo "sei lá porque" porque eu não menstruo. Então não sei como aquilo foi aparecer na minha gaveta).
Pronto, álcool, alicate e carefree: arsenal improvisado somado à minha vontade... comecei com uma mecha e saiu fácil. Falei "beleza!". Fui passando álcool em cada uma das mechinhas de cabelo, bem na emenda da cola de queratina (o objetivo era amolecer a danada), depois com o alicate, dava uma apertada, para soltar um pedacinho dela e depois era só puxar a mecha inteira. Fácil,né?
Mas essa facilidade toda só rolou com 3 ou 4 mechas. As outras deram um trabalho desgraçado. Como tudo na vida, aquela foi uma prova de que quando você NÃO quer que uma coisa aconteça, ela acontece e se repete. Quando eu tava usando o mega hair, não era para nenhuma mecha cair, mas caíam várias, várias vezes por dia. Naquela hora que eu queria tirar tudo, foi um parto de camelo conseguir tirar umazinha que fosse.
Duas da manhã eu estava lá, firme e forte, xingando minha ideia de fazer isso sozinha (por que não esperei até 2a-feira?), mas aí já era tarde: tinha tirado uma quantidade considerável de cabelo e não dava pra sair por aí daquele jeito. Levantei, peguei uma cerveja, e continuei minha tiração de cabelo.

Às 4 da manhã eu xinguei todos os meus antepassados árabes, por terem me deixado de herança tanto cabelo. Tinha a impressão de estar enxugando gelo: não ia parar de fazer aquilo nunca mais na vida.
O sono me venceu e resolvi tomar banho. Comecei a rir quando me vi no espelho: havia algumas poucas (olhando parecia pouca, mas constatei no dia seguinte que eram ainda umas 1.500 ) mechas no alto da cabeça, mais do lado direito do que do esquerdo. Se não estivesse com tanto sono teria feito uma foto. Tomei um banhão, bem gostoso, usei muito xampu pra tirar o álcool do cabelo e fui dormir. A 2a parte da missão ficaria para o dia seguinte.
Acordei e vi que tinha um monte de recado de amigos, do tipo "vamos almoçar?", "vamos ao cinema à tarde?". Só porque eu não tinha a menor condição de sair de casa com o cabelo daquele jeito, todos os amigos, conhecidos, amigos de amigos, enfim, pessoas com quem nem mantenho contato direito, resolveram me convidar pra fazer alguma coisa. Recusei todos, afinal tenho uma fama a zelar. Imagine alguém me ver com aqueles cabelos espalhados no alto da cabeça? Deus me livre! Era praticamente como assinar meu atestado de insanidade, né? Fulano ia me olhar e pensar na hora "ela nunca me enganou". Eu tava com cara de maluca mesmo.
Meu arsenal para arrancamento de mega hair estava ao lado do sofá. Me posicionei novamente e dei continuidade àquela coisa louca que começara na véspera. Quanto menos mechas faltavam, mais elas pareciam estar coladas com cimento. Foram mais 3 horas aproximadamente de trabalho.

Eu já estava exausta, meus braços doíam muito. Decidi: vou cortar essas últimas. Peguei a tesoura e fui pra frente do espelho. Um raio de bom senso me atingiu e fez eu perceber que elas estavam bem na frente, em lugar muito visível. Qualquer loucura que eu fizesse ali seria difícil de esconder. Resolvi voltar para o álcool, carefree e alicate.
Quando tirei a última mecha de cabelo, quase chorei. De emoção e por ver como estavam minhas mãos; mais de 5 horas no álcool, elas estavam esbranquiçadas, dois dedos tinham bolhas por causa do alicate, e o esmalte estava borrado. Mas valeu a pena.

Que delícia lavar a cabeça sem aqueles nozinhos chatos do aplique. Que delícia usar pouco xampu e, principalmente, que alegria me olhar no espelho e me reconhecer. Porque aquele cabelão com que desfilei por aí nos últimos 6 meses não tinha nada a ver comigo.
Agora estou aqui, me olhando a cada 5 minutos no espelho, me achando linda. Já passei numa lojinha e comprei um 32 tipos de enfeites para o cabelo (tiara, grampinhos, faixas)...

Adoro meu curtinho. E se eu não fosse tão volúvel, até diria que nunca mais uso mega hair na vida.