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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Um texto da Fernanda Young

A todos que não foram e não ligaram 

Bom, você não foi. E não ligou. A mim, só restou lamentar a sua falta de educação. Imaginando motivos possíveis. Será que você não foi porque realmente não pôde ou simplesmente não quis? Será que não ligou para não me magoar ou justamente o inverso disso?
Estou confusa, claro. Achava que você iria.
Tanto que eu aguardei sua chegada por mais minutos do que deveria, inventando desculpas esfarrapadas para mim mesma. O trânsito, o horário, a meteorologia. Qualquer pneu furado serviria. E até o último instante, juro, achei que você chegaria a qualquer momento. Pedindo perdão pelo terrível atraso. Perdão que você teria, junto com uma cara de quem está acostumada, e assim encerraríamos o assunto. Mas você não foi.
Esperei outro tanto pelo seu telefonema, com todas as esclarecedoras explicações. Para cada razão que houvesse, pensei numa excelente resposta. Para cada silêncio, um suspiro. Para cada sensatez de sua parte, uma loucura específica da minha.
Se você tivesse ligado do celular, eu seria fria. Se tivesse ligado do trabalho, seria levemente avoada. Se a ligação caísse, eu manteria a calma.
Foram muitos dias nessa tortura, então entenda que percorri todas as rotas de fuga. Cheguei a procurar notícias suas pelos jornais, pois só um obituário justificaria tamanha demora em uma ligação.
Enfim, por muito mais tempo do que desejaria, mantive na ponta da língua tudo o que eu devia te dizer, e tudo o que você merecia ouvir, e tudo. Mas você não ligou.
Mando esta carta, portanto, sem esperar resposta. Nem sequer espero mais por nada, em coisa alguma, nesta vida, para ser sincera. No que se refere a você, especialmente, porque o vazio do seu sumiço já me preenche; tenho nele um conforto que motivos não me trarão.
Não me responda, então, mesmo que deseje. Não quero um retorno; quis, um dia, uma ida. Que não aconteceu, assim deixemos para lá.
Estaria, entretanto, mentindo se não dissesse que, aqui dentro, ainda me corrói uma pequena curiosidade. Pois não é todo dia que uma pessoa não vai e não liga, é? As pessoas guardam esses grandes vacilos para momentos especiais, não guardam?
Então, eis a minha única curiosidade: você às vezes pensa nisso, como eu penso? Com um suave aperto no coração? Ou será que você apenas esqueceu de ir?

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

SOBRE QUEM VAI E QUEM FICA

Não é comum a gente ter um amigo, seja na escola, na faculdade, ou até de infância, e ter certeza de que ele (ou ela) é seu grande amigo, aquele que entende você só pelo olhar. Aquele que sabe seus mais íntimos segredos. Mas um dia, bem, não é do dia para a noite, mas aos poucos, o contato vai rareando e, quando percebemos, já estamos tão afastados que num possível encontro há pouca coisa em comum e o papo não flui tão bem. Percebe-se, com um pouco de tristeza, que sua vida e a de seu melhor amigo tomaram um rumo diferente, ambos seguiram por caminhos distintos e já não existe tanta coisa em comum. É chato mas acontece. Mas há aqueles amigos que mesmo depois de um longo período de afastamento - geográfico ou pelo eterno corre-corre da vida - quando nos encontramos, é como se nem a distância e nem a falta de notícias existisse. Você sente o mesmo carinho, a mesma identificação, a mesma intimidade de antes. Outras vezes, um amigo desaparece de um dia para a noite. Esse afastamento é o que mais me dói, mais me intriga: como pode alguém simplesmente sumir da nossa vida? Eu teria meia dúzia de exemplos de amigos queridos de quem o destino me afastou. Tenho outros poucos com quem, embora o contato seja pouco, consigo conversar com a mesma confiança e admiração de outrora. E, claro, tenho alguns amigos que evaporaram da minha vida. Não adianta tentar telefonar, tentar contato pelas redes sociais da vida e garanto que se contratasse um detetive, a tentativa de reaproximação seria um fiasco. Não me acostumo com isso, embora já devesse ter-me acostumado. Dias desses precisava conversar com um amigo querido, de quem sempre ouvi os conselhos atentamente. Estava com mil dúvidas sobre uma escolha a fazer e ele era, pelo menos na minha classificação, a pessoa mais sensata para me falar sobre tudo o que eu precisava ouvir. Tal como quem procura um livro importante, ou a chave da porta, revirei gavetas (mentira: é claro que ele não estava em gaveta alguma. Então, tentei telefonar para ele algumas vezes) e constatei: é, perdi. Onde será que deixei? Ou melhor: para onde ele foi? Lembrei de um poemina do Mário Quintana em que o poeta fala sobre o mistério dos guarda-chuvas esquecido por aí (será que existe um céu para este e outros objetos perdidos?). Tomara que exista uma terra dos amigos sumidos. E tomara que um dia eu consiga contato com este estranho planeta. Neste dia, vou dar um abraço apertado e fraterno em cada um deles e dizer que minha primeira reação foi ficar decepcionada, mas depois o que ficou mesmo foi um vazio do tamanho exato do meu carinho por eles. 

PS: Se houver alguma identificação com esse texto, meu telefone continua o mesmo. E nem meu parceiro ou sua parceira precisam ficar com ciúmes. De vez em quando, eu preciso de um "oi" de um amigo sumido. Só isso. Sem intenções carnais.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

De Valter Hugo Mãe para Marcelino Freire

Marcelino, tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.

Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.

Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.

Naquele encontro, eu consumei tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?

Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.

Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.

Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente.
Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.

Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.

Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O dia que meu amigo me deu um conselho

Ontem um velho amigo meu me falou "você já percebeu que em meia hora de conversa você já falou sobre mil defeitos seus?". 

De fato, no meio da conversa eu soltava umas frases do tipo "nossa! minha unha tá horrível", "meu cabelo tá sem corte" ou "tenho de voltar a malhar, tô gorda".

Quantas vezes, num dia, a gente não repete essas coisas negativa sobre nós mesmas? A gente fala isso com tanta naturalidade, que nem percebe e, quando vê, esse monte de reclamações já virou uma grande verdade na nossa cabeça.

Respondi pro meu amigo que ele me deu um toque muito importante, pois eu, assim como um monte de mulher que conheço, ando precisando gostar mais de mim. Aí ele, que é meu amigo e gosta de mim, se lembrou de alguns elogios que já me viu recebendo. E que, em quase todas as vezes, fiquei sem jeito, quase como se dissesse "para com isso, eu não mereço ser elogiada". Ele saiu falando "Você tem olhos lindos", "suas pernas arrasam" e por aí foi. Falei que ele deveria estar muito inspirado, mas ele respondeu que estava mesmo é preocupado em ver eu mesma me colocar tão pra baixo e quase todas as vezes por causa de 6/ 7 kg a mais.  

Entendi o quão profundo era aquele toque: afinal, sou mais do que isso, mais do que um corpo, mais do que o que a balança me mostra. 

Acreditei no meu amigo e resolvi repetir para mim mesma, como se fosse um mantra, cada uma dos elogios. E me lembrei de outros: sou inteligente, sou uma boa amiga... Decidi não virar uma chata de galocha.

Pô! Gorda de cabelo sem corte e ainda por cima chata? 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SOBRE PAIXÕES E AUTOESTIMA

Sou a favor do amor. Sempre. Sou daquelas que precisa estar apaixonada o tempo todo. Claro que na maioria das vezes o alvo da minha paixão é um rapaz mais ou menos alto, com cara de homem e que beija bem. Mas algumas vezes me apaixono também por um livro, por um trabalho novo. Até por novelas eu sou apaixonada.

Minha última paixão durou 10 meses. Quase um ano de adrenalina pura: frio no estômago, downloads de música para ele, contagem regressiva para o próximo encontro. Uma delícia de vida. Até que a chama foi apagando. A chama dele, é bom deixar claro. Comecei a perceber aqueles sinais que a gente adora fingir que não estão ali, acenando pra gente a fim de mostrar que o outro não está na mesma sintonia. Por sorte os percebi e tratei de fazer o que era preciso: me afastei. Certa vez ouvi que uma dama sempre sabe a hora de se retirar e, mesmo sem ser assim tão dama, tão fina, agi como se fosse. Doeu? Pra caramba, mas doeria muito mais ver aquela história tão gostosa ir morrendo aos poucos. Enchi-me de coragem e falei "acabou, né?". Ele ficou atônito, sem palavras e eu continuei: neguinho, lembra o que combinamos no início? Que só ficaríamos juntos para sermos felizes, nossos momentos juntos seriam os melhores do mundo. Nossa história foi incrível, mas você não está mais a fim, então é hora de acabar.
Acabamos eu e ele, a paixão continuou. Mas meu lado capricorniano fala alto de vez em quando e me faz usar a razão: não vale a pena estar com alguém que não vai feliz da vida ao cinema comigo. Não vale a pena fazer-me cega para a falta de paixão do outro. Semanas de choro e muito colinho de amigas depois, reencontrei meu eixo e fiquei feliz por saber que fiz algo tão bom para minha autoestima, para meu amor próprio. E, principalmente, por ver que não deixei uma linda história de paixão, sexo e desejo virar uma coisa mais ou menos. Nosso romance teve um infarto fulminante, não precisou ir pra UTI, não agonizou. E hoje é uma linda lembrança.
Ok, eu sei que você vai pensar "pô, Aline, você deveria ter investido mais" ou "Ai, você desiste muito fácil". Não, eu não desisto fácil, eu só aprendi que para mim "pouco" nunca é o bastante. Eu quero tudo, eu quero muito. Sim, você advinhou: eu sou exigente. Estar com alguém que não está comigo me faz um mal imenso. E há algum tempo aprendi que sou eu que preciso cuidar de mim, não posso deixar esta responsabilidade nas mãos do outro. É muita responsabilidade para ele e muita burrice da minha parte.
Geralmente condicionar a felicidade ao fato de ter um namorado faz mal à minha saúde mental, à minha autoestima. E quando a paixão vai ladeira abaixo, me dá uma vontade imensa de desistir do amor. E se tem uma coisa a que me recuso é endurecer meu coração. O dia que isto acontecer vou perder o que tenho de mais bonito em mim: a capacidade de amar. Então, prefiro eu mesma cuidar de mim, ser seletiva, ser cuidadosa. Sou especial demais para me entregar a qualquer um. Da mesma forma que abandono um livro ruim, não uso uma roupa que não me caia bem, também dispenso um namoro morno. Sou especial demais e qualquer hora vai pintar um carinha apaixonado por mim. Enquanto isso, vou curtindo outras paixões: meus livros, meus textos, meus amigos.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Meu presente de Natal


Eu acho o Natal meio chato. Na verdade, acho um saco. Só é um pouquinho legal quando a gente faz amigo-oculto lá em casa. Aí, sim eu gosto.


Só que ninguém gosta de tirar meu nome. Mas, pelo que dizem, não é nada pessoal, não: é que, segundo a lenda, eu tenho tudo e é muito difícil escolher um presente pra mim.


Quando me perguntam o que quero ganhar, respondo "me dá qualquer coisa". Mas a verdade é que sou mesmo chata e nem sempre gosto de ganhar ''qualquer coisa". Bem, sou chata mas não sou insensível,né? O "qualquer coisa" que eu quero dizer é um presente escolhido com carinho.Pra mim, qualquer presente dado com carinho é o melhor do mundo. Mas a verdade é que todo ano a espinha da galera se arrepia só de pensar que pode tirar meu nome no amigo-oculto.


Fazia tanto tempo que eu não ganhava um presente, digo um presente especial. Um presente cuja vontade de me presentear fosse muito maior do que o valor dele em si.


Este ano eu ganhei. E foi o presente mais bonito do mundo. Do jeito que eu adoro: dado com carinho e cheio de ritual.


Ritual de amigo-oculto é aquele pra lá de batido: a pessoa começa a falar sobre a pessoa sorteada... "O meu amigo-oculto é isso, é aquilo...".

Foi assim que ganhei meu presente. O melhor do mundo.


"Meu amigo oculto é a pessoa mais importante da minha vida. Meu amigo oculto é o amor da minha vida: a minha filha Aline". Com essas palavras, meu pai me entregou uma caixa com um sabonete líquido e um creme hidratante. Só que eu nem olhei direito para a caixa. Eu só consegui sentir a eternidade daquele momento. Logo eu, que quero que o tempo passe logo porque acho que tudo é um saco, e o minuto seguinte será melhor e menos tedioso. Naqueles minutos eternos, achei o Natal a data mais bonita do mundo. Naqueles minutinhos o mundo ficou mais leve, mais colorido.


Se ficou mesmo, não sei. Deve ter ficado, mas pra falar a verdade, não prestei muita atenção. Eu só consegui pensar que aquele era o melhor presente do mundo. O mais precioso que eu ganhei na vida inteira.


A tal lenda não é lenda: eu realmente tenho tudo.




                                                         (Este texto foi publicado originalmente em dezembro de 2008. Ontem foi o Natal de 2015 e foi o 1o Natal sem ele, meu pai, meu grande amor. Se eu já não gostava de Natais, agora então... 

Mas este ano fiz questão de estar junto de pessoas queridas. Falei "Feliz Natal" como havia muito não falava, falei com a alma, sabe?  Fui para a ceia da "Grande Família", ou melhor, para a casa do Osmar, sogro da minha irmã.

É uma família especial, daquelas que a gente tem certeza de que não colocou no nosso caminho a toa. E eu realmente não sei o que teria sido de mim, da minha mãe e da minha irmã sem eles durante nosso "Tsunami emocional".  Finalmente consegui abraçar cada um deles e falar o "obrigada" que eu tanto queria, pelo tanto que eles fizeram pela Gi, pelas meninas, pelo Érick, pela minha mãe e também por mim. Osmar, tia Léia e seu exército, seus gladiadores (filhos, noras, genro, netos e agregados), que tanto lutaram pela vida da Gi e do Érick; que amenizaram minha dor; que nos acolheram. 

Perder meu pai me transformou de tal forma que jamais serei inteira novamente. Mas essa transformação se deu tanto de uma maneira negativa (meu sorriso não será nunca mais completo) quanto de um jeito positivo: nunca, mas nunca mais mesmo verei as coisas sob apenas um ângulo. Sofrer essa dor e estar junto àquela família me fez enxergar que eu não sou nada, que  minha vida não vale absolutamente nada, se eu não puder, da maneira que for, ajudar alguém. 

Afinal, de Simões, Mattos e louco, felizmente, os bons sempre têm um pouco.).


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O seu baseado

Aquele baseadinho que você fumou, bem despretensiosamente, ajudou a comprar a arma que matou o Marco.


sábado, 20 de dezembro de 2014

IRMÃ MAIS VELHA PRA QUÊ?

Geralmente as meninas têm vontade de ter uma irmã mais velha, aquela que elas acham mais bonita do que qualquer outra, aquela em que elas se espelham, a quem admiram e que, geralmente, são as mais populares no colégio. Eu só tenho uma irmã mais nova e nunca senti falta de uma mais velha. Afinal, eu tenho uma PRIMA MAIS VELHA, que sempre foi a mais linda de todas as meninas, meu exemplo de garota legal, descolada, de quem eu queria ser quando crescer, que sempre foi popular. E a quem eu sempre desejei muita felicidade. Hoje é aniversário dela e só me vem uma frase à cabeça : Guízela, TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A queda Ou: o que aprendi com uma cicatriz


Há exatos 10 anos, tive um dia como tantos outros: trabalhei, paguei contas, li o jornal, vi uns roteiros de viagem, mandei beijo para o namorado, falei com um ou outro amigo. Os dias, por mais que a gente não perceba, são quase sempre quase iguais. 
Na saída do trabalho, dei alguns "até amanhã" para quem estava perto e segui para a academia. De moto, uma grande paixão.

Os dias, porém, por mais que pareçam ser sempre iguais, vez ou outra mudam um pouco. Sim, Drummond estava certo: existem pedras no meio do caminho. 
Naquele dia, no meio do meu caminho apareceu uma pedra e não deu tempo de desviar. Sofri um acidente com minha moto, uma Tornado (pra quem não sabe, é uma moto bem pesadinha, viu?), me estatelei na Av. Epitácio Pessoa, na Lagoa. Beijo no asfalto. Numa hora dessas, não há o menor clima para poesia e o que me veio à cabeça foi um sonoro "puta que pariu!".

Os bombeiros chegaram bem rápido e foram muito atenciosos: dentro da ambulância, percebendo que eu chorava de dor, um deles segurou minha mão e disse que tudo ia ficar bem. Fui levada ao Hospital Miguel Couto (em acidentes de trânsito, o primeiro atendimento deve ser em um hospital público. Vai entender). Antes, porém, liguei para dois "anjos da guarda": um grande amigo policial (é que a PM apareceu pra fazer o registro e achei melhor me orientar com um policial de confiança) e o ex marido, que foi imediatamente me dar assistência.


No dia seguinte fui a um hospital "de verdade", um particular onde fui bem atendida. O prognóstico médico, porém, não foi dos mais agradáveis: pelo menos 3 meses de molho. Quando ouvi isso, me bateu uma ansiedade, um medo de este tempo se arrastar e uma sensação de que eu ia perder um tempão da minha vida até ficar boa de novo. Passaria Natal, Reveillon, meu aniversário e Carnaval em casa, de perninha pra cima. Levando em conta que neste meu amado Rio, o Verão só é agradável pra quem gosta de sofrer, saquei logo que aquelas férias forçadas não seriam muito agradáveis.

Felizmente minha mãe me ensinou que "tudo acontece com todo mundo". Cresci ouvindo isso dela - que perdeu a mãe aos 15 anos mas nunca se fez de coitadinha, nunca reclamou da vida. Ela conta que chegou do cemitério e falou "Pai, vamos chorar tudo hoje porque amanhã a gente tem de voltar a viver". Quando ouvi isso pela primeira vez falei "Mãe, você não sofreu? Retomou a vida assim, tão fácil?". Sua resposta foi uma lição que trago como uma das verdades mais absolutas do mundo: Filha, mamãe já tinha morrido e eu não podia fazer mais nada por ela. Não ia adiantar sentar e chorar. Papai estava devastado, suas tias - elas tinham 13 e 16 anos - então, nem se fala. Alguém tinha de reagir. Se eu me entregasse, o sofrimento ia durar para sempre". Em vez de amaldiçoar a vida e se achar uma pobrezinha órfã, ela escolheu viver, cuidar dela mesma e, principalmente, do Vovô Gouvêa e das minhas tias.

Cheguei em casa e combinei duas coisas comigo mesma: a 1a foi não fazer aquela clássica pergunta "Por que eu?". Já que "tudo acontece com todo mundo", não fazia sentido eu bancar a vítima, reclamar e sofrer. Sem contar que entendo que quando perguntamos coisas do tipo "logo comigo?" é como se falássemos "Pô! Sou tão boazinha, é injusto! Aquele fulano, sim, merecia um acidente desses". É uma baita falta de humildade. 

A 2a decisão foi fazer que nem naqueles programas tipo AA: "SÓ POR HOJE" e assim não ficar fazendo uma contagem regressiva para o dia que voltaria a andar sem muletas e pudesse levar minha vida normalmente.

Essas duas posturas me deram uma serenidade danada (e vou contar uma coisa pra vocês: serenidade é uma coisa que experimentei pouquíssimas vezes na vida) e me ajudaram bastante. 


Minha condição de "dodói" me trouxe várias descobertas. Vi que eu dependo, sim, de muita gente: pra tomar banho, pra levantar da cama, pra me levar ao médico. Eu, que sempre tentei fazer tudo sozinha, tive de acionar várias pessoas para me ajudar nas tarefas mais simples, desde fazer um curativo na imensa ferida que o asfalto quente abriu, até comprar um chocolate quando a vontade batia.


Eu, recebendo o carinho da minha linda e amada sobrinha Mariana.
Os primeiros pedidos de ajuda foram difíceis de fazer. E foi um soco no estômago descobrir na terapia que isso se devia ao fato de eu ser muito controladora e achar que não precisava de ajuda pra nada. Aliás, minha prepotência me fazia acreditar que o outros é que precisavam de minha ajuda. Eu? Ah, eu era boa o suficiente para dar conta de mim e de todos os outros. O acidente me mostrou que não é bem assim. Foi bom aprender a pedir colo, principalmente à minha família e aos amigos próximos. 

Outro grande aprendizado foi perceber que a mesma pessoa que te fez um dia sofrer muito pode ser aquela que te dá a mão numa hora extrema. Não dá pra definir o caráter de uma pessoa ou o seu sentimento por ela (e o dela por você) em situações isoladas, é preciso nunca se esquecer do contexto. Há pessoas que são seu céu e seu inferno. E isso é uma constatação, não um sentimento.


Fiquei emocionada algumas vezes quando o telefone tocava e era um colega de trabalho que nem era tão íntimo meu e, mesmo assim, se colocava à disposição para uma possível ajuda. Da mesma forma, alguns que eu julgava serem companheiros, não se deram ao trabalho de saber como eu estava. Ótima oportunidade para reciclar as amizades. 

Durante o longo tempo que fiquei afastada daquilo que julgava ser a vida real (a mesma vida que eu achava que estaria deixando de viver enquanto me recuperava) percebi que vida é vida. Esteja eu trabalhando, doente em casa ou de mal com o mundo. As coisas não param e sou eu quem devo me adaptar ao ritmo desta dança. As coisas continuam, esteja eu lá ou não.

Meses depois, voltei a trabalhar, ainda com alguma dificuldade para andar e tinha sempre alguém para me ajudar. Achava tão fofo receber este tipo de carinho. 


Uma pessoa me perguntou se era muito difícil me olhar no espelho e ver minha perna "deformada": enquanto a esquerda estava grossa e malhada, a direita estava fina, sem firmeza, com uma cicatriz berrante, feia mesmo. Respondi apenas "Dá para andar, então estou no lucro". 

Quando você passa pelo que eu passei, fica caída numa autopista tão movimentada em pleno horário de "rush", é socorrida por bombeiros, se depara com a emergência de um hospital público, ah, meu filho, quando você passa por isso, começa a olhar a vida com olhos menos críticos, as prioridades mudam.

Um dia, na terapia, concluí que aquele acidente era meu, era eu quem devia passar por tanta privação, dor. E, principalmente, que cabia somente a mim a decisão de ficar meses de repouso apenas ou refletir sobre minhas condutas, minhas prioridades e, sobretudo, sobre a fragilidade da vida.

Hoje, as pernas já estão com a mesma medida, ando normalmente e tenho uma pequena cicatriz no joelho. O engraçado é que sou super vaidosa, tenho mil cremes, adoro uma novidade da cosmética mas NUNCA, nunquinha, usei creme algum para tirar esta marca. Gosto de olhar para ela porque me faz lembrar o quanto fui forte.

Tombos, por mais violentos que sejam, não vencem os fortes, os decididos. De lá pra cá, já levei outros vários tombos. Alguns deles me pareciam ser o derradeiro. Que nada! De um jeito ou de outro, acabei me levantando.


Por tudo isso adoro cada uma das cicatrizes que trago - no corpo ou na alma.


OBS: Este texto foi publicado originalmente em 13/12/2008.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Dia da amizade

Hoje minha amada amiga-irmã-parceira faz aniversário. E tudo o que eu disser que desejo a ela será incompleto porque só eu sei como Deus foi bom e generoso ao colocar uma pessoa tão doce no meu caminho.

Gui, não há uma única vez que eu ouça a palavra "amizade" que não me lembre de você. A associação é imediata porque eu acho que aprendi a ser amiga com você.

Meu beijo cheio de amor e admiração. 

sábado, 20 de setembro de 2014

sábado, 12 de julho de 2014

ANIVERSÁRIO DE AMIGO


Sabe quando você olha para uma pessoa e sente como se ela tivesse uma espécie de imã, algo que faz você se sentir ligado a ela imediatamente?

Não há muitas explicações para isso. Será que é isso o tal do "amor à primeira vista"? Talvez sim, porque esta expressão não deve ser aplicada somente ao amor entre homem e mulher. Pode muito bem ser aplicada no que se refere à amizade.

Pois é, a primeira vez que vi o Ronaldo foi assim. Olhei pra ele e pensei "seremos amigos". Não me enganei: tornamo-nos amigos quase imediatamente. Eu apenas não sabia o quão forte esta amizade se tornaria. E a quanto ela resistiria: distância geográfica, males-entendidos, rotinas diferentes...

Sempre houve um carinho muito especial entre nós. No início ele era o "Ronaldo da Cesgranrio", depois virou "melhor amigo do meu namorado", foi também o "padrinho de casamento". Hoje somos amigos e parceiros, para o bem e para o mal. Ele é o "O amigo". Um amigo que esteve ao meu lado em momentos muito felizes e também em episódios chatos. Sempre lá, sorrisão no rosto, palavra amiga, piadas para quebrarem o clima...

Faz 17 anos que o conheço. E desde o primeiro instante percebi que ele é uma daquelas pessoas que têm vocação para amizade, vocação para agregar as pessoas. 

Ronaldo, hoje é seu aniversário e não tenho muitas novidades para falar para você. Pelo menos nada que já não tenha dito pessoalmente. O que desejo para você também é mais do que notório: TUDO aquilo que você merece. E você merece muito.

Só mesmo o Rei para falar o que sinto:
Você meu amigo de fé meu irmão camarada, amigo de tantos caminhos
de tantas jornadas
Cabeça de homem mas o coração de menino, aquele que está do meu lado
em qualquer caminhada
Me lembro de todas as lutas meu bom companheiro, você tantas vezes provou
que é um grande guerreiro
O seu coração é uma casa de portas abertas, amigo você é o
mais certo das horas incertas
As vezes em certos momentos difíceis da vida, em que precisamos
de alguém para ajudar na saída
A sua palavra de força de fé e de carinho, me dá a certeza de que eu nunca
estive sozinho
Você meu amigo de fé meu irmão camarada, sorriso e abraço festivo da minha chegada
Você que me diz as verdades com frases abertas, amigo você é omais
certo das horas incertas
Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber,
que você é meu amigo
Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber
que eu tenho um grande amigo

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

DIA DE FESTA



Hoje é aniversário de uma daquelas pessoas que eu nem sei definir se é amiga, irmã ou se é parte de mim mesma: SABRINA.
Sabe quando você tem certeza absoluta de que sua vida seria menos alegre se esta pessoa não fizesse parte dela? Pois é.
Sá,
eu e Guigui fizemos esta foto com tanto carinho que ficamos até emocionada na hora. É só mais uma das muitas provas de que você está sempre nos nossos corações.
Que sua vida seja tão bonita quanto esse sorrisão que conquista todo mundo. Te amo.

Você é minha amiga de fé, minha irmã camarada,
amiga de tantos caminhos
de tantas jornadas
Cabeça de mulher mas um coração de menina,
aquela que está ao meu lado
em qualquer caminhada

O seu coração é uma casa de portas abertas,
Amiga, você é a mais certa das horas incertas.
Às vezes em certos momentos difíceis da vida,
em que precisamosde alguém para ajudar na saída
A sua palavra de força, de fé e de carinho,
me dá a certeza de que eu nunca estive sozinha.

Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo,
mas é muito bom saber que você é minha amiga

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SAUDADE DE MIM

Ando com uma saudade tão grande de mim. Sinto falta do meu sorriso, da certeza de que coisas boas acontecem sempre. Saudade imensa de alguns amigos que ao me ver rolar ladeira abaixo, apagaram meu telefone de suas agendas. 
Houve um tempo em que eu não me sentia tão descartável. Disso eu sinto muita falta.
Ando com uma tristeza maior do que poderia escrever. Estas lágrimas descrevem isso bem melhor e com maior exatidão.

domingo, 6 de novembro de 2011

PARABÉNS

Hoje é aniversário de uma querida leitora, a Mônica. Jamais poderia deixar de deixar aqui meu abraço carinhoso a esta lindona.

Quinha, te adoro!!!!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

DELICADAS, AS AMIZADES - AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA


"Pode-se dizer tudo o que se pensa a um amigo?"
"Quanto de verdade suporta um amigo?"
"Aliás, o que é a verdade?", já indagava Pilatos antes de crucificar o outro.
"Como combinar, articular, fazer coabitar a verdade nossa com a verdade do amigo?"
São muito delicados os amigos. Ou se quiserem, as amizades. São delicadíssimas. E é por isso que convém aceitar que cada amizade tem suas fragilidades.
Bom, se o anel que tu me deste era vidro e se quebrou, então, melhor seria que de diamante fosse. Este, inquebrantável.
Mas amizade, convenhamos, é coisa humanamente frágil. E a gente pensa que ela está aí para sempre. Mas não tem a durabilidade centenária das sequoias, que ficam se alongando e nos ofertando sombra acima de tudo. Às vezes, as amizades são essas orquídeas, carentes de um tronco alheio onde se alimentar e florescer.
A gente pensa que amizade é coisa só de seres humanos. Não é. Os animais curtem amizades; alguns, o amor, e outros chegam à paixão extrema por seus donos. E, no entanto, amigos, alguns cães se mordem, quase se arrancam as orelhas num ou noutro embate, às vezes por uma cadela no cio, às vezes por nada.
Pode-se perder uma amizade por excesso de zelo, como se ao esfregar demais o tecido o rompêssemos. Cuidado, portanto, com o excesso, às vezes excessivo. Claro, também se perde amigo pela escassez de socorro ou de sinalizações afetivas. Também pela fala mal desferida. Ou mal ouvida. A gente fala ou escreve uma coisa, o outro ouve outra coisa. Se não der para desentortar a frase ou o ouvido alheio, a amizade fica torta.
Diz o apóstolo Paulo que o amor tudo suporta, tudo espera, tudo perdoa.
- Será assim a amizade?
Até hoje não ficou muito clara a diferença entre amor e amizade. Mesmo porque muito amor termina se metamorfoseando em amizade; uma amizade pode virar amor, e podemos inimizar a quem amamos e nos esforçamos por ser amigo de quem nos despreza. De resto, para matizar ainda mais as coisas, os franceses costumam falar de "amizade amorosa", algo parecido com que aqui há tempos se chamou de "amizade colorida".
Mas o que fazer quando algo nos incomoda no outro e a gente sente que, se não falar, a amizade vai começar a ratear?
Não há amizade assim solta no ar. Cada amizade tem sua usança e sua pertinência.
Deveríamos então criar um manual, algo assim como "Amizade, modo de usar?". Ah, sim! mas isso já existe, está, lá naquele best-seller Como fazer amigos e influenciar pessoas. Está?
Drummond tinha razão, uma triste razão, é verdade, ao dizer que as pessoas deveriam manter entre si a mesma relação que entre si mantêm a ilha e o continente, um certo distanciamento e uma não muito estouvada confraternização.
Mas aí a amizade vira algo pouco tropical, e como Thomas Merton dizia que nenhum homem é uma ilha, o que fazer com os que não têm a fleuma mineiro-britânica e não suportam viver num frio ou morno relacionamento?
Há pilotos que pousam pesados Jumbos com uma suavidade angelical, e por isso merecem aplausos.
Há médicos que fazem incisões profundas para manter o outro vivo.
Como dizer o que se deve dizer sem sangue ou náusea?
Um dia um ex-amigo me disse: "No princípio tentei te imitar, depois resolvi te destruir."
Tive de me proteger.
Quem, como José Martí, dirá que "cultivo a rosa branca em junho e em janeiro para o amigo sincero que me dá sua mão franca, e para o cruel que me arranca o coração com que vivo, nem cardo ou urtiga cultivo, cultivo a rosa branca"!?
Delicadas, as amizades. Uns porque se aproximando do poder esquecem os que no poder não estão. Neste caso não se pode nada. Outros porque viajam de formas várias e absolutamente impenetráveis ao redor do próprio umbigo. Retornarão algum dia?
Neste caso, como dizia Neruda, os de então já não seremos os mesmos.
Há vocacionados para amizade. Têm um dom natural. Árvores copadas onde se reúne o rebanho. Quando você vê, está todo mundo ali ouvindo, curtindo ou simplesmente estando.
Qual o grau de resistência de uma amizade? De um metal podemos dizer: derrete-se a tal ou qual temperatura.
São delicadas, as amizades. E mesmo as mais sólidas às vezes se desmancham no ar.

domingo, 29 de maio de 2011

AO CAZÉ. 20 ANOS DE SAUDADES

Há exatos 20 anos, um cara "alegre e extrovertido" se foi. Eu e meus amigos de Paraty fomos marcados, cada um a seu modo, por esta tragédia.
É bem provável que muitos nem se lembrem desta data, mas o que realmente importa é que suas piadas, seu sorriso cativante e suas histórias engraçadas ainda estão vivas em nossos corações. Mesmo que de vez em quando bata uma saudade danada...
E na falta de palavras mais adequadas, recorro à música da Legião Urbana. Afinal, a Legião compôs todas as trilhas sonoras daquela turma de jovens, felizes, imortais. Até que bebida, direção e uma sucessão de erros se encontraram e levaram o Cazé embora da gente.




É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais

Quando eu lhe dizia
Me apaixono todo dia
É sempre a pessoa errada
Você sorriu e disse
Eu gosto de você também
Só que você foi embora...
Cedo demais!

Eu continuo aqui
Meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você
Em dias assim
Dia de chuva
Dia de sol
E o que sinto não sei dizer...

Vai com os anjos
Vai em paz
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez...

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais...

Eu aprendi a ter
Tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre mais eu sei
Que você está bem agora
Só que neste mundo
O verão acabou
Cedo demais

- Legião Urbana

quinta-feira, 26 de maio de 2011

PARA NACÍLIA

Ando muito sem tempo de escrever, mas recebi um recadinho da Nacília e achei este texto do Xexeo bem apropriado para respondê-la. A ela e a todos que pensam "ué, a Aline sumiu!". 


oi Aline sou eu mais uma vezes Nacilia,todos os dias dou uma passadinha aqui pra ler seus post,tenho andado meio preocupa,vejo que pra nossa tristesa(seus seguidores) vc não tem postado.Espero que esteja tudo bem com você,que deus continue iluminando seu caminho.
Abraços de uma grande fã. 





"Cronistas escrevem para serem amados. Duvido que algum escreva para irritar o leitor. Para receber mensagens dizendo “como foi medíocre seu texto de hoje”. A gente gosta quando o e-mail, a carta, o encontro na rua termine com “Você escreveu exatamente o que eu pensava”, “Eu me identifiquei muito com o que você disse hoje”, “Como é que você teve essa ideia genial?”. 

No domingo passado, achei que tive uma boa ideia, uma ideia genial, e reproduzi, neste espaço, uma briga de casal que tinha captado na rua por meio de uma conversa no telefone celular. O que eu queria era, de uma maneira original, comentar o hábito cada vez mais frequente de as pessoas gritarem ao telefone conversas que deveriam ser particulares. 

Definitivamente, não agradei. O primeiro sinal veio de um comentário curto e grosso aqui no blog. “Achei sua crônica muito fraquinha.” Cheguei a pensar que ninguém mais teria tanto poder de síntese, mas só até ler o segundo comentário: “Fraquíssima!”. E, a partir daí, a coisa só desandou: “Qualquer criança faz um negócio melhor do que esse que você escreveu”. 

O meu domingo estava acabado, e o cronista que vos fala passou a sofrer aquilo que mais teme: a rejeição. “Utiliza-se um espaço no jornal pra isso?”, indagava um leitor. “O jornalismo brasileiro desde muito tempo tem carência de bons e verdadeiros cronistas”, alertava outro. 

“Xexéo já foi bem melhor”, disse um leitor (ex-leitor?) nostálgico. “Que coluna xexelenta!”, avaliou outro, bulindo com meu sobrenome. 

Parei de ler o que me chegava logo depois de tomar conhecimento da mais agressiva de todas as mensagens: “Você deve receber um ótimo salário. Mas escreve uma porcaria de crônica como esta, digna de quem realmente não tinha nada para escrever, praticamente um rascunho mal feito no banheiro e que nem para papel higiênico serve. Lamentável!” 

Antes de pensar seriamente em aposentadoria ou rascunhar um texto que pedisse desculpa aos leitores por ter sido tão ruim, encontrei uma nesga de carinho em um dos comentários (eu estava mentindo e, na verdade, continuei lendo as críticas): “Essa foi fraca. Digna de quem tinha prazo, mas não tinha ideia. Mas tenha certeza de que você acerta mais do que erra. Vou aguardar a próxima.” 

Bem, pelo menos mantive um leitor. Já estava acreditando que aqueles 17 que costumam me acompanhar tinham desistido. Ficou um para “aguardar a próxima”. Não é pouca coisa. 

Cronistas não gostam de ser rejeitados. Podem ser incompreendidos, mas fracos, fraquíssimos, nunca. O que poderia conter aquele texto sobre uma briga de casal que irritou tanto os leitores? Só tenho uma explicação. Continuo amado, como todo cronista acha que é. É que naquele domingo, naquele específico domingo, o leitor acordou de mau humor."





É isso aí, Nacília, está tudo bem, sim, só que não tenho tido muito assunto interessante nos últimos tempos. Beijos.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

TIA CORUJA NEWS INFORMA

Domingo, 10/04, nasceram em Laranjeiras meus 2 sobrinhos: João e Paulo, filhos da minha "irmã" Guigui e do Léo.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011