sábado, 10 de julho de 2010

SOBRE QUEM VAI E QUEM FICA

Não é comum a gente ter um amigo, seja na escola, na faculdade, ou até de infância, e ter certeza de que ele (ou ela) é seu grande amigo, aquele que entende você só pelo olhar. Aquele que sabe seus mais íntimos segredos. Mas um dia, bem, não é do dia para a noite, mas aos poucos, o contato vai rareando e, quando percebemos, já estamos tão afastados que num eventual encontro há pouca coisa em comum e o papo não flui tão bem. Percebe-se, com um pouco de tristeza, que sua vida e a de seu melhor amigo tomaram um rumo diferente, ambos seguiram por caminhos distintos e já não existe tanta coisa em comum. É chato mas acontece.
Mas há aqueles amigos que mesmo depois de um longo período de afastamento - geográfico ou pelo eterno corre-corre da vida - quando nos encontramos, é como se nem a distância e nem a falta de notícias existisse. Você sente o mesmo carinho, a mesma identificação, a mesma intimidade de antes. Outras vezes, um amigo desaparece de um dia para a noite. Esse afastamento é o que mais me dói, mais me intriga: como pode alguém simplesmente sumir da nossa vida?
Eu teria meia dúzia de exemplos de amigos queridos de quem o destino me afastou. Tenho outros poucos com quem, embora o contato seja pouco, consigo conversar com a mesma confiança e admiração de outrora.
E, claro, tenho alguns amigos que evaporaram da minha vida. Não adianta tentar telefonar, tentar contato pelas redes sociais da vida e garanto que se contratasse um detetive, a tentativa de reaproximação seria um fiasco. Não me acostumo com isso, embora já devesse ter-me acostumado.
Dias desses precisava conversar com um amigo querido, de quem sempre ouvi os conselhos atentamente. Estava com mil dúvidas sobre uma escolha a fazer e ele era, pelo menos na minha classificação, a pessoa mais sensata para me falar sobre tudo o que eu precisava ouvir.
Tal como quem procura um livro importante, ou a chave da porta, revirei gavetas (mentira: é claro que ele não estava em gaveta alguma. Então, tentei telefonar para ele algumas vezes) e constatei: é, perdi. Onde será que deixei? Ou melhor: para onde ele foi? Lembrei de um poemina do Mário Quintana em que o poeta fala sobre o mistério dos guarda-chuvas esquecido por aí (será que existe um céu para este e outros objetos perdidos?). Tomara que exista uma terra dos amigos sumidos. E tomara que um dia eu consiga contato com este estranho planeta. Neste dia, vou dar um abraço apertado e fraterno em cada um deles e dizer que minha primeira reação foi ficar decepcionada, mas depois o que ficou mesmo foi um vazio do tamanho exato do meu carinho por eles.

PS: Se houver alguma identificação com este texto, meu telefone continua o mesmo. E nem meu parceiro ou sua parceira precisam ficar com ciúmes. De vez em quando, eu preciso de um "oi" de um amigo sumido. Só isso. Sem intenções carnais.