sábado, 12 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS SEM MEU PAI

Amanhã será meu terceiro Dia dos Pais sem meu pai. Não que fizéssemos questão de comemorar essas datas – Natal, aniversário ou mesmo o segundo domingo de agosto juntos... Nossa união era maior do que datas. Éramos amáveis um com o outro o ano inteiro. Mesmo assim não será um dia fácil para mim.
   Estes dois anos e cinco meses sem meu pai têm sido difíceis e, ao que tudo indica, haverá ainda muito tempo pela frente para eu me recuperar desta perda.
   Perder meu pai foi, sem dúvida, a coisa mais difícil que já me aconteceu. Chega me dar saudade dos antigos problemas que enfrentei: separações, perda de emprego... Todas as outras situações que, na época, pareciam incrivelmente difíceis perderam o peso. Viver sem meu pai é tão maior do que tudo.
   Sempre fui a “filhinha do papai”, mesmo adulta eu tinha meu paizinho ali, com seu abraço, seu colo, seu zelo. Aquele 10 de março de 2015 me tirou tudo isso e me transformou em adulta. Eu não estava pronta para deixar o colo do meu pai e me deparar com a vida de “gente grande”.    
   Eu e meu pai sempre fomos inseparáveis, unidos mesmo. Falávamos a mesma língua, gostávamos das mesmas coisas. Havia entre nós dois um algo a mais, uma espécie de adoração mútua: ele era meu ídolo e meu fã. Meu pai e meu filho.
   Dizem que ele tinha alguns defeitos. Mas eu não os enxergava. Só via nele coisas boas, gostava de tudo nele. E “ai” de quem falasse algo negativo sobre ele. Eu me descontrolava mesmo. Uma vez, eu tinha uns 10 anos, briguei (briga física mesmo) com meu primo Alberto na frente da Igreja da Matriz. Motivo? Alberto falou que meu pai era careca! Achei o fim e parti pra cima dele. Onde já se viu falar que meu pai era careca...      
   Vou falar uma coisa bem íntima, que já me passou pela cabeça algumas vezes desde que ele se foi: eu gostaria que ele não tivesse sido tão bom comigo. Sei lá, desejei por vezes que ele fosse  menos carinhoso, um pouco mais ausente. Quem sabe assim eu não sentiria menos sua falta? Mas não, ele foi um pai excepcional. Eram tão bonitinhas as coisas que ele fazia por mim, tipo, comprar livros e mais livros porque eu gostava de ler e se orgulhar por me ver lendo. Ou me ensinar a andar de moto porque achava lindo mulher pilotando. Coisas simples que me marcaram. Ah! Teve também o dia que um namorado pediu minha mão em casamento e ele se levantou da mesa e se trancou no quarto. Não deu resposta. Todos acharam aquilo uma grosseria, eu achei lindo.
   Ele arrumava minha cama, fazia meu Nescau de manhã e nunca deixava faltar nem Coca Zero e nem leite desnatado. Eu também cuidava dele. Muito. Fosse mandando cartõezinhos do tipo “eu te amo”, fosse procurando por um tratamento para seu problema de vista. A gente se curtia e se cuidava.
   A vida do meu pai andava muito difícil nos últimos anos: perdeu a mãe, dois irmãos (como ele era apaixonado pelos irmãos. Todos os quatro!), perdia a visão aos poucos... Ele tinha tanto medo de ficar cego! Sorria cada vez menos. Mas nós (eu, minha mãe, minha irmã, meu cunhado, minhas sobrinhas e a tia Hélcia – sua irmã caçulinha) nunca deixamos de dar nosso amor a ele. Aliás, era tão fácil amar aquele cara: bastava conhecê-lo um pouco, passar 15 minutos em sua companhia e qualquer um sacava sua alma de criança, seu coração puro.   
   O último Dia dos Pais que passamos juntos foi bem triste: foi o sepultamento de seu irmão mais novo. E ele parecia ter morrido um pouco naquele dia. Almoçamos em um silêncio eloquente e ele entendeu tudo o que eu não disse sobre meu amor por ele.
   Eu não tive apenas um pai, tive um amigo, um filhinho, o maior fã. Ele sempre será o amor da minha vida. Não importa em qual dimensão esteja. 
   Amanhã eu ligaria para ele, falaria o quanto sou feliz por ter um pai tão especial. Igual fazia três, quatro vezes por semana, o ano todo. E ao desligar o telefone, sentiria um amor tão forte que me faria olhar para os céus e agradecer por conhecer aquele sentimento bonito, forte, incondicional.
   Este mesmo amor continua existindo aqui dentro de mim. Já cheguei a perguntar a meu Mestre se é normal continuar amando alguém que não está mais aqui. Ouvi que sim, que amor não depende de o outro estar presente, da expectativa de estar próximo ao ser amado. Amor existe e pronto. E quando é amor de verdade, ele pode até dar uma dor no peito, mas sobretudo, ele nos dá paz.  
    E quando penso no meu pai, eu sinto isso: uma paz imensa... Minhas lembranças dele são cheias de paz, de serenidade. Talvez pela certeza de que cumprimos nossa missão aqui na Terra de sermos pai e filha “de verdade”. E também porque eu sei que sua ausência é somente física. E que sua alma, sua essência, está em algum outro lugar evoluindo espiritualmente. E acredito também que, de vez em quando, ele se faça presente e olhe por mim.  
    Amanhã é certo que eu fique meio encolhidinha no meu canto. Quase aposto que algumas lágrimas vão descer. Mas vou certamente lembrar que fui uma das poucas felizardas que soube celebrar a sorte que é ter um pai de verdade. E vou agradecer a D´us por ter me dado meu Cléber, meu Tataio, como pai aqui na Terra.
    E, como eu disse outro dia: o cidadão Cléber de Oliveira Mello morreu, tem até atestado de óbito. Mas o meu pai, ah, o meu pai estará sempre vivo em mim.


  

domingo, 2 de julho de 2017

Otimismo x Esperança - Rubens Alves



"Hoje não há razões para otimismo. Hoje só é possível ter esperança.
Esperança é o oposto de otimismo.
Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro.
Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.
Camus sabia o que era esperança. Suas palavras: e no meio do inverno eu descobri um verão invencível...
Otimismo é alegria por causa de: coisa humana, natural.
Esperança é alegria a despeito de: coisa divina.
O otimismo tem suas raízes no tempo. A esperança tem suas raízes na eternidade.
O otimismo se alimenta de grandes coisas. Sem elas, ele morre.
A esperança se alimenta de pequenas coisas. Nas pequenas coisas ela floresce. Basta-lhe um morango à beira do abismo.
Hoje, é tudo o que temos (...): morangos à beira do abismo, alegria sem razões. A possibilidade da esperança..."

Trecho da crônica o Otimismo e a esperança, de Rubens Alves, publicado no livro Conserto Para Corpo e Alma.
Leia mais sobre o autor aqui

terça-feira, 4 de abril de 2017

Carta à uma amiga moderna e machista

Amiga,
Tenho imenso respeito por você, mas fiquei meio chocada com aquele seu papo de ontem. Quanto machismo, menina moderna e carioca! Jura que você acredita que toda mulher tem de se fazer de frágil e dependente para manter um homem ao lado? Você acha fácil deixar de ter opinião própria e jogar as responsabilidades na mão dele?
Dessa vez eu não vou seguir seu conselho. Imagine você, logo eu que vivo te perguntando as coisas! Mas desta vez não vai dar. Pra mim, cada pessoa tem um dom diferente: umas gostam de matemática, outras adoram trabalhar com vendas, outras preferem trabalhar sozinhas. Umas optam por viver sob as asas dos pais, outras querem ganhar o mundo. Vovô Gouvêa dizia sempre: existe muita qualidade de gente por aí.
Ouvindo você defender com tanto afinco sua vida de esposa-mãe-dona de casa, percebi que seus conselhos são muito bons, mas para quem pretende ter filhos e viver da mesada do marido. Não é meu caso, já que tenho carteira assinada e diploma.
Ser esposa exemplar ou ter uma profissão não é mérito e nem demérito, é apenas questão de escolhas. E há de se respeitá-las, pois toda escolha demanda em consequências e cobra um preço. Você sabe disso. Eu também pago um preço por não ter sido uma esposa mais dedicada. É que aquilo não era pra mim e não consegui fingir mais do que 3 dias. Por mais que eu quisesse tentar, não dava pra esconder minhas frustrações. Eu sempre fui assim, minhas infelicidades sempre foram sardas em minha pele branca.
Ontem, mesmo que eu não falasse nada, você perceberia minha fisionomia de horror enquanto você provava, quase cientificamente, que o homem gosta de mulher submissa e fútil. Mulher que pensa, segundo sua teoria, dá trabalho demais e assusta os homens.
Amiga, tive uma vontade louca de te matar. Ou de me matar, porque naquela hora tive certeza de que vou morrer sem nunca mais ouvir um homem dizer que me ama.
Em relação àquele comentário sobre mim, tenho uma correção a fazer: não preciso fazer de conta, deixar o homem achar que sou frágil. Sabe por quê? Porque sou mesmo a pessoa mais frágil do mundo. E se você fosse um dos homens com quem me relacionei, veria que isso assusta muito mais do a tendência a ser indepedente que já nasceu comigo. Você ficaria espantada em saber como minhas fragilidades e carências são infinitas. Curiosamente elas não me fazem acreditar que minha felicidade está na mão do outro.
Não dá pra julgar nossas escolhas ou objetivos, por isso me sinto obrigada a repetir TENHO IMENSO RESPEITO POR VOCÊ. Mesmo estando ainda meio atordoada por ver tanto machismo no seu estilo de vida, que eu considerava o melhor way of life do mundo.
Nunca, nem naquele momento extremamente delicado que passei uns 5 anos atrás, me envolvi com um cara só para falar “o meu namorado”. Não sei se isso é graças ao meu medo de homens machistas ou à terapia. Só sei que sempre evitei homens que preferiam meus peitos às minhas conversas. Claro que adoro que meu homem me ache gostosa, mas ele também tem que me admirar. Não viveria bem com um cara que pensasse que sou tão fragilzinha a ponto de não saber tomar decisões. Odeio quem me subestima.
Fico curiosa: você vive numa boa assim? Não lhe parece meio constrangedor saber que seu marido não confia no seu intelecto? E, mais importante, não rola uma dose de culpa por ser mais um dos ítens com que ele precisa se preocupar?
Eu tenho um grande medo de ser um motivo a mais de preocupação para meu companheiro. Talvez fale sobre isso na terapia hoje à noite.
Outra correção a meu respeito: não estou por aí beijando várias bocas procurando o cara certo. Estou, sim, disponível para viver uma paixão. Acredite: eu procuro um grande amor. Marido já tive. 

(Texto originalmente publicado no Blog Mulherão)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Dois anos sem você

    Hoje faz dois anos que a vida te levou. Dois anos que nossa família passou pela maior dor que jamais podíamos imaginar. Dois anos de muitas lágrimas. Dois anos sem você.
    Até então, eu era sua filhinha, mas um telefonema me transformou em adulta e todos os desgostos e responsabilidades peculiares caíram em meu colo. E, além de tudo, eu tive de aprender a viver sem você. Logo eu, que sempre achei isso impossível: como viver num mundo onde você não existe, pai? 
    Às vezes, acho que isso não é verdade e vou encontrar você ali, deitado na cama, ouvindo seu radinho. Ou você vai chegar aqui em casa dizendo que comprou minha Coca Zero. Mas nada disso vai acontecer. Não vamos mais nos abraçar, assistir o Mengão jogar ou ouvir nossas músicas juntos. Agora eu sou adulta e não tenho mais meu paizinho. Como na canção do Roberto, "sem você minha alegria é triste". Por isso essas lágrimas no rosto de vez em quando. Não fique triste quando isso acontecer. Deve ser o amor transbordando. 
    A gente era uma boa dupla, né? Você me dava sentido à vida e eu te fazia sorrir. Mesmo em meio às suas tristezas, eu te fazia sorrir. E saber disso me fazia grande, importante. Eu era especial para você. 
    E você era meu pai, meu amigo, meu filhinho, meu ídolo. Você sempre será o amor da minha vida. Não importa em qual dimensão esteja. 
    Pai, embora dizer adeus para você tenha sido a coisa mais triste do mundo, eu sabia que fui a melhor filha do mundo, a filha sob medida pra você. Diante de seu corpo eu cantei nossa música, prometi que ia cuidar de seus amados aqui na Terra e jurei que ia continuar sendo aquela mulher forte que você sempre admirou. Sobretudo, diante de seu corpo, eu tive a certeza de que nunca deixei para depois o carinho, o beijo, o abraço. Nunca deixei de dizer e demonstrar o quanto te amo. Eu me despedi de você com o coração limpo.     
   Nestes dois anos sem você aqui, eu tive de ser muito forte, mas muito forte mesmo. Você deve acompanhar daí de cima as minhas lutas e deve se orgulhar. Porque, por mais que a dor seja lancinante, estou lutando. Então, mais uma vez, eu peço: não fique triste quando eu chorar. 
   Continue sua caminhada nesta sua nova condição. Continue sua evolução espiritual. Mas, sempre que der, olha pra mim aqui. E promete que vamos nos reencontrar na próxima vida, porque que nosso amor é grande demais para uma única existência.     
            
     
PS: Dentre tantas canções que me lembram de você, essa é uma. Você não conhecia, sequer escutamos juntos. Mas ela fala muito sobre mim sem você.

" Eu tento me erguer às próprias custas
  E caio sempre em seus braços
  Um pobre diabo é o que sou
  Um girassol sem sol
  Um navio sem direção
  Apenas a lembrança do seu sermão


  Você é meu sol, um metro e sessenta e cinco de sol
  E quase o ano inteiro os dias foram noites
  Noites para mim
  Meu sorriso se foi
  Minha canção também
  E eu jurei por Deus não morrer por amor
  E continuar a viver
  Como eu sou um girassol, você é meu sol  (...)


  Morro de amor e vivo por aí
  Nenhum santo tem pena de mim
  Sou agora um frágil cristal
  Um pobre diabo que não sabe esquecer
  Como eu sou um girassol, você é meu sol "

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Não sou feliz gorda

Comecei a engordar com 10/ 11 anos e até os 15 anos não parei mais: cheguei aos 76 kg. 

Passei a adolescência sendo a “gordinha legal”, engraçada, simpática... Nunca fui chamada de bonita. Todo minha família me repreendia por ser gorda. Eram palavras ou “simples” olhares, que magoavam tanto ou mais que as palavras.


Não tenho fotos desta época: fugia das câmeras e, no fundo, acho que ninguém percebia minha ausência nas fotos. 

Bem, este pensamento é fruto da minha auto-estima baixíssima, provocada por eu ser gorda. E quanto mais gorda, menos auto-estima; quanto menos auto-estima, mais gorda. Bola de neve total


Apesar de ter um rosto bonito, tinha uma espécie de “capa” me cobrindo. A gordura me recobria e me deformava. Para disfarçar minha impotência (impotência: é esse meu sentimento por ser gorda), tentava me convencer de que era bonita mesmo sendo gorda. 

Durante o tempo que tentei me convencer de que podia ser feliz do jeito que era, travei uma espécie de luta contra todos o mundo: tornei-me agressiva e arredia. Se alguém tocasse no assunto dieta, eu dava logo um fora e fingia que não tinha vontade de emagrecer. 

Na família do meu pai havia muitos gordinhos e gordões. Mas a família de minha mãe (minhas tias e primos)eram todos magros. Para mim, afrontadoramente magros

Definitivamente não é fácil ser gorda quando se tem tantos primos “normais”. Se uma ou outra brincadeira acabasse em discussão, era aquele monte de desaforo: “Olívia Palito” para a magricela; “Ferrugem” para a sardenta e para mim o mais cruel de todos os xingamentos (aquele que até hoje ainda arde em meus ouvidos): “GORDA!”, "BALEIA"... 


Durante muito tempo não sabia o motivo para ter começado a engordar. Achava mesmo que foram os maus hábitos aliados a uma herança genética e talvez alguma ansiedade típica da adolescência. Hoje, depois de fazer terapia, sei o que me levou a engordar. É muito pessoal, logo, não vou dividir. 

Mas tenho lembranças dos “sutis” conselhos para comer menos. Uma vez ou outra percebia que alguns parentes se preocupavam/ assustavam com meu peso, mas nunca ninguém tocou direto no assunto do jeito, ao meu ver, correto: sem punição, mas sim para me ajudar. 

Sem querer achar culpados, acho que alguém deveria ter me perguntado “Você está feliz? Posso lhe ajudar?”. A repreensão só aumentava a raiva: de mim, por ser gorda; pelos outros, por não me ajudarem. 

Minha auto-estima foi toda construída (ou destruída) com base no meu peso. 


Aos 15 anos,a mãe de uma grande amiga me levou a um médico que estava “conseguindo emagrecer” um monte de gente na minha cidade. Fui à consulta feliz da vida. Saí de lá confiante. Todos me perguntavam quanto pesava e, pela 1a vez na vida, falei para alguém o meu peso: 74 kg. Mas falei porque sabia que perderia muitos deles.


E perdi mesmo! Em menos de 1 mês já pesava 64 kg. Eu, pela 1a vez na minha vida, era “magra”. Era a primeira vez que usava um biquíni, tomava sol sem vergonha e... podia pegar roupas emprestadas de amigas. Não dá para descrever nada do que senti naqueles dias de descoberta.


Podia, enfim, vestir um short da minha irmã... ai, que delícia!!! Eu era normal, gente, eu era normal! Não precisava usar camisa preta; não precisava usar saia com elástico; não tinha vergonha de comprar roupa: tudo me servia. E ficava lindo.


Passei alguns meses nessa felicidade: mais do que simpática ou inteligente, eu agora era muito GOSTOSA! Pela 1a vez eu era igual às minhas primas. Deus do céu, eu era magra, tinha rapazes me olhando, tinha prazer em sair para comprar roupas... eu era magra! 

Mas foi tudo passageiro: emagreci a base de remédios fortíssimos e (todo mundo conhece esse filme) quando parei de tomar aqueles “remedinhos” é claro que voltei a comer tudo de gostoso.


Mas agora era pior: eu já sabia onde era o céu e não tinha mais a chave daquele paraíso, não podia entrar naquela terra da felicidade onde só os magros moram. 

Em 91, mudei de cidade. Em março procurei outro médico “daqueles” e que receitou outra “bomba”. Emagreci e fiquei pesando 68 kg. Era mais do que já havia pesado na primeira dieta, mas “dava pro gasto”. Passei o ano oscilando entre 67 a 69 kg mas nas férias... relaxei geral: 72/ 74 kg. Passei o ano seguinte infeliz e deprimida, sem conseguir levar dieta alguma em frente. Tinha duas amigas na escola que eram lindas, magras, gostosas,namoradeiras... Eu? Eu era a “amigona” (em todos os sentidos: grande amiga e amiga grande. Enorme. Imensa). 

Passava um ar de séria, desapegada das coisas “fúteis” como ginástica, praia, roupas da moda... Namorados? De jeito nenhum, “às vésperas de prestar Vestibular não dá pra namorar”. Nem gostava de passear. Fotos? continuava a fugir. Não queria registrar aquele horror que eu era. 

Uma ou outra fotografia que tenho naquela época, fui quase que obrigada a tirar. E quando via as fotos, passava a semana deprimida: só o que conseguia ver na frente era aquela imagem horrorosa, deformada pela gordura. Quando falo "depressão" não é aquela tristeza comum a todos, era depressão de verdade, que me paralisava e fazia sofrer.

Se algum amigo me falava que eu precisava emagrecer, ficava com raiva - porque sabia que era verdade. Se diziam que estava “bem”, sentia raiva porque sabia que era mentira. 

Passei mais de dois anos assim: insatisfeita, tentava emagrecer, como não conseguia, sentia nojo de mim. (E essa era a palavra perfeita para descrever o meu sentimento em relação a mim mesma: nojo. É muito triste sentir isso).

Voltei a um dos médicos (na verdade, conheci a maioria dos médicos estilo "Dr. Caveirinha" - famosos ou não - do Rio). Queria emagrecer a todo custo. Na minha cabeça ainda assombrava a velha história de que tudo o que não conseguia, não tinha ou não podia era por causa da gordura. Principalmente os rapazes que não olhavam para mim. E eu dava razão a eles. Eu era imensa! Minha auto-estima diminuía na inversa proporção que engordava e isso me impedia de ser, um pouquinho que fosse, atraente. 

Aos 23 anos, após diversas consultas com endocrinologistas (que constatavam não haver problema hormonal algum), me considerava um caso perdido. Tinha medo de perder minha juventude por causa desse imenso sofrimento. 

Quem nunca teve problema com peso nem sequer imagina o que estou falando, pode até achar que meu sofrimento era futilidade ou exagero. Não dá para saber o constrangimento que sempre passei por ser gorda. É como se eu tivesse constantemente infringindo uma lei, cometendo um erro grave. 

Quando mudei de emprego, resolvi começar (de uma vez por todas) uma nova etapa da minha vida. E a mudança iniciaria por trocar o manequim. Voltei ao médico. Mais “bolas” para conter a gulodice e a ansiedade. Mas eu jurei que era para valer daquela vez. O clima de mudança me animava: ao deixar meu primeiro emprego (de quatro anos) me sentia confiante; cortei o cabelo; aos poucos esquecia um amor não correspondido – que me dava a eterna ideia de ser inadequada. Eu tinha uma enorme certeza de que não merecia ser amada por causa do meu peso. Amada por um homem, por amigos e também pela família.

Dessa vez, focada nas mudanças, foi fácil perder 8 kg. Fiquei fascinada: era de novo GOSTOSA. Palmas para mim. O astral não podia ser melhor. Ainda faltavam muitas conquistas na vida, mas só por saber o meu poder de transformação, minha coragem já crescia. 

Arrumei namorado; terminei namoro; arrumei outro ... Além de estar ótima comigo, fazia sucesso com os outros. Decidi não ir mais ao médico, pois além de ser muito cara a consulta, me achava forte o suficiente para continuar minha jornada sozinha. Eu ainda não entedia como funciona a doença chamada obesidade. Sequer desconfiava que era doente.

Procurei os Vigilantes do peso e emagreci quase 4 kg em 1 mês. UAU: pesava 62 kg! Descobri novamente que tinha um rosto bonito demais para ficar recheado de gordura. “Vai ser fácil manter-me assim”, dizia para mim mesma. Mas aí vem a fase mais difícil: todos estavam acostumados a me ver “gordinha” e quando a viam “magrinha”, diziam que se eu emagrecesse mais ficaria com cara de doente. 

Começaram, então, os deslizes: um sorvete aqui (afinal, “eu estava bem”), uma pizza ali, uma lasagna “só hoje”. Claro que os 62 kg não duraram nem um mês. E eu no Vigilantes? Saí correndo, morrendo de vergonha de não conseguir manter o peso nem por duas semanas. 

Estacionei por uns tempos nos 67 kg. Comecei a namorar um cara maravilhoso e que gostava de mim do jeito que era. Mas EU nunca estava bem comigo. Como pode? Realizei o sonho de toda mulher: encontrar um cara doce, amoroso, paciente e que não sabe a diferença entre estar com 70 ou 60 kg... 

Um dos desastrosos efeitos da baixa auto-estima é depender da aprovação do outro para nos sentir bem e o desconforto de ser gorda por tantos anos fez eu ter uma ideia muito errada de mim mesma. Foi quando descobri que tenho uma doença muito séria chamada obesidade, uma doença cada vez mais presente na vida da população. Essa doença é muito mais séria do que pode parecer: ela deforma, machuca, enlouquece. Exclui. 

Em 2001 concretizei um velho sonho: fiz plástica no abdômen e lipoaspiração (me livrei de 2,5 lt. de gordura). Virei outra pessoa. Emagreci 7 kg e passei a vestir roupas que sempre morri de vontade. Meu manequim diminuiu do 42 (apertado) para 40 (LARGO!). Foi uma transformação gigante.
Mesmo assim, voltei a brigar comigo mesma para não engordar, porque tenho a impressão de que se ganhar 500 gr. estarei assinando o atestado de incompetente. 

Eu me cobro muito, eu sei, mas é assim que vivo. Já fiz terapia e tentei me convencer de que eu não sou só um corpo, sou muito mais. E percebi que nas épocas que estive magra, os problemas continuavam. Estar magra não era certeza de felicidade. Mas é difícil: são anos e anos de sofrimento. Repito:para quem não sabe o que é ser gorda pode parecer loucura isso, mas só quem sofreu ou sofre de obesidade entende.

Há uns 5 anos passei por momentos bem difíceis na vida profissional e pessoal e cheguei aos 77kg. Por mais esforço (dieta e exercício) não conseguia perder 100gr. De tanto tentar e falhar, tentei me convencer de que posso ser bonita gordinha. Mas recentemente na terapia descobri o seguinte: estar magra não me garante estar feliz, mas estar gorda, definitivamente, me deixa infeliz. Infeliz e medrosa, a ponto de sequer conseguir dar em cima de ninguém. Acho que nunca serei correspondida enquanto estiver gorda.

É por isso que continuo lutando contra a balança. E esse é um desafio muito particular, muito íntimo, por ser muito intenso e nem sempre as pessoas à minha volta entendem. Mas estou na luta ainda: pela perda de peso e pelo aumento de minha auto-estima.