sexta-feira, 19 de junho de 2020

Quando a Rainha de Copas chegar

Ando tão intolerante. Falei sobe isso hoje com minha irmã. E já sei o que eu quero. 
Pra mim, no meu mundo, tinha que reinar o D´us do Antigo Testamento, aquele que todos dizem que era malvado e vingativo (porque o povo é burro e não entende que tudo lá é metáfora. Eu estudo a Torah e posso falar. Mas o assunto não é esse). Enfim, chega de um D´us bonzinho que perdoa todos. Tem gente que não está merecendo perdão há muito tempo. Quem faz arminha com a mão não merece perdão. Enquanto o Freixo não vira presidente, eu quero o D´us do Antigo Testamento no poder. Também serve a Rainha de Copas, da história da Alice.

Ia funcionar assim esse meu mundo ideal:

Uma pessoa (um anjo, se for o mandato de D´us ou um súdito, se for o da Rainha de Copas) anda na rua fazendo pesquisa. Aí para uma pessoa e pergunta "Você é racista?" E a pessoa responde "Não, de jeito nenhum. Tenho até um amigo preto". Pá! D´us , ou a Rainha de Copas, aparece e ordena "Cortem-lhe o pescoço!".

Outra pergunta, para outra pessoa: "Você é homofóbico?" e ela responde "Não, eu só não gosto de ver dois homens se beijando" OU "Não. Eu só não espero que meu filho seja gay" OU "Mais ou menos, é que eu acho que D´us criou o homem e a mulher. Mas cada um faz o que quer, né? " De novo! Aparece a Rainha de Copas, ou o referido D´us e dá novamente a ordem "Cortem-lhe o pescoço!".

E por aí vai. Chega de ser condescendente, chega de pensar "a vida vai ensinar" ou "ele precisa se instruir". Não, não dá mais tempo de se instruir. Já é tempo de não ser homofóbico, misógino, racista, gordofóbico. Não dá pra aceitar gente assim. Eles precisam ser eliminados. Sem dó. 

Não é assim que a milícia que está lá em Brasília faz? Eliminou o Adriano, o Bebiano, a Marielle. Quanto tempo o Queiroz tem de vida? A milícia não vai dar chance de ele abrir a boca. Viu? A gente também não pode dar espaço pra preconceituoso se criar. Se democracia tem limites, esse é um deles: os bestas-feras devem ser calados, eliminados, se preciso for.

E vamos ver Witzels, Crivellas, e tantos outros, terem seus pescoços cortados também. Wentraub também está na minha lista negra com esse último ato que impede/ diminui as chances de indígenas e negros e pobres ingressarem na Pós-Graduação. Ex-ministro ignorante. Analfabeto. 

Eu falei que estou intolerante, não falei? Estou de saco cheio de desigualdade social. Minha rua está cheia de morador de rua passando fome. Eu peço meu almoço e meu jantar no restaurante e separo parte do almoço e parte do jantar. À noite, levo para os dois da minha esquina, mas na outra esquina tem mais cinco. E eu me sinto uma babaca por fazer e falar que faço isso. Eu tenho obrigação de fazer, não tenho que falar. Eu, do alto de meu privilégio de mulher branca, carteira assinada desde os 20 anos, nível superior, mestranda, vejo morador de rua e não sei o que fazer. Tenho mais é que fazer alguma coisa. Aí me toco que não posso salvar o mundo e isso me deixa pior. Mas não me paralisa. Eu sou teimosa e mesmo gastando meu salário quase todo com o aluguel, eu ajudo ONG. Pronto, falei de novo. Eu posso ser uma privilegiada que fala sobre a ajuda que dá, mas também me encolho e sinto vontade de chorar quando vejo a quantidade de brasileiros mortos. A maioria preta ou "quase preta de tão pobres". Gil já falou isso. Eu sou uma privilegiada mas não sou indiferente. E me alio a causas sociais. Porque é meu dever lutar pelo direito do meu irmão preto, da minha irmã que apanha do marido, da minha irmã gorda, do meu irmão trans. Pelo direito do meu irmão e ponto. Como se fosse um verbo intransitivo, sem complemento: É meu dever lutar pelo direito do meu irmão e da minha irmã. 

Por isso eu queria a Rainha de Copas reinando. Cortando o pescoço dos babacas que acham normal morrer gente, "o que não pode é a economia parar". Caralho! Morto não compra.

Quando meu mundo ideal virar verdade, você aí, que não se posiciona, cuidado! Quem não está ao lado do oprimido está do lado do opressor. Cuidado porque eu vou delatar você. 



Aniversário do Chico Buarque, o poeta










Hoje é aniversário do Chico Buarque, um dos meus poetas prediletos. Já se falou tanto sobre ele, que não há mais nada inteligente a acrescentar.
Meu único comentário é:
Não me amarro em coroa, não. Mas pro Chico eu dava. Ah, dava!

quarta-feira, 17 de junho de 2020

OS LIVROS DA NOVA ERA / MARTHA MEDEIROS


"O livro não é um produto descartável: usou joga fora.
Nunca fiz isso nem com namorado,
imagine com um livor que é muito mais útil. Tem gente que diz que uma casa sem cortina é uma casa nua. Eu penso o mesmo de uma casa sem livros. É como se fosse habitada por pessoas sem imaginação, que não tem histórias pra contar."

segunda-feira, 15 de junho de 2020

De Valter Hugo Mãe para Marcelino Freire

Marcelino, tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.

Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.

Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.

Naquele encontro, eu consumei tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?

Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.

Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.

Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente.
Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.

Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.

Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

FRAZES KAMIKAZES - Ou, como espantar um carinha imaturo

Não gosto de rotina: fazer todo dia o mesmo trajeto pro trabalho, sair pra almoçar todos os dias no mesmo horário, no mesmo restaurante. Como não posso me dar ao luxo de mudar de emprego a cada 6 meses e assim conhecer um monte de gente nova, eu faço o que posso pra sair do piloto automático: tem dia que vou trabalhar de ônibus, tem dia que pego um táxi e peço para passarmos pela praia. Em vez de almoçar, pego um livro pra ler e por aí vai... tento não repetir as coisas, acho que é pra não morrer de tédio. 
Meus amigos também são ecléticos: tenho o melhor amigo para falar besteira, outro pra pedir conselho, uma amiga certinha pra ir à exposições, outra meio porralôca pra ir pra Lapa. 
Assim, vou dando nuances diferentes pra minha vida não ser assim tão linear. Só tem uma coisa que não muda: um instinto eterno (e secular) de acabar com as coisas antes que se tornem “sérias”, pra valer. To falando de relacionamentos, claro. Toda vez que a coisa parece estar no caminho certo, um bichinho autodestrutivo ou superprotetor (depende do ponto de vista ou da linha de terapia de quem quiser analisar) dá um jeito de estragar tudo. 
Adquiri um talento incrível para isso: estragar as coisas virou minha especialidade. Se por um lado parece coisa de gente doida (e não é?) ao mesmo tempo vejo como o melhor jeito de não sofrer. Faço isso pra enxergar logo qual é o tamanho do cérebro do cara e quão parecido ele é com todos os outros que já estiveram no meu caderninho de telefone. 
Vou te falar uma coisa: chega a ser engraçado como tem uns caras infantis. Falo isso sem mágoa ou amargura. É quase científico: experimenta falar uma das minhas frases kamikazes que você vai me dar razão. Sim, eu falo sempre as mesmas frases, mostrando assim que aprendi alguma coisa com o sexo oposto. 
Falo as mesmas frases para os mais diferentes caras. E a reação é sempre muito parecida: o sujeito vira praticamente um maratonista. Corre trocentos quilômetros e depois desaparece do mapa. Nem no Google eu o encontro mais. 
As tais frases não expressam, necessariamente o que sinto ou o que, de verdade, gostaria de dizer. Confesso que é um teste meio sádico de minha parte. Eles somem e eu dou risada. E me livro de um bobão emocionalmente imaturo. Que frases são essas que produzem efeito tão devastador? Alguns exemplos são “A gente combina pra caramba”, “Minha mãe vai adorar te conhecer” ou “Lá é lindo. No feriado da semana que vem a gente podia ir”. Muitas vezes tenho certeza de que o cara (que é até gente boa e tem um papo legal) e eu somos totalmente diferentes e também jamais teria coragem de apresentar um “Zé-Ninguém-em-potencial-na-minha-vida-amorosa” para minha família. 
Mas eles sempre acreditam nisso e metem o pé. Quando vejo que a figura não me liga há três dias, constato, numa felicidade amarga, porém esnobe, que eu estava certíssima. O cara não era nada daquilo que falava. Sinto um misto de alívio e preguiça, pois sei que vou ter de começar do zero com outro. E eu morro de preguiça de conhecer alguém, e contar as mesmas coisas sobre mim, e esconder as mesmas coisas sobre mim, e explicar que aquela não é minha prima de verdade, que a gente é amiga há muitos anos e por isso se considera prima e... nossa! Quanta trabalheira para, depois da 1ª ou 2ª frase “Ou dá ou desce” , o cara odiar o dia que me conheceu. 
Gostaria muito de conseguir mudar esse meu comportamento-padrão, mas é mais forte do que eu, é um vício, eu diria. A sensação de constatar que eu estava certa, que ele não merecia ouvir coisas tão íntimas como “passei a tarde toda pensando em você”  parece uma medalha. Acertei de novo: o alvo era a maior furada! Mas aprendi a rir disso também. Tem uns que fingem não ter ouvido aquilo e insistem em continuar na história. Aí eu vejo que ele é mais vivido, deve pensar “vou empurrar com a barriga”. Já cheguei a pensar que esses que não desistiam da 1ª bateria de testes eram mais maduros ou, quem sabe estão mesmo a fim. Deve ser meu lado pisciano insistindo em dar as caras e me fazendo ter uns surtos românticos. A 2ª bateria de testes consiste em dizer “você prefere menino ou menina? Eu sempre quis ser mãe de menina”, “na minha família tem muitas pessoas de olhos azuis. Quem sabe nosso filhinho também não terá?” ou “deixa a chave da sua casa comigo?”. Mesmo sendo eu a protagonista e, portanto, a que acaba ouvindo "qualquer hora a gente se vê", dou risada. O que me deixa pau da vida é homem que já encarou um monte de mulher carente e pegou medo de compromisso. 
Esses são terríveis porque eu falo "tô com saudade" e o cara entende "eu quero casar com você”. Falo pra ele passar lá em casa e ele entende que é pra pedir a minha mão em casamento aos meus pais, que nem moram aqui. Muitas vezes, quem tá a fim de meter o pé sou eu mesma, e uso essas granadas faladas só pra ter a certeza de que ele nunca mais vai me ligar ou me atender. E que vai me bloquear no Whatsapp. É o jeito que encontrei de me proteger de homem medroso ou machista. Porque eu acho que um sujeito que perde o interesse só porque sabe que ali a partida já tá ganha, é um machista com cérebro de ervilha. E também acho que o cara que treme de pavor por saber que eu tô ficando a fim dele é um medroso. “Ficar a fim” é ficar a fim de sair, de dormir junto, de sair pra jantar. Não é ficar a fim de escolher os padrinhos ou a Igreja. Medroso ou machista, não importa, no fundo ele é um pretensioso. É muita pretensão achar que quero ter um filho dele só porque ele me despertou um sentimentozinho à toa. É um descaramento achar que tudo bem dormir na minha cama, fumar no meu quarto, mas andar de mãos dadas na orla requer mais intimidade. Vai se catar. Como funciona a mente de uma criatura assim? 
Como ele pode me enxergar tão assustadora só porque falei que lembrei dele ontem à tarde? Caramba! É tão difícil sacar que eu também tenho vários medos, e o de me envolver demais é o maior deles? Será que ele não é inteligente o bastante pra sacar que mulher também tem medo de assumir compromisso? Acho uma sacanagem me incluir na lista daquelas que querem casar a todo custo: eu já casei uma vez, agora eu quero é amar e ser amada. E ser feliz, claro. 
Acho uma injustiça me ver como uma louca de “mais de trinta” cujo relógio biológico implora por um filho: eu não quero filho, cacete. Não percebeu? E também não adianta você me perguntar o que eu quero. Não sei, droga. 
Quem sabe um dia eu aprendo a conviver bem com a rotina? Quem sabe um dia eu não pare de estragar tudo? Ou, quem sabe, existe mesmo um carinha gostoso, gente boa e que também sinta saudade de mim sem pensar em casamento, só em ser feliz?

quarta-feira, 3 de junho de 2020

SEM LUGAR PRA MIM


Acordei antes das sete hoje. Não pode ser um bom sinal. Ou melhor, é um puta de um sinal: um mau sinal. Tô com problemas. Sonho ruim, pesadelo. Levantei, tomei meu banho de duas horas e nem ouvi direito o que o Boechat falava. Só pensava no sonho que tive.
Sonhei com um cara que amei (amei?). Combinávamos um passeio para um lugar que a gente chamava de fazenda, mas que não era fazenda porra nenhuma. Sei que não era porque eu odeio fazenda e tava feliz da vida por estarmos indo pra lá. Talvez fosse fazenda, sim, porque eu nem me importo pra onde vou quando vou com ele.
Tava todo mundo no carro, mas eu não conhecia ninguém desse "todo mundo". Era o "todo mundo dele": irmãos, filhos, acho que só. Aí eu cismei de levar minha moto. Fazenda sem moto? Já me privo tanto das minhas duas rodas que me libertam da vida chatinha que levo, não poderia perder a chance de pilotar numa fazenda: estradas calmas, só uma ou outra vaca passando.
Mas ele falou "não tem lugar pra você no carro". Eu sempre soube que não tinha lugar pra mim na vida dele, mas essa do carro me pegou de surpresa. No carro a gente leva qualquer um. Menos eu. Não tinha lugar pra mim.
-Então eu vou de moto.
- Você não sabe andar de moto.
- Moto eu não ando, eu piloto!
- Você é marrenta.
- Se não tem lugar no carro, que outro jeito ? Tem de ser de moto.
- Melhor você não ir.
Tem conversa que é melhor não insistir. Se eu tivesse ficado quieta quando ele disse que não tinha lugar no carro pra mim, me poupava de ouvir o que não queria. Só que meu problema é que eu ouço até o que não é dito. E entendo bem.
- Eu vou pra outra fazenda. Só pra não perder o final de semana. A mala tá pronta.
- Cê que sabe. Se cuida.
Aí pensei em tudo o que eu ia enfrentar: Via Dutra, caminhão, sol forte, chuva forte. Sinto muito frio nas mãos e não encontrei minhas luvas. Nem minhas botas de pilotar na estrada. Peguei um cachecol qualquer, meu capacete branco. Mas ele não era mais branco, ele perdeu a cor. Acabou o lugar no carro e a cor do capacete. Da estrada. Vai ver até a fazenda ia ser preto e branco. Só porque não tem lugar no seu carro pra mim.
Eu nem fazia questão de sentar na frente: valia ir lá atrás com a criançada, cantando aquelas músicas de viagem longa. Minha estrada de repente ficou longa, porque você tava na outra estrada, oposta. E não vinha na minha direção. Perdeu o sentido. O final de semana perdeu o sentido. Pegar uma estrada de moto perdeu o sentido.
Pra quem eu ia contar que levei uma fechada de um caminhão e o cara arregalou os olhos quando viu como fui rápida na manobra? Você não estaria lá pra ouvir. Você nunca me ouve mesmo. Você nem acredita que eu saiba me desvencilhar de caminhões na estrada. Aposto que nem se lembra do dia que contei que fui pra Vitória de moto. Você não me ouve. Por isso valia ir lá atrás com a criançada. Se a gente cantasse alto aquelas músicas de viagem longa, talvez você me ouviria. Mas não tinha lugar pra mim no carro.
Fiquei em casa e falei mil vezes "eu odeio fazenda". Aí minha prima ligou. Ainda tá procurando apartamento. Separação já é foda, quando a gente tem de procurar onde morar é foda ao quadrado. A Fefê machucou o dedão de novo no basquete. Lembrei do dia que a gente foi com ela até o hospital e começou a rir quando falou na recepção "moço, ela tem de ser atendida urgente. Quebrou o dedão". Rimos tanto: quebrar dedão é emergência? É motivo de riso.
Eu pensava que a gente ria junto, pensava que as coisas que eu te contava eram coisas interessantes. Você nem ouvia. Você já me ouviu?
Naquele dia que bebi demais e falei na lata: te amo! Você ouviu? Naquele dia eu acho que você ouviu,sim, porque foi depois daquilo que eu perdi o lugar no seu carro. No seu quarto. Lugar na sua vida eu nunca tive, mas pensei que ia ter. Um dia. Só um dia.
Eu quero uma moto imensa, com todas as cilindradas do mundo. Eu quero acelerar tanto, mas tanto, quero ir pra bem longe desse meu mundo que tá cheio de lembranças e referências suas.
Eu quero ir pra um lugar onde eu nunca tenha dito que te amo.