sexta-feira, 10 de abril de 2009

Carta à Revista Nova (que eu não mandei)

uma querida amiga, a Aline Souza, publicou um (ótimo) texto na edição de Setembro da Revista Nova (Mereço ser amada do jeito que sou) falando sobre as dores e delícias de ser uma representante da "geração Sex and the City". E embora eu seja um pouquinho mais velha que ela, também faço parte desta complicada, libertadora e controversa geração. Ela questionava no texto se valeu a pena investir tanto em estudo e por ter seguido (quase tudo) o que a mãe ensinou e assim ter se tornado uma "mulher independente" (jurei que nunca mais usaria este termo, mas é o mais apropriado e também usado por ela). E a queixa dela era que, apesar de inteligente, dona do próprio nariz e linda (isso ela não disse porque, como todas nós, nunca nos achamos lindas. Mas ela é linda, sim) está sempre sozinha. E quando parece que encontrou um grande amor, o cidadão faz que nem o Homem Vick, que a Leila Ferreira, da Marie Claire, falou. No entanto, discordo de vários aspectos que ela aborda. Exceto quanto ao título, óbvio!
Pra começo de conversa (e eu disse isso a ela), depois que a gente faz 30, a gente descobre que o grande amor da nossa vida é a gente mesma. E isso faz toda diferença.
Diferente da outra Aline, não fui criada com o claro objetivo de ser livre e não depender de ninguém. Minha mãe me criou para ser feliz: Com marido, sem marido, com ou sem carteira assinada. O importante era estar confortável com as escolhas que eu fizesse.
Como toda mãe, a minha é muito sábia e sempre disse que eu deveria, sim, aprender a cozinhar: para mim mesma ou para quem quer que fosse. Deveria também aprender a limpar a casa, afinal, morar numa casa imunda não é nada inteligente.
Dentro desse compromisso de "apenas’’ ser feliz, fui vivendo: aprendi outras línguas, estudei e li pra caramba! Acabei, adivinhe, me tornando uma “mulher independente”.
E isso é bom? Não sei: nunca fui de outro jeito e minha vida é tão corrida que não dá tempo de tentar mudar e ser diferente. Sim, eu sei, dizem as más línguas que “homem tem medo de mulher independente”. E daí? Eu não quero mesmo me relacionar com homens medrosos ou que tentem mudar minha personalidade. Po! Deu um trabalhão me transformar em quem eu sou hoje... não vou mudar só pra agradar alguém.
Pra falar a verdade, não quero nem que me elogiem ou me critiquem. Eu quero mais é repetir o título do texto da outra Aline: Mereço ser amada do jeito que eu sou. Porque eu sou legal à beça. E porque ter emprego com salário bom e poder ir aos lugares com os próprios pés não é defeito. Mas... antes que me chamem de “fria e calculista’’ aviso logo: adoro um colo e mimos do meu gatinho! Também gosto quando abrem a porta do carro, dou valor às datas, assisto programa de fofoca e a-d-o-r-o não dividir conta de restaurante e não pego no chinelo pra matar barata de jeito nenhum.
Talvez não haja tanta diferença entre mim (e milhares de mulheres desta geração) e outras mulheres que optaram por serem mães, donas-de-casa ou simplesmente viverem para o marido. E essa pequena diferença não me destaca em nada, não é motivo nem de orgulho e nem de arrependimento. Não sou “repelente de homens” e nem vivo procurando um homem pra chamar de meu. Assim como ter filhos e formar uma família não está no topo de minhas aspirações. Casamento também não é a minha: já vivi junto uma vez e percebi que tem jeito melhor de me relacionar com o cara que amo.
Se eu vou me arrepender de não ter filhos? Não tenho como saber. Também aviso logo que não vou morrer de solidão só por não envelhecer ao lado de alguém. Quando se tem amigos, família boa perto e muitos livros não se tem tempo para se sentir sozinha. E quando se gosta da própria companhia, aí você passa a dar risada de quem pergunta se você não se sente só. Solidão para mim é eu me perder de mim mesma.