terça-feira, 9 de junho de 2009

FAZ ESCURO

Tenho andado bem ocupada e por isso não deu pra publicar este post no dia certo: 29 de Maio.
É que naquele dia fez 18 anos que um grande amigo meu, o Cazé, morreu.
Foi muito marcante essa perda por vários motivos e talvez o mais forte dele é que foi o 1o. contato que eu e meus amigos tivemos com a morte. Éramos todos jovens felizes, cheios de sonho e com uma vontade louca de aproveitar cada segundo de vida. De repente, um acidente de carro levou um cara de 19 anos. Velar o corpo do Cazé foi uma espécie de ritual de entrada na vida adulta. A partir daquele dia não seríamos mais imortais e eternos, como todo jovem jura que é.
Confeccionamos uma coroa de flores com a seguinte inscrição : SAUDADE ETERNA DA GALERA QUE TE AMA.
Não me lembro de quem foi a ideia, mas sei que a pessoa escolheu as palavras exatas: SAUDADES ETERNAS, pois ainda hoje sentimos todos a falta que aquele cara "alegre e extrovertido" faz.
Quando cheguei em casa de volta do sepultamento, fiz o que sempre faço quando estou triste: procurei um livro de poesia. Poesias sempre me dão algum tipo de conforto nessas horas.
Encontrei uma propaganda do livro de um poeta chamado Thiago de Melo, que trazia uma poesia cuja última estrofe diz assim :

FAZ ESCURO MAS EU CANTO/ PORQUE A MANHÃ VAI CHEGAR

Naquele momento fazia mesmo muito escuro, mas, jovem que era, entendi que deveria cantar porque a manhã chegaria e talvez amenizasse aquela dor tão forte no coração.
De fato chegaram outras manhãs que me mostraram que a vida há de seguir, não importa quantos amigos sepultemos.

Um dia na escola, numa sala vazia, eu me preparava para fazer uma prova quando entrou um senhor muito educado, deu-me bom dia e perguntou o que achei da palestra. - Desculpa, senhor, eu não pude assistir pois estava em prova. Sabe como é, o vestibular é daqui a pouco e os professores não liberaram o 3o ano pra palestra. Peraí, o senhor é o poeta Tiago de Melo, não é?
Sorrindo, ele disse que sim e me estendeu a mão.

Meus olhos encheram-se de lágrimas: naquele dia fazia 1 ano da morte do Cazé. 1 ano depois de ser confortada pela poesia, lá estava o poeta a me apertar a mão. Contei o episódio e falei da importância daquelas palavras, que não li somente como poesia e sim como uma instrução: CANTA, MENINA! A MANHÃ VAI CHEGAR QUERENDO VOCÊ OU NÃO. CANTA PORQUE OUTRAS PERDAS VIRÃO E NÃO SE PODE ENTREGAR O JOGO NO PRIMEIRO TOMBO.

Agradeci a ele por ter escrito aquilo, ao que ele respondeu: e ainda tem gente que pergunta qual a graça de ser poeta... Agora já sei o que responder: ser poeta é bom porque a gente faz meninas sorrirem, mesmo quando tudo parece sem saída.

Até hoje eu e meus amigos sabemos que há um pedacinho nosso enterrado junto com o Cazé, também com a Lili, com o Júnior... Mas aprendemos a cantar para celebrar as manhãs, que sempre chegam.

“Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
Vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
Porque a manhã vai chegar.”

Cazé, sei lá onde você está. Mesmo assim, fica aqui uma homenagem da amiga.