domingo, 8 de fevereiro de 2009

Não gosto muito

Antes de te ligar, repasso mentalmente toda nossa história, com ênfase nas suas mancadas, que é pra eu me convencer da grande perda de tempo que é eu continuar te ligando. Mas não adianta: meu pensamento dá um jeito de se livrar das lembranças ruins e se agarram às coisas boas e digito seu número, de casa ou do celular, que eu sei de cor.
Aí eu ligo pra você, faço um convite irrecusável porque eu sei todos os programas interessantes da cidade, principalmente aqueles que você adoraria fazer. Então, te convido sempre para o melhor programa da semana e você quase sempre aceita.
Depois do programa a gente vai pra sua casa, bebe mais vinho, dá mais risada e vai pra nossa brincadeira predileta: matar um ao outro de prazer. Sono profundo. Bom dia. Estamos atrasados de novo. Bom trabalho.
Mas por que eu faço sempre isso? Por que acabo sempre te ligando, se já falei mil vezes pra mim que aquele dia foi o último, que já não tem nada a ver e que eu gosto tanto de você assim. Não gosto das músicas que você coloca pra gente escutar, piso em ovos quando falo sobre mim porque você me acha sempre ansiosa e qualquer coisa que digo que não o agrade já é motivo pra dizer que estou irritada. Pra falar a verdade, você me irrita. Mas eu não teria coragem de discordar de você. Eu jamais gostaria de um cara como você. Eu tô é acostumada com você.
E é por isso mesmo que fico sempre pau da vida comigo mesma: se eu nem gosto de você, por que é então que deixo minha corrida pela metade só porque você me ligou? Por que eu desmarco compromissos em cima da hora só porque você vai passar aqui perto de casa e me liga e diz que pensou em vir até aqui pra me dar um "oi"?
Então, pro meu próprio bem, tá decidido: não vou nem mesmo responder aquele e-mail sacaninha seu. Não vou mais lembrar de você quando eu for pra Lapa. Foda-se se você adora ir lá comigo. Eu não vou mais lá com você. E nem sem você, porque se eu te encontrar lá com outra eu vou querer morrer.
Não pretendo falhar dessa vez: vou tirar você de mim nem que seja à base da porrada. Até pedi ajuda ao meu amigo, aquele que não vai com sua cara desde que falei pra ele que você sempre reclama que eu durmo demais. E a antipatia dele só aumenta cada vez que eu falo que passei outro fim de semana sem fazer nada, esperando você me chamar pra fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
Sim, eu falo tudo pra ele porque ele sabe me jogar essas coisas na cara como ninguém e agora o que eu menos preciso é de alguém que fique colocando panos quentes nas suas vaciladas. Eu preciso tirar você de mim. Já tá ficando chata essa história de só pensar em você.
Nenhum (nenhum!) dos meus amigos aguentam mais me ouvir falando seu nome e já tem uns que evitam conversar comigo só pra não ouvir que estou feliz porque saímos ontem ou que estou péssima porque você não me liga há 10 dias. Todos eles acham que tô perdendo meu tempo gostando tanto assim de você. E ninguém consegue entender que não é gostar de verdade, é só um costume. Eu me acostumei com você, só isso.
Eu sei que já perdi a conta das vezes que fui embora da sua casa dizendo pra mim mesma que não voltaria mais lá. E toda vez que eu volto, em vez de assumir que sou fraca, eu repito baixinho que agora é só curtição, que não gosto de você, que só fui pra lá porque é muito melhor transar com um cara que eu já conheço há tanto tempo do que arriscar sair com outro que acabei de conhecer. É só sexo, repito sempre. Só que quando você fala meu nome e me olha com os olhos brilhando, olhos de quem não sente só tesão. Porra! Quando você me olha desse jeito, eu fico até meio tonta. Esqueço pra onde tenho que ir e só penso em voltar pra cama com você.
Mesmo sem gostar de você, eu gosto de ficar deitada com você, de dizer que eu tô com fome e ver que você se importa comigo e, embora morto de sono, levanta e me traz um copo de leite com 4 biscoitos. E minha fome de ser sozinha vai embora. Minha fome maior é de você.
Mas eu não dou mais conta de viver assim. Eu preciso me livrar de você e só de pensar nas coisas que tenho de fazer pra isso, já tenho vontade de chorar: como eu vou viver essa minha vidinha metida à besta se não tiver você por perto? Cara, eu não vou suportar engarrafamento, calor de 42 Graus, fila de supermercado. Eu não vou aguentar as merdinhas do dia a dia se não souber que daqui a 5 minutos vou poder ver você. Não é questão de gostar, é questão de não saber me acostumar sem uma pessoa legal do meu lado. Eu não gosto de você, eu só te acho legal.
Tá vendo? Foi só pensar em não te ver mais e eu já fiquei sufocada. Então eu acho melhor ser sua amiga e aí a gente pode se ver de vez quando, mas sem rolar beijo. É só você prometer que não vai mais fingir que acha bonitinha minha mania de falar de astrologia. E também não me dar atenção quando eu disser que estou entediada e com vontade de mudar de vida.
Melhor não, melhor a gente não tentar nem ser amigo. Não vai dar certo. Eu nunca conseguiria me comportar como sua amiga se você, no meio de alguma coisa que eu esteja falando, e que certamente vai ser algum dos meus dramas, soltar aquela gargalhada alta, que eu adoro. Eu tenho tanta raiva de você quando, no meio de um desabafo, você fala "olha o drama!" e aí dá uma gargalhada e fica os olhinhos fechados e com o rosto que eu adoro beijar vermelho.Eu tenho vontade de te matar.
Você pensa que faço de tudo um drama e certamente vai achar que essa minha decisão de não pensar mais em você também é só mais um dos milhões que compoem a novela mexicana que eu chamo de vida. Eu tenho certeza de que você tá pensando que é exagero, que eu nem gosto tanto de você. E é verdade: eu não gosto tanto assim de você. É que eu me acostumei com você e mudar de hábitos não é meu forte.
Eu tenho preguiça de começar tudo de novo e você já conhece meu corpo tão bem, sabe onde tem que tocar pra eu ficar com o estômago frio, com as pernas trêmulas. E eu também sei onde você gosta de carinho. Por isso eu preferia não ter de tirar você tão repentinamente da minha vida, do meu caderninho de telefone. Mas não tem outro jeito: eu não gosto de você.
E não tem nada a ver eu ficar esperando um telefonema de quem eu não gosto. Não tem nada a ver eu ficar feliz com uma mensagem bonitinha, afinal, essa mensagem bonitinha vem de um cara de quem eu não gosto. Não gosto de você. Não gosto de você. Não gosto de você.
Lembro de quando a gente se conheceu e eu te achei feio. E você me achou linda (adoro essa parte do "você me achou linda"). Olhei pra minha amiga e ela tava morta de curiosidade pra saber o que eu achei de você e eu fiz aquela minha cara de nojenta, de que nem morta eu beijava você. Depois de 20 minutos eu já te achava o cara mais gostoso do Universo e sabia que ia querer dar pra você até ficar bem velhinha. Mas depois eu me lembrei de que não quero nunca mais gostar de ninguém. Aí me lembro que eu não gosto de você. Eu só tô acostumada.
Vou acender um cigarro pra pensar melhor. Eu não fumo sempre, só quando fico meio perdida, ansiosa pra encontrar uma resposta. É só um hábito. Assim como você.