quarta-feira, 8 de julho de 2009

UM CONTO PREMIADO NA OFF FLIP / MARINA GOUVÊA

Quando eu era menina, dividia o tempo como minha mãe fazia com a maçã vermelha e brilhante que meu pai trazia do centro da cidade: em duas partes. Ela fazia questão de dividir tudo que nos oferecia: doces, frutas, brinquedos. Agia assim para nos ensinar a compartilhar. "Compartilhar ajuda a fazer amigos", ela dizia.

Nada de dias e noites, meses e semanas ou estações do ano. O meu tempo era dividido em: tempo de aulas e tempo de férias. E era acompanhado de uma carga de emoção tão forte que conseguiu sobreviver ao próprio tempo e influenciar a minha vida inteira.

Meu pai e o irmão mais novo, tio Francisco, saíram de Macaé, norte fluminense, para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Compraram um sítio próximo da cidade e, aos poucos, trouxeram irmãs, tios, primos e sobrinhos com suas famílias para morar nele. Foi assim que, em pouco tempo, formou-se ali uma comunidade familiar que fez com que a minha infância fosse mais feliz. Morei no sítio por pouco tempo, mas nos anos que se seguiram, era lá que todos os primos se reuniam para passar as férias. Era como voar para um mundo de faz-de-conta.

Lá tudo parecia mágico. A casa antiga de tijolos vermelhos aparentes, como eram as casas das histórias que eu lia nos livros de Contos de Fadas, era cercada de árvores frutíferas e flores, muitas flores, que coloriam o quintal e atraíam pássaros e borboletas de todos os tamanhos, espécies e cores.

Na frente da casa passava um riacho que, às vezes, era pouco mais que um fio d´agua. Sobre ele havia uma pequena ponte de madeira, onde ficávamos por longas horas sentados com as pernas penduradas, balançando como pêndulos de relógio, conversando com os peixinhos que vinha ali procurar alimento. Eram minúsculos, todos iguais. Chegavam em alegres cardumes, curiosos como crianças em piquenique. Mesmo no seu silêncio de peixes, pareciam sorrir.

A casa era construída ao pé da serra. Atrás dela havia uma floresta encantada. Na minha convicção de criança sonhadora, firmara-se a certeza de que ali viviam duendes, fadas, bruxas e dragões alados. Naquela floresta, desconhecida e cheia de mistérios, as minhas ilusões viravam verdades.

Quando a noite caía devagar e o vento empurrava pelo ar o sussurro das folhas tocadas por ele, eu até ouvia as vozes dos Sete Anões que cantavam enquanto caminhavam com passos ritmados ao encontro da Branca de Neve "Eu vou, eu/ pra casa agora eu vou".

Numa noite escura, muito escura, quando todos dormiam tranquilamente, olhei pela vidraça e via a flecha de Robinson Cruoe passar, luminosa, por entre as árvores soturnas que balançavam ao vento frio da madrugada. Fiquei quieta e feliz porque sabendo que ele estava por perto eu não precisava sentir medo do escuro. Aquele era o mundo da minha infância. O sítio era grande o bastante para que ali fosse criados patos, perus, porcos e galinhas. Naquele tempo toda mãe criava galinhas. A minha, para não fugir à regra, mandou construir um galinheiro no quintal. Não era muito grande, mas era coberto, organizado e limpo – até onde os habitantes o permitiam.

Dentro dele havia uma armação de varas de madeira, presas uma acima da outra nos mastros laterais inclinado para trás, formando uma grande escada que minha mãe chamava de "puleiro". Eu sempre achei que era chamado assim porque as aves tinha de "pular" para subir nele. Só muito tempo depois concluí que a palavra veio de "poule", galinha em francês.

Ao anoitecer, as galinhas e os desajeitados frangos – que eram os adolescentes da espécie – acompanhados pelo galo deixavam o terreiro, onde passavam o dia a ciscar e se recolhiam ao "puleiro" para pernoitar em segurança fora do alcance de possíveis predadores.

Eu achava bonito aquele momento em que todos subiam no "puleiro" e ficavam encostados uns aos outros. Era como se fossem os componentes de um coral, se posicionando para uma audição. Às vezes, eu ficava da janela observando o movimento frenético das aves que cacarejavam sem parar até encontrar uma posição confortável. Os menores sempre levavam desvantagem, pois eram empurrados pelos mais fortes sem cuidado ou respeito. Mas, depois de algumas quedas ao som de um cacarejo inconformado com a prepotência dos maiores, faziam nova tentativas até que conseguissem um bom lugar.

Então a noite caía sobre o sítio e com ela o silêncio envolvia o galinheiro como se fosse um lençol escuro e protetor. A paz tomava conta de tudo até que surgisse no horizonte o primeiro raio de sol. Nesse instante, o galo cantava acordando o dia e tudo começava a se mexer de novo. As aves se preparavam para mais um dia de ciscar.

No galinheiro havia ninhos feitos com palha seca que as galinhas "poedeiras", como minha mãe chamava as que estavam em fase de reprodução, usavam para pôr os ovos. Esses ovos seriam recolhidos pela manhã e mais tarde transformados em bolos, omeletes, tortas ou simplesmente mexidos ou estrelados para nossa alegria.

Entre as galinhas do sítio havia uma, chamada Brigite, que não se conformava em utilizar o ninho já preparado no galinheiro. Ela era orgulhosa e aventureira. Fazia questão de confeccionar seu próprio ninho longe das interferências dos humanos. Seu senso de sobrevivência conhecia as intenções de quem construía para ela o ninho: saciar a própria fome, sacrificando os ovos que deveriam originar a sua família, ou melhor, a sua ninhada. Não aceitava tamanha falta de sensibilidade. Então resolveu tomar uma atitude drástica para evitar que isso acontecesse.

Quando era tempo de botar ovos, ela desaparecia por um longo período da tarde. Ninguém sabia por onde andava. Horas depois, reaparecia desconfiada como quem acabou de fazer algo errado.

Brigite era uma galinha vermelha, de patas fortes, que avançavam decididas. Desfilava pelo terreiro elegante como uma "top model" na passarela. Minha mãe dizia que era uma galinha "legorne". Eu não sabia o que isso significava, mas pelo som da palavra e pelo porte altivo de Brigite tinha certeza de que ela devia ser uma galinha de classe.

Certa vez ela se embrenhou pelo mato e passou vários dias longe da impertinência da nossa curiosidade. Ao voltar, trazia um olhar arisco de quem guardava um segredo e temia por sua descoberta. Chegou desconfiada, pisando nas pontas das patas, como se quisesse passar despercebida. Caminhava de um lado para o outro observando a reação das outras aves. Logo depois foi juntar-se a elas e começou a ciscar, cacarejando o segredo, como se nada tivesse acontecido.

No dia seguinte, e nos outros também, repetiu-se a cena. E foi assim por muitos outros dias até que, aproveitando a distração dos habitantes do sítio, ela se esgueirou pelos fundos do quintal e desapareceu.

Passaram-se semanas, sem que dela tivéssemos notícias. Nós estávamos de férias e, eu e meus primos, não tínhamos outra obrigação a não ser brincar. Era um tempo só de alegria.

Preocupada com o que poderia ter sucedido a Brigite, minha mãe resolveu convocar o nosso barulhento serviço de investigação. Daquele momento em diante era nossa a incumbência de encontrar a galinha antes que uma cobra ou outro animal faminto o fizesse.

Reunimo-nos na varanda da casa para traçar estratégias. Localizar o ninho era uma missão que levávamos a sério. Depois do almoço, como um pelotão de soldados cônscios da responsabilidade que lhes era confiada, partimos à procura da ave desaparecida. Vasculhamos toda a redondeza. Reviramos cada folha de capim que encontramos pelo caminho e ... nada. Voltamos no dia seguinte, no outro, e, assim, por incontáveis vezes fizemos o mesmo trajeto, sem sucesso.

A esperança já quase se desvanecia, quando resolvemos nos espalhar por entre arbustos, plantas rasteiras, samambaias e trepadeiras floridas numa feroz caçada. Cada um seguiu por um lado. Eu caminhei em direção de um Ipê-amarelo, minha árvore preferida, que ficava no meio do campo, desgarrada das outras árvores. Embaixo dele havia uma grande moita de Capim-limão verde e fresquinha, cujas folhas balançavam ao sopro da brisa da tarde. Olhei na sua direção e uma luz que emanava do frescor das folhas parecia me dizer que algo precioso se escondia ali. Abri as folhas com as mãos e lá estava Brigite imóvel sobre o ninho. Por um momento imitei sua imobilidade. Assustada, ela se levantou quando me viu. Naquele instante pude ver os ovos rosados e quentes, aconchegados uns aos outros como se quisessem se proteger mutuamente. Sobre ele algumas leves penugens tremulavam tocadas pela aragem. Pensei em gritar para que os outros soubessem que eu encontrara o ninho. De repente, como se desse conta do risco que corria se fosse descoberta, ela voltou ao seu lugar e me fitou firmemente com os olhinhos redondos e brilhantes, pequenos botões de vidro. Era o olhar de quem suplicava ajuda.

Numa atitude solidária resolvi me calar. Selei com ela um pacto de silêncio. Tornei-me sua cúmplice. Escondi o ninho com galhos secos de um jeito que não era possível ser visto por mais ninguém.

A busca prosseguiu,porém sem que eu participasse dela. Quando meus primos se cansaram, voltaram para casa desanimados. Nos dias que se seguiram não os acompanhei mais, alegando cansaço. Usei todos os argumentos de que dispunha para convencê-los a fazer o mesmo.

Os dias correram céleres, mais ainda pelo prazer do estar em férias. Eram tantas as brincadeiras que as crianças logo se esqueceram de perseguir Brigite e deram a missão por fracassada. Conivente com o segredo, eu me mantia silenciosa como as pedras do quintal.

Numa tarde preguiçosa de domingo em que o Sol claro e morno parecia querer se despedir de nós pra descansar atrás da serra, estávamos sentados na varanda jogando e planejando as travessuras do dia seguinte, quando percebemos um movimento súbito entre as folhas de um canteiro de margaridas que se estendia como um tapete branco na frente da casa.

Logo depois, surgiu Brigite, quase redonda pelo expandir das penas que exibiam o orgulho da maternidade. Atrás dela, num pipinar intenso, empurrando-se uns aos outros como se tivessem pressa em se apresentarem, vinham os pintinhos. Eram muitos, amarelinhos como os miolos das margaridas.

Quando vimos a ninhada, imediatamente paramos o jogo e, como num movimento ensaiado, pulamos todos ao mesmo tempo por sobre os degraus da varanda e corremos em sua direção.

Com os olhos arregalados e o coração em descompasso pela surpresa da visão, as crianças se perguntavam como a galinha conseguira manter escondido o ninho.

Por um instante Brigite deixou a barulhenta ninhada e veio bicar os meus pés. Cacarejou coisas que só eu entendi. Ninguém percebeu a nossa cumplicidade. Aquele era um segredo só nosso.

E foi meu primeiro segredo compartilhado.


(O Ninho. In "Coletânea Prêmio OFF FLIP de Literatura 2009. 1º lugar categoria Contos)

Marina Gouvêa do Nascimento chegou em Party em 1965 para lecionar no Grupo Escolar Samuel Costa, atual CEMBRA. Deveria permanecer por apenas dois anos, mas apaixonou-se pela cidade, por sua cultura, por sua gente e aqui fixou residência até hoje. Formada em Letras, encontra grande prazer na leitura e na escrita e teve seus poemas publicados em revistas literárias do Rio de Janeiro e nos jornais de Paraty. Prepara um livro de poesias, que deverá ser lançado em breve. Esta é a biografia que consta no livro de coletâneas. Para mim, a autora é a minha amada Dinda Marina. Minha poeta predileta a quem desde pequena olho e penso "Quando eu crescer, quero ser igual a ela".