sexta-feira, 17 de julho de 2009

SOBRE ROTINAS E O QUE NÃO COMBINA COM A GENTE.


Eu tava em casa. Tinha acabado de chegar da academia e uma preguicinha gostosa se instalava enquanto eu dava uma olhada nos canais da TV. Parei no 43, porque era hora de "House" e não resisto àquele mal humorado que sabe tudo sobre o corpo humano. Mudei o canal e vi a notícia: Michael Jackson morreu. Um pequeno susto, mas todo mundo morre, não é mesmo? É estranho porque tem gente que parece que nunca vai morrer, não combina com a morte.
Durante as semanas seguintes o assunto ainda era esse: o Rei do Pop morreu. Mas como um rapazinho muito querido em outros tempos reapareceu, minhas notícias prediletas vinham via telefone ou e-mail. O mundo se acabando em homenagens ao esquisitão Michael Jackson e eu lá, conversando com meu querido de outrora.
De manhã as coisas são tão iguais: lavar o rosto, corretivo nas manchinhas de sol, filtro solar e maquiagem levinha pra ir trabalhar. Nos jornais, notícias daquilo que não me interessa. Taxi pro trabalho. Bom dia pra todos. Telefonemas, e-mails, reuniões, pausa pro almoço. E pro livro. Tudo de novo na parte da tarde. 6:15h, aula de Pilates, depois Spinning e casa. Sinuca às 4as, Lapa na 6ª ou no sábado e domingo pra não fazer nada.
Dei bobeira e deixei morrer uma flor que estava, havia alguns meses, enfeitando o canto da minha sala. Pedi uma pizza pra comer vendo "Outono em Nova Iorque" pela milésima vez. Lembrei de marcar dentista. Recebi umas fotos que nem lembrava mais. Eu e ele, numa viagem decidida em cima da hora e com gosto de irresponsabilidade: saímos cedo do trabalho na 5ª e cada um inventou uma história na 6ª-feira. Melhor do que programar férias é fugir com o namorado durante a semana e desligar o celular. O destino tanto faz. Eu me lembrava de cada uma daquelas fotos, do que estávamos falando, porque estávamos rindo. Senti o calor de cada abraço trocado naqueles dias, já tão distantes.
A semana passou "mezzo a mezzo": com rotina e surpresas. Será que vale a pena voltar pro ex? Se acreditasse em cartomante, ligaria praquela que a Ju indicou. Quando não sei o que fazer me dá vontade de acreditar nessas coisas. Deve ser bom dizer que as cartas é que sabem do meu futuro. Pensando bem, é melhor dar uma corridinha, só pra não ficar pensando nisso. Mais tarde vou botar a correspondência em dia e também ligar pra minha amiga lá de São Paulo que teve bebê há 2 meses.
Aquele mendigo do supermercado me tira do piloto automático: quando passo por ele lembro do quanto sou feliz e agradeço a Deus porque posso comprar os remédios dos meus pais e penso que deve ser muito triste depender da caridade dos outros pra ter o que comer. Estou com um pouquinho de febre, deve ser a garganta. Melhor secar bem o cabelo e dormir de camisola quentinha.
De manhã a rotina se quebrou com o telefone tocando. "Oi, Gi, aconteceu alguma coisa?". Minha irmã ficou em silêncio e eu adivinhei o que ela tinha pra falar, mas também fiquei em silêncio, numa torcida cega pra não ser nada daquilo. "A Vovó Cininha morreu, Aline. Você pode vir? Meu pai ainda não sabe, tá dormindo. Como eu falo pra ele?". Silêncio. Todo mundo morre, não é mesmo? Mas é sempre melhor quando a notícia acontece longe do nosso quintal.
Quatro horas de viagem depois, cheguei à igreja onde acontecia o velório. Abraços solidários e palavras bonitas sobre ela, minha avó. Minha avó que parecia que não ia morrer nunca, porque tem gente que não combina com a morte.
Depois do susto e do choro, um alento: minha família estava reunida, como havia muito tempo não se fazia. Minha avó está em paz, eu tenho certeza.