quarta-feira, 20 de maio de 2020

Moço, me dá aí dois quilos de humildade, por favor.

Tem hora que só a razão e os bons modos que aprendi (aprendi?) me impedem de bater em alguém. Ou em mim mesma, já que o problema é comigo. Embora eu ache que o mundo todo esteja errado.
Só meu lado racional não me deixa fazer o que mais desejo de vez em quando: pular da janela, me jogar na frente de um ônibus. Ou dormir por muito, muito tempo, até a tristeza passar. E como ela não passa, me vejo por aí desejando quebrar tudo pela casa, atropelar alguém, me lixar pro que pensam de mim. A consciência me freia e, resignada, passo meu blush e um batom cor de boca e vou por aí, com a tristeza camuflada.
Quando sinto essa tristeza de agora, quase não suporto acordar. Detesto o sol entrando pela minha janela e sinto que vou explodir em lágrimas. Mas já não choro há tanto tempo. Não adianta chorar quando a tristeza é daquelas muito, muito grandes. Chorar, nessas horas, só aumenta o desespero, porque me faz lembrar que não vai resolver porra nenhuma.
Além de saber que não resolve, ainda tem o agravante: como uma criatura nariz empinado como eu, arrogante como eu, vai explicar que passou horas chorando? Arrogância é isso aí: esconder até o que mora em mim, o que é tatuado em mim. Meu nariz empinado, meu ar de quem vence todas jamais me permite dizer nem que peguei o caminho errado, imagine deixar que vejam como sou quase só tristeza. Tem gente que vive experiência de quase morte; eu vivo experiência de quase vida, que é quando dou um jeito de maquiar minha tristeza. Seja gastando uma grana no shopping, seja viajando pela Europa, ou só dizendo que tá tudo bem. Mas quase nunca tá tudo bem.
O bombeiro consertou o vazamento do banheiro e paguei com dinheiro. Chegaram as cortinas novas e ficaram ótimas. O marceneiro fez uma mesinha de centro linda, do jeito que eu desenhei. Mas e daí? Não gostei de verdade. Não senti nem uma pontinha de alegria.
Estou aqui trancada em casa, nesse isolamento imposto por um vírus maior do que eu. Ontem terminei um livro ótimo. Hoje combinei de assistir um filme cujo texto já conheço e adoro. Pode ser que fique quase feliz, afinal, filme com ele tem tudo pra ser o melhor programa do mundo. Pode ser que me alegre. Mas só de pensar que posso ficar felizinha, já fico mais triste do que antes, porque depois de um surto de alegria vem a tristeza de sempre. Vem como nunca. Dá vontade de não rir só pra não ter que chorar. Amanhã tenho médico on line. Coisas da quarentena, e me parece um programa bem mais animador, afinal, à minha tristeza somam-se o desconforto dessa nova forma de consulta sem olho no olho de verdade. 
Tá decidido: não vou ver filme porra nenhuma. Ele nem vai se importar e isso me deixa triste pra cacete. Vou ficar aqui, de frente pra TV, letárgica. Triste profissional.
Ser adulto é isso. É dar bom dia pro vizinho no elevador, pagar conta pelo aplicativo do banco, esquecer da consulta com o médico. Fazer tudo isso com uma vontade tremenda de morrer, de dormir o dia todo, de atropelar alguém. É viver com uma tristeza involuntária sempre renascendo no peito. E não deixar a vida parar: tenho artigos pra ler, gaveta pra arrumar, dissertação pra escrever.
Se ao menos eu conseguisse chorar. Sei lá pra quê, só pra aliviar um pouco. Talvez fosse um caminho. Já tentei tanta coisa: bebida, exercício, jogo.... Sou dispersa demais para me concentrar num jogo de cartas e partidas de buraco são eternas e me deixam aflita. Bebida me dá ressaca, sem contar que é sempre assim : beber e ligar pra ele. Por isso a corrida me agrada. Quando pego o tênis, eu quero mesmo é fugir de mim. É na hora da corrida que fico um pouco mais esperançosa, porque botei na cabeça que um dia vou conseguir mesmo correr tanto, mas tanto que vou me deixar pra trás. E quando eu estiver bem longe de mim, vou ser igual àquelas pessoas que são mais vivas do que eu, que têm sempre alguma coisa pra comemorar. Mas o raio do vírus não deixa a gente sair pra correr, não deixa a gente sair pra nada. Não dá pra eu  me esquecer de mim.
Quem sabe um dia não vou não acordar cinco vezes no meio da noite pensando. Nem vou deitar pensando, acordar pensando. Outro sinal da minha arrogância: eu penso muito e  quero entender. Mas não entendo nada e isso me enche mais de tristeza, de tanta tristeza que me dá vontade de sair de mim. Eu quero ir embora de mim e pensar menos, e ser humilde e deixar que os outros entendam aquilo tudo que não é feito pra ser entendido.

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