sábado, 13 de março de 2010

Quando é hora de partir.

Querido,

no seu aniversário (o dia, segundo dizem, mais importante do ano, dentre todos os outros) lembrei de um poema que só podia mesmo ter sido escrito pelo mestre Fernando Pessoa. Estudei este poema em 2004, um ano muito difícil e importante na minha vida: completei 30 anos, rompi um relacionamento de muitos anos, tive de reaprender a viver sozinha, me reaproximar de mim mesma e conhecer quem eu era àquela altura.
No meio desse turbilhão todo, num belo dia, lá me vem o Professor com este poema, numa aulda de Literatura Portuguesa.
Eu, perdida em meio a tantos questionamentos, evitando entrar em contato com minhas emoções mais profundas e cheia de obstáculos a superar, tive a impressão de que o mundo parou. Naquele momento tudo o mais deixou de existir: éramos somente o poema e eu.
Desejei de coração que um dia eu tivesse de fato uma pessoa querida, a quem eu pudesse dizer "Quero ser teu amigo", sendo que "amigo" tem mil significados. Ainda mais vindo de Pessoa.
Eu tenho alguns poucos e lindos amigos. Mas sabia que havia outros poemas para eles. Este aqui haveria de ficar guardado para um amigo diferente.
Você foi esse "amigo". Percebi isso em nosso 1o. beijo, quando meu coração bateu de um jeito diferente, como havia muito não batia.
Foi muito importante conhecer você. O motivo principal foi perceber que ainda sou capaz de sentir mais do que um tesão de meia hora por um cara. Também percebi que meu coração não estava tão endurecido quanto pensei estar. Ainda sabia querer bem, amar.
Se eu te contasse tudo o que mudou em mim, você não acreditaria. Acharia exagero, até.
Queridão, Gatinho, você tem tantos nomes quantos mistérios pra mim. E eu desejei não ser nem de mais de nem de menos em sua vida. Te quis na medida certinha dentro da minha. Abri devagarinho (e continuamente) as janelas do meu coração, da maneira mais discreta que soube. Se tirei sua liberdade, acredite, foi sem querer. E também nunca quis te sufocar. Consegui ser assim, discreta?
Te quis perto, mas não tanto a ponto de descobrir seus segredos, seus defeitos. Quis você na minha vida do jeitinho que o poeta fala: nem ausente, nem presente demais. Você sempre trouxe para mim, calmamente, paz. Tentei ser pra você isso também. Tomara que eu tenha dito as palavras mais acertadas quando precisou, para compensar as vezes que falei demais.
Ah, como eu queria ter enchido seu rosto e tua memória de lembranças minhas. Não ouso perguntar se elas haverão de existir.
Nossas distâncias sempre estiveram esclarecidas: você as deixou claras para mim e eu não fiz questão de esconder o tanto que sempre te quis.
Quando vi, você já era parte da minha vida. Eu já tinha uma cumplicidade bonita com você, até colo eu consegui pedir. Talvez a parte mais difícil agora seja perceber no dia-a-dia que não tenho mais isso.
Quis tanto cuidar de você nos seus momentos chatos. Vibrei com suas vitórias. E vivia admirando sua busca determinada pela felicidade.
Como pode ver, o que senti por você tem um nome. Nome conhecido e, por vezes, banalizado.
Tem sido estranho perceber que as tais distâncias aumentaram. Te chamei algumas vezes para nos vermos, você não tava a fim. Tentei não ser chata, mas sinceramente, é estranho eu saber que vai passar um filme legal no cinema e não vamos juntos.
Desculpe minhas inconveniências: eram tentativas de nos reaproximar. Tomara que não tenha sido a chata. Daqui por diante, mesmo sendo difícil, não vou te solicitar quando precisar: já não há laços.
Nossas vidas estiveram "entrelaçadas" por um espaço gostoso de tempo, mas se você não tem mais a mesma vontade que eu, preciso fazer como fazem as damas: me retirar. Dizem que as mulheres elegantes fazem isso: sabem a hora exata de se retirar.
Aqui vou eu, num esforço imenso, sair de sua vida, tirar você de mim.
Vou esquecer das Luas, das flores amarelas e dos "bom dias, Lindinha". Não vai ser fácil. Nunca é. Mas é o que deve ser feito.

POEMA DO AMIGO APRENDIZ
(FERNANDO PESSOA)

Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.

Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias.