segunda-feira, 26 de julho de 2010

Heranças

Gosto de escrever isso é óbvio, caso contrário não teria criado este espacinho aqui. Às vezes me perguntam de quem "herdei" este dom. A resposta está sempre na ponta da língua: tenho escritores na minha família.
Na verdade, a gente é uma soma de nossos ancestrais. De um herdamos o jeito de pensar, de agir, o gosto por isso ou por aquilo. De outro, herdamos o formato dos olhos, a altura e por aí vai.
No meu caso, herdei muitos aspectos físicos da família do meu paizinho: o tipo de corpo, os olhos, a pele branquinha, o nariz e até os precoces cabelos brancos. E se Deus me ajudar, hei de ter o gene que faz a pele da minha avó e das minhas tias paternas. Pele que só conhece rugas depois dos 70 anos. Colágeno puro! Coisa de matar de inveja.
Mas a ligação com a escrita vem tanto do lado paterno quanto do materno. Pra ser mais exata, o que eu trago das duas famílias é o hábito da leitura. Afinal, só escreve bem quem lê. Bons autores e bastante. No meu caso, ler despertou a vontade de escrever. E como pretendo escrever melhor, procuro sempre ler.
Na hora de escolher o que cursar na faculdade, sempre tive em mente fazer Letras. Por curiosidades do destino, tentei outros três cursos antes de, finalmente, estudar o que sempre desejei. Entrei primeiro no curso de Comércio Exterior. Adorava toda a parte teórica (política, sociologia e Inglês), mas chorava nas aulas de Matemática Financeira. Desisti porque não era minha praia. Fui cursar Comunicação, crente que estava no caminho certo, mas, apesar de escrever bastante, sentia falta da teoria do "bem escrever" e me desiludi com alguns professores que maltratavam nossa Língua (pecado sem perdão pra mim). Depois fiz 1 semana de Administração de Empresas. Não me pergunte o motivo. Deve ter sido algum chá de cogumelo que tomei sem saber.
Finalmente, em 2001, ingressei na Faculdade de Letras. Sabe quando você para e pensa "é isso"? Pois é, eu pensei assim mesmo: é disso o que eu preciso. Fiz Português-Literatura, pois já falava um Inglês e o fato de ter contato com as teorias da Literatura me fascinava.
Mas minha ligação com a escrita vem desde sempre. Minha mãe conta que eu escrevia "livros" toda semana. No colégio sempre participava de concurso de Redação (e ficava bem colocada). Aliás, minha amada professora de Português, Adélia, até hoje guarda redações que eu escrevia.
Como morava em Paraty, cidade pequena, todas as professoras sabiam que eu era sobrinha de uma professora de Português e de Literatura que até hoje é muito querida, tanto por sua doçura quanto por sua capacidade de transformar o fato mais bobo, mais cotidiano (como diria Bandeira), em um conto, em uma crônica ou um poema de arrepiar qualquer um. Infelizmente não tive aulas com ela. Bem, não tive aula com ela no colégio, porque conversar sobre o livro que ela está lendo é melhor do que muita aula que já tive com professores de Universidade. O nome dela é Marina. A minha Tia Marina, minha Dinda Marina, a primeira poeta que conheci. Nasceu poeta, segundo minha mãe conta.
Lá em Paraty todos sabiam também que eu era neta de uma outra professora muito querida e respeitada, a Dona Cininha. Pra mim, Vovó Cininha.
Dizem que eu não tinha como fugir da paixão pelos livros e pelas letras, uma vez que carrego (pelo menos eu torço pra caramba pra isso) os gens dessas mulheres que parecem amigas das palavras. Se você ouvisse um discurso da Vovó Cininha ou da Dinda Marina você saberia o porquê de eu torcer para a genética falar alto. Claro que rola um medinho das comparações, mas como sempre digo, não me levo muito a sério e não escrevo para os outros, escrevo principalmente para mim.
Pois bem, formei-me em Letras, embora certa de que não iria seguir os passos delas, que exerceram uma das profissões que mais admiro : o magistério. Nunca me senti preparada para ir para a sala de aula. Cursei Letras por uma necessidade quase física mesmo. Foi por pura realização pessoal que ralei cinco anos estudando. Realizei um sonho e tenho orgulho de dizer qual minha formação.
Há uns dois anos fiz uma montagem de duas fotografias: a do 1a dia de aula, no Pré-Escolar (nem existe mais isso) e a famosa foto de Beca. Ficou um trabalho legal e achei que minha avó iria gostar de tê-la. Mandei pra ela com um bilhete.
Gente, a velha chorou, vocês não tem noção do quanto. O mais engraçado é que dias depois ela pediu pro meu pai fazer um quadro, não com a foto (que foi para um lindo portarretrato), mas com o bilhete. Eu já sabia disso: me saio melhor com as palavras do que nas fotografias. Mas quem quer ser bonita quando é capaz de seduzir com a escrita? Brincadeiras à parte, achei curioso aquilo e perguntei o porquê "É que você me homenageou de uma forma tão bonita que senti vontade que todos que entrassem na minha casa lessem aquilo. Queria que vissem como você escreve bem e como, de uma certa forma, eu a influenciei" foi a resposta da Vovó Cininha. Não somos, definitivamente, humildes nessa família.
Meses depois, Vovó Cininha escreveu suas memórias num livro. Falou sobre algumas histórias da família, colocou fotos dos pais, dos irmãos e assim registrou mais de 80 anos de lembranças, ainda fresquinhas.
Quando peguei o meu exemplar, fiquei uns 5 minutos sem saber o que dizer. Foi emoção pura: minha avó transformou o presente que dei a ela numa homenagem a mim. Ela diz que a homenageada foi ela, mas eu bato o pé e digo que fui eu.
Como também herdei dela a personalidade forte, que defende seu ponto de vista mesmo que o mundo prove que é o oposto, combinamos de não falar mais no assunto. E num longo e afetuoso abraço nos agradecemos mutuamente uma à outra.


PS: Meus pais não são assim, como dizer?, muito chegados a livros. Mas foram meus maiores incentivadores. Minha mãe tem um orgulho danado de dizer que em vez de comprar o lanche na escola, eu comprava gibis da Turma da Mônica. Já o meu pai comprava todas as coleções de livros infantis que ele visse. E também me dava dinheiro para comprar mais gibis.


CAPA DO LIVRO DA VOVÓ CININHA



COMENTÁRIO DA MINHA AVÓ SOBRE O BILHETE QUE ESCREVI





HOMENAGEM DA NETA PARA A AVÓ E DA AVÓ PARA A NETA