quarta-feira, 2 de junho de 2010

POSSO FALAR?

Minhas duas últimas semanas foram do tipo "tudo ao mesmo tempo? Será que eu aguento?": pela primeira vez na vida fiquei desempregada (além da preocupação com grana, ficar em casa sem nada para fazer é quase um castigo para quem é ligada na tomada, como eu) e meu afilhado passou 12 dias na UTI por causa da Dengue (momento Marketing Social: a Dengue mata, identifique e acabe com os focos do mosquito Aedes Egypt).
Mas não, não quero esquecer estes dias de tensão, aflição e insegurança. Ao contrário, quero lembrar-me deles para sempre, pois acredito que tenho a obrigação de aprender com os momentos delicados pelos quais eu passo. Quero ser uma pessoa melhor depois de cada dor. E toda vez que passo por algum episódio de perda, doença ou coisas do gênero, me vem à cabeça uma poesia chamada "Certas tardes", do Affonso Romano de Sant´anna, que fala assim : "
(...) Deus botou essas tardes na minha frente/ Para me ferir,/ Me extasiar./ Às vezes me distraio. Deus insiste: põe/ As tardes de novo em minha frente / Para que eu aprenda a morrer."

Abusadinha que sou, já senti vontade de falar com o poeta e sugerir que ele fizesse uma pequena alteração. Minha versão seria assim:
" (...) Deus insiste: põe/ As tardes de novo em minha frente / Para que eu aprenda a VIVER."

É que eu realmente acho que, tal como essas tardes do poema, os momentos difíceis por quais eu passo são "avisos" para eu aprender a viver de verdade. E isso quer dizer me preocupar com o que é importante, vital, indispensável. Minhas desavenças com a balança ou outras implicâncias com minha aparência são distrações que me fazem desviar do caminho da felicidade. Essas preocupações não me acrescentam nada, apenas me fazem sofrer e esquecer de tudo o que já tenho, já conquistei.

Se eu fosse enumerar quantas vezes me distraí pensando "quando emagrecer vou ser mais feliz" ou "se eu ganhasse mais minha vida seria melhor"... Quanta energia desperdiçada, quantas lágrimas inúteis.


Por que estou falando sobre isso? Por dois motivos. O primeiro foi porque ontem almocei com duas amigas e uma hora o assunto descambou, claro, para o quesito "aparência". Uma falou sobre a culpa que estava sentindo por ter enchido o prato de carboidratos. A outra disse que o namorado vive implicando com o imenso culote que ela "cultiva". Quando tentei argumentar que não é pecado sair da dieta, principalmente num sábado. Culpa engorda mais do que pizza com amigas ou que homem que não gosta do corpo da namorada não gosta mesmo é da namorada, quase fui linchada e acusada de traidora do movimento que todas nós mulheres participamos, o da eterna insatisfação com o corpo. Tentei argumentar que até bem pouco tempo eu também levantava a bandeira do "Só vou ser feliz de verdade quando ficar bem magrinha" e que meu lema era "não me elogie: eu sou gorda". E que passei a me amar quando entendi que há coisas na vida que valem bem mais do que um corpo esbelto. Só que elas não me ouviram e continuaram falando sobre como é triste não conseguir perder 2 kg, como é horrível ter 30 e tantos anos e não estar rica e independente financeiramente ("Pagar aluguel pra mim é a maior prova da minha derrota profissional"). Minhas amigas me assustaram por se mostrarem tão insatisfeitas com suas vidas. Perguntei se elas já pensaram em fazer terapia para tentar entender o motivo de tanta culpa, tanta cobrança. Uma disse que terapia é cara e para pagar ela teria de parar de malhar com personal trainner. Eu, que também já preferi ficar magra a ter uma cabeça legal, falei que tem hora que é realmente preciso escolher o que vai ser mais útil.

Todo esse papo me fez lembrar de como eu gastei tempo e dinheiro tentando entrar na "Maravilhosa terra dos magros e lindos". E de como foi gratificante descobrir que o passaporte para um mundo mais feliz é a tão falada autoestima: desde que cultivei a minha não me para nenhuma terra de sonhos, mas vivo de um jeito mais tranquilo, e que é bem mais fácil viver bem com o que tenho do que sofrer pelo que gostaria de ter.

Insatisfação, baixa autoestima, culpa... esses são temas recorrentes nos comentários das leitoras do outro blog para onde escrevo, o Mulherão, e este foi o segundo motivo de eu estar escrevendo tudo isso.
Tem menina que acha que se virar modelo GG vai ser mais feliz e a vida será um mar de rosas, um paraíso. Pizzas e chocolates serão itens obrigatórios na sobremesa. Exercícios físicos e dietas serão banidos do vocabulário. Também não será necessário olhar para dentro de si e tentar descobrir se existe algum motivo emocional para ter começado a engordar. Ela será aceita por todo mundo e, quem sabe, até por ela mesma.

Tem menina que jura de pé junto que é feliz com o peso que tem porque, afinal de contas, tem um namorado/ marido apaixonado. Como se isso fosse uma espécie de selo de garantia: sorria, você já tem seu namorado/ marido e não precisa se cuidar. Mas é tão perigoso colocar a felicidade nas mãos do outro..

À noite uma de minhas amiga me ligou. Ficara pensativa o restante da tarde e estava curiosa, queria saber se era verdade que passei a gostar dos meus pneuzinhos. Respondi que não, que meus pneuzinhos ainda me incomodam. Só que tenho tantas outras coisas para ocupar minha cabeça...