domingo, 13 de junho de 2010

FAZ UM TEMPÃO

Resolvi reler aquele livro que ganhei de amigo-oculto no Natal de 2003. Tomei o maior susto: seu cartão de Natal. Nosso último Natal. Você abriu seu presente, sorriu ao ler o cartão, mas não fez questão de guardá-lo, como fazia com tudo que ganhava de mim. Era um sinal, mas eu não reparei. Na verdade reparei, sim, mas era mais fácil fingir que tava tudo bem. Peguei o cartão e coloquei-o dentro do livro. Dias depois, achei a coincidência irônica: aquela também era uma estória de separação por desencontros.
Hoje, tanto tempo depois, vou reler o livro pois já não me lembro muito da estória. De repente, senti sua falta. Fazia muito tempo que não lembrava de você. Não te amo mais há muito tempo, mas senti sua falta. Falta das coisas da gente. Tanto tempo depois, ainda lembro bem de nossa história. E essa lembrança de tanta coisa bonita é triste, porque não acabou por falta de amor: cada um pegou um avião diferente, desembarcou em terminais diferentes. E se a gente tivesse comprado bilhete junto? Como seria o hoje?
Lembro de coisas sem ordem cronológica, como quem vê um álbum aleatoriamente. A primeira viagem de férias. O meu aniversário na casa nova. A tentativa de reatar viajando para o lugar de sempre. A última briga, sei lá porquê, vem mais vezes à minha cabeça: fui dormir na sala pra poder chorar em paz, pra você não desistir de ir só por pena de tudo que ia deixar pra trás. Doeu abandonarmos tantos sonhos. Sinto falta do filho que não tivemos, da tatuagem incompleta e da TV eternamente ligada no futebol. Também da sua mania de não dormir no escuro e de implicar com meu banho muito quente.
Tenho saudade da gente e do tempo que nada era por educação ou obrigação. Lembra? Houve um tempo que a gente era espontaneo e carinhoso pra caramba.
Saudade da salada da Chaika, do carinho "pé com pé", do beijo que a gente não podia negar depois da briga. Trato é trato: tem que beijar mesmo se estiver com raiva. Raiva? Que raiva, já passou...
São dessas coisas que eu sinto saudade.
Mas hoje é só saudade. E uma curiosidade imensa: por que você passou por mim e nem cumprimentou?