domingo, 9 de maio de 2010

Eu trago um mundo na minha bagagem de mão



No primeiro dia da Faculdade de Letras, tive uma aula de Linguística que me marcou. Além de a Professora (Leila Longo) ser ótima, o assunto era gostoso e eu sempre tive mania de "viajar" nas aulas. O assunto da aula era sobre como duas palavras podem ter a mesma função sintática mas transmitir uma mensagem diferente quando utilizadas. É mais ou menos assim: falamos "casa" e nos lembramos de um lugar onde se mora; falamos "lar", lembramos de um lugar aconchegante, gostoso.

Isso não tem a ver com a palavra em si, mas com nossas lembranças, nossa bagagem emocional. Sim, o fato de eu ter adorado aquela aula foi ter sacado que somos, cada um de nós, a soma das experiências que vivemos. Muito do que vivemos está presente na forma com que falamos, com que nos relacionamos com o outro. Naquele dia (e durante alguns muitos outros depois) não parei de pensar em como uma coisinha que pode parecer à toa, sem importância, é parte do "cimento" que constrói a gente vida a fora.

Uma vez um amigo me mostrou um blog que ele tem praticamente em segredo. Havia umas poesias lindas, umas fotos belíssimas, tudo tão gostoso de ver, apaixonante mesmo. Claro, ele escreveu aquelas poesias, trabalhou aquelas fotos num período em que estava apaixonado (durante namoro e durante a dor de cotovelo inevitável que se segue a cada fim de um amor, quando é mesmo amor). A paixão foi-se e ele teve a maldita ideia de apagar tudo do blog! Quando eu soube levei um susto e ele falou "é que agora estou numa nova fase da minha vida". Fiquei calada, embora mil argumentos me tenham assombrado a cabeça. O blog anda lá, mega desatualizado e ele ainda não olha para o fim do romance com muita simpatia. Embora diga que não, acho que ainda sonha com ela. E se um dia ela voltar, ele não vai poder mostrar o quanto sonhou com este dia, simplesmente porque ele pensou que iniciar uma nova fase de vida fosse apagar as lembranças da mulher que amou.

Que atire o 1º vaso quem, num acesso de "vou te esquecer, desgraçado!" nunca rasgou um monte de fotos ou não empacotou todos os ursinhos de pelúcia e lembrancinhas do "falecido" e mandou devolver. Eu já fiz isso algumas vezes. Dá um baita alívio na hora, mas não muda a história que vivi. Ela é minha e vai comigo aonde eu for. Mesmo que eu tenha jogado pela janela da casa da minha mãe o 1º presente que ganhei de um namorado de muitos anos (uma boneca da Mônica que tinha escrito "eu te amo"), eu não esqueci nem do dia e nem do motivo que ganhei. Não dá pra tirar as lembranças de mim, por mais que eu arranque as fotos do meu álbum. O espaço vazio de uma foto é o retrato do fim daquele amor.

Dei exemplos de romance, mas a experiência-memória serve para qualquer outra área da nossa vida. Minha "memória afetiva" me faz não provar caipirinha de limão há 18 anos. Só de falar no assunto tenho náuseas. É que tomei um porre "daqueles" e, sabe como é... Músicas também costumam me fazer voltar no tempo e mesmo que não seja a música mais alegre do mundo, se eu a ouvi uma vez num momento feliz, fico feliz quando ela toca. Quando assisti ao espetáculo "Renato Russo" chorei do início ao fim: passei minha juventude ao som da Legião Urbana. Qualquer música deles me lembra dos meus amigos lindos, das noites em Paraty, com o Rebeca tocand violão pra gente até de manhã... Vou ter 100 anos e virar adolescente ao ouvir Legião. Viva Legião! Viva Renato Russo! Viva Cazuza!

É estranho e instigante como meu passado vive em mim. Por mais que queira ou tente, levo sempre o que vivi aqui na minha bolsa. O bom da história é que cada um faz o que quer com essa bagagem toda. E essa é a parte da vida da qual mais gosto, a que eu mais acho interessante: nossa postura diante da vida. Tem gente que se lamenta, tem gente que escreve e transforma histórias doloridas ou desagradáveis em piada. Tem gente que é coadjuvante e nunca vai lá, nunca tenta e está sempre com o pé atrás, quase pedindo desculpas por existir. Enquanto outras fazem questão de serem protagonistas, de tomarem pra si as rédeas da vida e falam "destino, quem faz você sou eu, entendeu?". Eu sou o somatório do que vivi e das escolhas que fiz.

O texto ficou longo e ainda nem falei sobre o motivo de escrever sobre este assunto. Ok, eu, que sou a falta de lógica em pessoa, não preciso de motivos. Mas este texto aqui tem um: o filme "Slumdog Millionaire" (Quem quer ser um milionário?). O mote do filme, baseado numa história real de um garoto favelado que participa de um programa de perguntas e respostas e pode ganhar uma fortuna, é "como um favelado, que trabalha servindo chá, pode ter saber tanto?" . Eu respondo (sem contar o filme, é claro!): é só não se esquecer do passado e acreditar que o futuro é feito de escolhas e com nossa própria ajuda.



A PERSISTÊNCI DA MEMÓRIA / SALVADOR DALI