sábado, 23 de agosto de 2014

Eu pensava que sendo magra seria mais fácil


Havia um tempo que eu pensava que ser magra bastaria.
Bastaria perder uns 10, 12 kg e então vários aspectos na minha vida mudariam: eu seria mais popular na escola, não ficaria tão triste quando tivesse de comprar roupas, não teria mais apelidos como "baleia", "bujão" e outros tão manjados e que sempre machucam.
Depois que eu emagrecesse, eu pensava, tudo seria muito mais divertido e menos incômodo: poderia usar roupas das minhas amigas e também emprestar as minhas, gostaria de me ver nas fotos, usaria cores claras nas roupas e não me esconderia tanto do mundo.
No fundo, tudo o que eu queria na vida era emagrecer 10kg. Claro que havia um motivo bem específico: com menos 10kg eu seria, enfim, uma menina bonita. Não seria mais aquela que "tem o rosto tão bonito, se fizesse uma dieta...". Quando eu fosse mais magra eu seria bonita como minhas primas e minhas amigas e então é claro que eu teria um namorado muito apaixonado por mim, como elas tinham. Olha, eu nem queria ser como algumas delas que tinham vários admiradores. Pra mim, um só estava muito bom. E então quando o namoro terminasse, eu nem ia ficar triste por muito tempo: eu ia era sair com as amigas e ser paquerada a noite toda, que nem elas.
Acho que devo contar brevemente minha história, se não vão acabar me achando meio fútil: fui uma adolescente gorda e nesta condição fui uma adolescente eternamente atormentada (por mim mesma e sobretudo pelos colegas, amigas e família). Fui bem gorda até os 15 anos, quando fiz uma dieta maluca (a 1ª de muitas) e emagreci bastante. Fiquei quase magra, fiquei quase bonita. Durante este tempo eu não vivia só pensando em como emagrecer, eu gostava também de estudar, sempre fui alucinada por leitura, estudei Inglês. Estou falando isso pra você não pensar que minha cabeça gorda era vazia de conteúdo. Olha, eu não queria simplesmente ser bonita e pronto. Eu queria ser magra para que as coisas fossem mais ou menos parecidas: meu interior e meu exterior. Ah, ninguém gosta de ser elogiada só por ser bonita e nem só por ser inteligente. Continuando minha história: emagreci com 15 anos e engordei várias vezes desde então. A média até que foi positiva para meu lado: hoje, bastante tempo depois, visto manequim 40. Bom, né?
Aí é que vem a parte irônica disso tudo: as coisas eram muito mais fáceis quando eu era gorda. Sim, eram mais fáceis e melhores. Não, eu não sou uma eterna insatisfeita,não! Explico: quando eu era gorda e me interessava por algum rapaz, já sabia de antemão que não ia rolar nada. Ele não ia ter o menor interesse por mim, e com toda razão: eu era gorda, lembra? Razão maior que essa não há. Bem, admito que nunca fui uma encalhada, até que beijei muitas boquinhas por aí. E aqui é que está o interessante : quando eu ficava a fim de um carinha, eu esperava que ele nem me olhasse, então, o que viesse era lucro. Ou seja, quando o cara se interessava também, eu encarava como uma exceção à regra. A regra era ser rejeitada.
Hoje, dentro do meu manequim 40 a regra continua valendo, acredite você ou não. Com "trinta e uns" anos não tenho uma única história de amor verdadeiro para contar não para meus netos, que nunca virão, mas para contar pra mim mesma. Ok, amores verdadeiros não andam por aí dando mole, aparecendo a toda hora.
Não quero ser uma devoradora de homens, isso nem combina comigo, mas eu gostaria de pelo menos despertar a atenção de um ou outro carinha, sabe? É gostoso estar num barzinho e receber uns olhares, alguém pedir meu telefone. Todo mundo gosta. Quando acontece de algum carinha me achar, sei lá, charmosinha e a gente sair, aí é que a coisa complica mesmo : ele perde o encanto. Como que por encanto mesmo: de repente o cara que era todo gentil simplesmente some do mapa.
Já fiz algumas "experiências": agi de forma diferente só para testar se aqueles velhos conselhos ainda valem: não beijar no 1º encontro, não me mostrar auto-suficiente logo de cara, não deixá-lo pensar que sou uma carente de carteirinha, ouvi-lo falar por horas sobre o carro novo que vai comprar... Depois do 3º ou 4º encontro é um tal de "ando tão ocupado" pra cá, "estou sem tempo" prá lá que às vezes eu até dou risada. Só às vezes, porque na maioria das vezes eu fico é muito triste e me pergunto o porquê, afinal, isso sempre acontece comigo. Será que sou muito chata? Será que meu papo cansa? Será ... será... será o quê?
No final das contas, era bem mais fácil quando eu era gorda. A culpa era minha e ponto final. Eu já sabia onde estava o erro: estava na minha (falta de) cintura, no pneuzão da barriga. E é muito mais fácil culpar o ponteiro da balança