sábado, 18 de setembro de 2010

SEM AMIZADE E NEM CHOPE

Ele me liga sempre na hora da novela e eu nem reclamo. Abaixo a TV, acendo um cigarro, bebo Coca Light e a gente conversa sobre tudo o que sabe que não vai fazer junto.
De vez em quando o assunto acaba e a gente finge que não percebe, aí fala de coisas que já falou, pergunto quanto foi o jogo e de repente lembro de alguma coisa engraçada que a gente fez naquele dia.
Ele reclama de tédio, me fala que não faz fisioterapia há não sei quantos meses e eu digo que tá errado. Depois falo que isso é problema dele e não vou mais me meter. Mas me meto perguntando se tem feito exercício pro pulmão. Ele diz que o papo tá chato e fala que lembrou de mim outro dia. Aí eu derreto.
De vez em quando esqueço que tem coisas que não se deve perguntar e quando vi, já perguntei. "Tem saído com alguém?" E fecho os olhos (que nem retardada, confesso) com medo de ouvir que sim, que eu não faço mais parte da vida dele. Mas ele sabe que eu morro de ciúmes de quem já não é mais meu e quebra meu galho: diz que não, que não tem saído com ninguém. Derreto de novo.
De vez em quando ele some. Semanas sem nem ao menos um telefonema e eu penso que deve ter conhecido uma vadia qualquer, uma idiota qualquer que não vai entender as manias chatas dele, que eu aprendi gostar.
Eu sei que deveria reclamar do sumiço, mas, quer saber?, nem reparei que já fazia tanto tempo desde a última vez que nos vimos. Aí penso que ele tá tão presente em mim, no que eu faço, que nem deu tempo de morrer de saudade. Logo eu, que vivo morrendo de saudades.
Mas a grande verdade é que nem os sumiços ou a demora em nos ver de novo, nada disso atrapalha a gente, que não tem nem um relacionamento e nem consegue ficar mais de 1 mês sem se falar. A gente não tem nada um com o outro. Nem um pau há entre nós dois. E olha que não sou daquelas que acreditam que dá pra viver numa boa sem um bom sexo.
Tem gente que acha que dá pra ter um "pinto amigo", que é aquele amigo que te liga de vez em quando, que vem na nossa casa todo cheirosinho, só pra dar uma trepadinha e vai embora me deixando com um sorriso feliz no rosto.
Ok, confesso que com esse "tem gente" aí de cima eu quis dizer: eu acho que dá pra ter um amigo e transar de vez em quando com ele sem esperar que ele me ligue no dia seguinte. Mas a verdade é que de um tempo pra cá ando romântica e descobri que dá pra viver um tempo sem pau. Sem homem, nunca. Mas sem pau dá pra viver. Pelo menos por um tempo. Eu acho.
Tenho preferido ele, que me liga e me faz esquecer o resto do mundo naquelas duas horinhas em que somos amigos e às vezes falamos que nem dois namoradinhos. Namorados que se cuidam bem mas ainda não foram pra cama. Volto a ter 16 anos. Eita tempo bom aquele: beijo na boca, de vez em quando uma mão mais ousada e só. Afinal, tá cedo pro resto. E o resto, no caso, é sexo. Tem hora que é cedo pro sexo.
Com ele eu tenho 15, 16 anos, sou virgem e só vou deixar de sê-lo quando tiver certeza de que apareceu o homem certo. E todo mundo sabe que o homem certo não aparece nunca. Então, aproveito pra curtir e falar com ele por telefone sem pressa de dar pra ninguém.
Ele me liga sempre na hora da novela mas eu não tô nem aí. Ele me faz morrer de rir, diz que minha voz é bonita por telefone e que um dia vai me chamar pra tomar um chopp num bar super transado, aqui pertinho de casa. E eu não vou a esse bar com nenhum outro cara do mundo, porque este bar tá reservado pra eu ir com ele. Um dia.
Se eu contar, ninguém acredita, mas curto muito tudo o que ele faz pra mim. É praticamente nada, mas é pra mim, e mulher gosta dessas coisas de exclusividade. Me derreto.
Não que eu fique na janela esperando o telefone tocar, tenho lá minhas recaídas por um ex que me visita de vez em quando. Mas com ele tudo é mais legal, porque eu sei que não vai doer. Não vou chorar por ele. Não vou ter um ataque de ciúmes se o vir com uma vadia qualquer num bar qualquer da Lapa. Não existiu pau entre nós dois, portanto, não vai havar o sentimento de posse e nem aquela vozinha no ouvido "desgraçado, me comeu e agora tá aí com essa biscate".
Mulher não segura a onda de ver outra ao lado do dono do pau que passou duas horas com ela, bricando na cama (ou no sofá, ou no chuveiro, ou sei lá onde mais), chamando de gostosa e dizendo "ai, que delícia" . Sente logo vontade de tomar satisfação, xingar e puxar os cabelos da vaca. E não adianta insistir: não conto se já fiz isso e nem quantas vezes desejei ter feito. Eu não desço do salto e não conto minhas derrotas.
Não adianta que não vou falar nada dessas intimidades cheias de fluídos e sons. Comecei falando dele, que diz que não é meu amigo mas me liga e diz que me adora, mas não me chama nem prum chope sábado à noite. Um chato, como pode se ver.