sábado, 29 de janeiro de 2011

QUANDO SE VIVE UM GRANDE AMOR





Uma amiga minha se formou em Letras recentemente e ela é daquelas que a gente sabe que vai ser uma excelente Professora. Fiquei tão feliz por ela, por esta conquista, este grande passo e principalmente pelo sentimento de realização que ela deve estar vivendo. Aí resolvi escrever sobre esse curso que causa tanto espanto e admiração:

Eu sempre gostei de escrever (e se você lê meu blog já sabe disso), então, a 1a faculdade que pensei em fazer foi Comunicação. Fiz 3 períodos e me sentia perdida: aquilo não era pra mim. Faltava algo, sei lá o quê. Na verdade, sei sim: em 1o lugar faltava quem ensinasse não só a mim, mas aos outros alunos a escrever direito. Era um tal de "pra mim fazer", "se eu ver você, eu chamo". E cada texto tão sofrível que dava vontade de denunciar ao MEC. Não a faculdade, que aceita qualquer um, mas o próprio aluno, que chegou ao 3o Grau e não sabe nem falar (muito menos escrever) Português. Pedi pra sair.
Por puro acaso, fui trabalhar com Comércio Exterior e comecei faculdade de Relações Internacionais. Bola fora de novo!
Um dia, acordei muito certa do que faltava na minha vida: meter a cara no mundo da Literatura. E fui fazer Letras.
Tantas pessoas torceram o nariz pra minha escolha. Uma pessoa chegou até a fazer o seguinte comentário "Você é tão inteligente pra estudar Letras". Eu juro que até esse tipo de comentário ouvi. Sem contar os "Vai morrer de fome". Mas não ligava, afinal, não pedi conselho pra ninguém, eu apenas segui meu coração. Ok, não é a maneira mais certa de se escolher uma profissão, mas... quem disse que aquela seria minha profissão? Emprego eu já tinha, salário bom eu já tinha. Eu queria era poder responder a pergunta: VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?
Sem sombra de dúvidas, fui a melhor aluna da turma, não por ser inteligente, e sim por amar aquilo. Eu sabia que não seria Professora (não levo jeito) e aquele curso não era pra me profissionalizar e sim pra me realizar.
Exceto as matérias que me preparariam para ir para a sala de aula (Pedagogia, Estatística, Estágio etc), todas as outras eu estudava com o coração, com a alma. Várias vezes saí de sala chorando depois de analisar uma poesia que me tocava. Outras vezes algum Professor me falava "Aline, cuidado com tal autor: ele mexe muito com pessoas como você". E eu entendia o que ele queria dizer com "pessoas como você": pessoas que sabem que a Literatura (a arte, de uma forma em geral) deixa cicatrizes.
Quem sai impune de uma leitura de, por exemplo, Florbela Spanca. Li "A imitação da Rosa", da Clarice Lispector, e tatuei uma rosa vermelha na nuca: foi meu jeito de me lembrar para sempre da espécie de transe que fiquei por 2 ou 3 dias.
Gente, em qual outra faculdade eu viveria essas emoções? Essas catarses? Uma vez perguntei pra minha terapeuta se isso não era "coisa de maluco". Ela perguntou se me incomodava sentir tudo isso e eu disse que era uma sensação estranha e boa, na mesma medida. Até hoje não descobri se é coisa de maluco ou não, mas que me faz um bem danado, isso faz.
Sou a pessoa mais feliz do mundo quando digo "Sou formada em Letras", pois é como se eu dissesse: vivi um grande amor.
Viva seu grande amor. Seja no Estadão, se você for jornalista; seja na W Brasil, se você for publicitário, seja na Comlurb se você for gari; seja onde for, seja lá quem você é. Só não deixe de viver um amor por medo do que vem depois.