domingo, 10 de outubro de 2010

A menina sem-vergonha



Era uma vez uma menina que gostava das letras e das palavras. Ela tinha bonecas, bichos de pelúcia e muitos outros brinquedos. Mas gostava mesmo era dos livros da estante.
Essa menina aprendeu a ler muito cedo e dizem que até hoje se sai muito melhor com as palavras escritas do que com as faladas. Deve ser porque ela escrevia muito, desde sempre. Mas não gostava tanto assim de falar.
Quando ela foi para a escola, já tinha lido todos os livros infantis e achava os colegas de classe meio burrinhos, afinal, nem sabiam escrever o nome direito. Enquanto eles aprendiam a ler um texto até o final, ela já escrevia suas próprias estórias. E coloria suas histórias, porque de vez em quando ela já achava a vida meio chata.
Uma coisa que eu não falei é que a menina sempre foi meio tímida e tinha muita vergonha de mostrar o que escrevia para outras pessoas. Às vezes ela mostrava para sua mãe, que dizia que eram as estórias mais belas do mundo. E o pai da menina achava tão bonito ver a menina lendo e escrevendo sem parar, que ele nunca mais parou de comprar livros e revistas em quadrinhos.
Um dia, a menina teve uma professora que adorava ler suas redações. Então, ela perdeu um pouco (mas só um pouco) da vergonha e escrevia bastante nas aulas dessa professora.
A menina cresceu e continuava achando lindas as palavras escritas. E por isso ela um dia criou um blog, que substituiu as folhas de papel. A menina, que já não é mais tão menina assim, continuou escrevendo e não mostrando pra ninguém. Mas um dia ela se descuidou e quando percebeu, várias pessoas viraram leitoras do blog, que era pra ser secreto.
De um dia para o outro, a menina passou a receber comentários nos textos. Na maioria das vezes eram elogios, mas ela ficava com tanta vergonha... Depois da vergonha veio a sensação de responsabilidade de agradar. Aí escrever ficou meio chato.
O que fazer, então, se a menina precisa escrever para não enlouquecer? A saída foi escrever fingindo que ninguém ia ler. Deu certo.
Escrever pra ninguém ler não é perda de tempo. Ou é? Depende do objetivo de quem escreve. Eu não escrevo pra ganhar prêmios. Pra mim, escrever é como respirar, é como tomar um remédio que faz bem pra alma.
Demorei a perder a vergonha de dividir meus textos com outras pessoas. Mas no dia que percebi que essas “outras pessoas” não eram só leitores e sim amigos, pois entraram na minha vida de um jeito especial, tudo ficou mais fácil. Exceto escrever. Porque escrever é dolorido, é solitário e muito revelador.
Ah! A menina sou eu, tá?
E a menina aqui tem aprendido muito ao dividir suas histórias, estórias e ideias. Não consigo imaginar viver mais sem isso.
Por isso, hoje, depois de 30 mil visitas em pouco mais de 1 ano, senti uma vontade imensa de mandar um beijo bem carinhoso pra você, que me ajudou a ser meio sem-vergonha e não ter vergonha disso.
Então, aos 80 e poucos seguidores, e também aqueles que passam por aqui em silêncio, mando um abraço bem apertado e cheio de carinho. Sem vergonha nenhuma.