Amanhã será meu terceiro Dia dos
Pais sem meu pai. Não que fizéssemos questão de comemorar essas datas – Natal,
aniversário ou mesmo o segundo domingo de agosto juntos... Nossa união era maior
do que datas. Éramos amáveis um com o outro o ano inteiro. Mesmo assim, sem termos o hábito de ritualizar esta data, não será
um dia fácil para mim.
Estes dois anos e cinco meses sem meu pai têm sido difíceis e, ao que
tudo indica, haverá ainda muito tempo pela frente para eu me recuperar desta
perda.
Perder meu pai foi, sem dúvida, a coisa mais difícil que já me
aconteceu. Chega me dar saudade dos antigos problemas que enfrentei:
separações, perda de emprego... Todas as outras situações que, na época,
pareciam incrivelmente difíceis perderam o peso. Viver sem meu pai é tão maior
do que tudo.
Sempre fui a “filhinha do papai”, mesmo adulta eu tinha meu paizinho
ali, com seu abraço, seu colo, seu zelo. Aquele 10 de março de 2015 me tirou
tudo isso e me transformou em adulta. Eu não estava pronta para deixar o colo
do meu pai e me deparar com a vida de “gente grande”.
Ainda tenho dificuldade em viver num mundo onde meu pai não existe. Eu, que sou feita de Cléber e ossos, de Cléber e células, de Cléber e sentimentos, eu que era inteira por tê-lo por perto, acho muito estranho não o ter comigo.
Ainda tenho dificuldade em viver num mundo onde meu pai não existe. Eu, que sou feita de Cléber e ossos, de Cléber e células, de Cléber e sentimentos, eu que era inteira por tê-lo por perto, acho muito estranho não o ter comigo.
Eu e meu pai sempre fomos inseparáveis, unidos mesmo. Falávamos a mesma
língua, gostávamos das mesmas coisas. Havia entre nós dois um algo a mais, uma
espécie de adoração mútua: ele era meu ídolo e meu fã. Meu pai e meu filho.
Dizem que ele tinha alguns defeitos. Mas eu não os enxergava. Só via
nele coisas boas, gostava de tudo nele. E “ai” de quem falasse algo negativo
sobre ele. Eu me descontrolava mesmo. Uma vez, eu tinha uns 10 anos, briguei
(briga física mesmo) com meu primo Alberto na frente da Igreja da Matriz.
Motivo? Alberto falou que meu pai era careca! Achei o fim e parti pra cima
dele. Onde já se viu falar que meu pai era careca...
Vou falar uma coisa bem íntima, que já me passou pela cabeça algumas
vezes desde que ele se foi: eu gostaria que ele não tivesse sido tão bom
comigo. Sei lá, desejei por vezes que ele fosse menos carinhoso, um pouco mais ausente. Quem
sabe assim eu não sentiria menos sua falta? Mas não, ele foi um pai excepcional.
Eram tão bonitinhas as coisas que ele fazia por mim, tipo, comprar livros e
mais livros porque eu gostava de ler e se orgulhar por me ver lendo. Ou me
ensinar a andar de moto porque achava lindo mulher pilotando. Quando eu usava um vestido comprido, ele dizia que estava linda e falava isso de um jeito tão cheio de orgulho que era fofo demais.
Ah! Teve também o dia que um namorado pediu minha mão em casamento e ele se levantou da mesa e se trancou no quarto. Não deu resposta. Todos acharam aquilo uma grosseria, eu achei lindo.
Ah! Teve também o dia que um namorado pediu minha mão em casamento e ele se levantou da mesa e se trancou no quarto. Não deu resposta. Todos acharam aquilo uma grosseria, eu achei lindo.
Ele arrumava minha cama, fazia meu Nescau de manhã e nunca deixava
faltar nem Coca Zero e nem leite desnatado. Eu também cuidava dele. Muito.
Fosse mandando cartõezinhos do tipo “eu te amo”, fosse procurando por um
tratamento para seu problema de vista. A gente se curtia e se cuidava.
A vida do meu pai andava muito difícil nos últimos anos: perdeu a mãe, dois
irmãos (como ele era apaixonado pelos irmãos. Todos os quatro!), perdia a visão
aos poucos... Ele tinha tanto medo de ficar cego! Sorria cada vez menos. Mas
nós (eu, minha mãe, minha irmã, meu cunhado, minhas sobrinhas e a tia Hélcia –
sua irmã caçulinha) nunca deixamos de dar nosso amor a ele.
Aliás, era tão fácil amar aquele cara: bastava conhecê-lo um pouco, passar 15 minutos em sua companhia e qualquer um sacava sua alma de criança, seu coração puro.
Aliás, era tão fácil amar aquele cara: bastava conhecê-lo um pouco, passar 15 minutos em sua companhia e qualquer um sacava sua alma de criança, seu coração puro.
O último Dia dos Pais que passamos juntos foi bem triste: foi o
sepultamento de seu irmão mais novo. E ele parecia ter morrido um pouco naquele
dia. Almoçamos em um silêncio eloquente e ele entendeu tudo o que eu não disse
sobre meu amor por ele.
Eu não tive apenas
um pai, tive um amigo, um filhinho, o maior fã. Ele sempre será o amor da minha
vida. Não importa em qual dimensão esteja.
Amanhã eu ligaria para ele, falaria o quanto sou feliz por ter um pai tão especial. Igual fazia três, quatro vezes por semana, o ano todo. E ao desligar o telefone, sentiria um amor tão forte que me faria olhar para os céus e agradecer por conhecer aquele sentimento bonito, forte, incondicional.
Amanhã eu ligaria para ele, falaria o quanto sou feliz por ter um pai tão especial. Igual fazia três, quatro vezes por semana, o ano todo. E ao desligar o telefone, sentiria um amor tão forte que me faria olhar para os céus e agradecer por conhecer aquele sentimento bonito, forte, incondicional.
Este mesmo amor continua existindo aqui dentro de mim. Já cheguei a
perguntar a meu Mestre se é normal continuar amando alguém que não está mais
aqui. Ouvi que sim, que amor não depende de o outro estar presente, da
expectativa de estar próximo ao ser amado. Amor existe e pronto. E quando é
amor de verdade, ele pode até dar uma dor no peito, mas sobretudo, ele nos dá
paz.
E quando penso no meu pai, eu sinto isso:
uma paz imensa... Minhas lembranças dele são cheias de paz, de serenidade.
Talvez pela certeza de que cumprimos nossa missão aqui na Terra de sermos pai e
filha “de verdade”. E também porque eu sei que sua ausência é somente física. E
que sua alma, sua essência, está em algum outro lugar evoluindo
espiritualmente. E acredito também que, de vez em quando, ele se faça presente
e olhe por mim.
Amanhã é certo que eu fique meio
encolhidinha no meu canto. Quase aposto que algumas lágrimas vão descer. Mas vou
certamente lembrar que fui uma das poucas felizardas que soube celebrar a sorte
que é ter um pai de verdade. E vou agradecer a D´us por ter me dado meu Cléber,
meu Tataio, como pai aqui na Terra.
E, como eu disse outro dia: o cidadão
Cléber de Oliveira Mello morreu, tem até atestado de óbito. Mas o meu pai, ah,
o meu pai estará sempre vivo em mim. A cada vez que eu me olhar no espelho, ele estará lá nos meus olhos pequenos, no sorriso com os dentes grandes, no formato do rosto. Ele estará sem vivo enquanto eu viver. Vivo em meu coração e no meu rosto que, orgulhosamente, tenho parecido com o dele.
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Meu Tataio amado, lindo, especial, Meu, |