Hoje faz dois anos que a vida te levou. Dois anos que nossa família passou pela maior dor que jamais podíamos imaginar. Dois anos de muitas lágrimas. Dois anos sem você.
Até então, eu era sua filhinha, mas um telefonema me transformou em adulta e todos os desgostos e responsabilidades peculiares caíram em meu colo. E, além de tudo, eu tive de aprender a viver sem você. Logo eu, que sempre achei isso impossível: como viver num mundo onde você não existe, pai?
Às vezes, acho que isso não é verdade e vou encontrar você ali, deitado na cama, ouvindo seu radinho. Ou você vai chegar aqui em casa dizendo que comprou minha Coca Zero. Mas nada disso vai acontecer. Não vamos mais nos abraçar, assistir o Mengão jogar ou ouvir nossas músicas juntos. Agora eu sou adulta e não tenho mais meu paizinho. Como na canção do Roberto, "sem você minha alegria é triste". Por isso essas lágrimas no rosto de vez em quando. Não fique triste quando isso acontecer. Deve ser o amor transbordando.
A gente era uma boa dupla, né? Você me dava sentido à vida e eu te fazia sorrir. Mesmo em meio às suas tristezas, eu te fazia sorrir. E saber disso me fazia grande, importante. Eu era especial para você.
E você era meu pai, meu amigo, meu filhinho, meu ídolo. Você sempre será o amor da minha vida. Não importa em qual dimensão esteja.
Pai, embora dizer adeus para você tenha sido a coisa mais triste do mundo, eu sabia que fui a melhor filha do mundo, a filha sob medida pra você. Diante de seu corpo eu cantei nossa música, prometi que ia cuidar de seus amados aqui na Terra e jurei que ia continuar sendo aquela mulher forte que você sempre admirou. Sobretudo, diante de seu corpo, eu tive a certeza de que nunca deixei para depois o carinho, o beijo, o abraço. Nunca deixei de dizer e demonstrar o quanto te amo. Eu me despedi de você com o coração limpo.
Nestes dois anos sem você aqui, eu tive de ser muito forte, mas muito forte mesmo. Você deve acompanhar daí de cima as minhas lutas e deve se orgulhar. Porque, por mais que a dor seja lancinante, estou lutando. Então, mais uma vez, eu peço: não fique triste quando eu chorar.
Continue sua caminhada nesta sua nova condição. Continue sua evolução espiritual. Mas, sempre que der, olha pra mim aqui. E promete que vamos nos reencontrar na próxima vida, porque que nosso amor é grande demais para uma única existência.
PS: Dentre tantas canções que me lembram de você, essa é uma. Você não conhecia, sequer escutamos juntos. Mas ela fala muito sobre mim sem você.
" Eu tento me erguer às próprias custas
E caio sempre em seus braços
Um pobre diabo é o que sou
Um girassol sem sol
Um navio sem direção
Apenas a lembrança do seu sermão
Você é meu sol, um metro e sessenta e cinco de sol
E quase o ano inteiro os dias foram noites
Noites para mim
Meu sorriso se foi
Minha canção também
E eu jurei por Deus não morrer por amor
E continuar a viver
Como eu sou um girassol, você é meu sol (...)
Morro de amor e vivo por aí
Nenhum santo tem pena de mim
Sou agora um frágil cristal
Um pobre diabo que não sabe esquecer
Como eu sou um girassol, você é meu sol "
"Decido eu mesma engendrar lendas e episódios que me são atribuídos. Sempre tendo como desculpa a condição de escritora, a quem é dado o privilégio de inventar sem sofrer sanções morais". - Nélida Pinon
sexta-feira, 10 de março de 2017
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Não sou feliz gorda
Comecei a engordar com 10/ 11 anos e até os 15 anos não parei mais: cheguei aos 76 kg.
Passei a adolescência sendo a “gordinha legal”, engraçada, simpática... Nunca fui chamada de bonita. Todo minha família me repreendia por ser gorda. Eram palavras ou “simples” olhares, que magoavam tanto ou mais que as palavras.
Passei a adolescência sendo a “gordinha legal”, engraçada, simpática... Nunca fui chamada de bonita. Todo minha família me repreendia por ser gorda. Eram palavras ou “simples” olhares, que magoavam tanto ou mais que as palavras.
Não tenho fotos desta época: fugia das câmeras e, no fundo, acho que ninguém percebia minha ausência nas fotos.
Bem, este pensamento é fruto da minha auto-estima baixíssima, provocada por eu ser gorda. E quanto mais gorda, menos auto-estima; quanto menos auto-estima, mais gorda. Bola de neve total
Bem, este pensamento é fruto da minha auto-estima baixíssima, provocada por eu ser gorda. E quanto mais gorda, menos auto-estima; quanto menos auto-estima, mais gorda. Bola de neve total
Apesar de ter um rosto bonito, tinha uma espécie de “capa” me cobrindo. A gordura me recobria e me deformava. Para disfarçar minha impotência (impotência: é esse meu sentimento por ser gorda), tentava me convencer de que era bonita mesmo sendo gorda.
Durante o tempo que tentei me convencer de que podia ser feliz do jeito que era, travei uma espécie de luta contra todos o mundo: tornei-me agressiva e arredia. Se alguém tocasse no assunto dieta, eu dava logo um fora e fingia que não tinha vontade de emagrecer.
Na família do meu pai havia muitos gordinhos e gordões. Mas a família de minha mãe (minhas tias e primos)eram todos magros. Para mim, afrontadoramente magros.
Definitivamente não é fácil ser gorda quando se tem tantos primos “normais”. Se uma ou outra brincadeira acabasse em discussão, era aquele monte de desaforo: “Olívia Palito” para a magricela; “Ferrugem” para a sardenta e para mim o mais cruel de todos os xingamentos (aquele que até hoje ainda arde em meus ouvidos): “GORDA!”, "BALEIA"...
Na família do meu pai havia muitos gordinhos e gordões. Mas a família de minha mãe (minhas tias e primos)eram todos magros. Para mim, afrontadoramente magros.
Definitivamente não é fácil ser gorda quando se tem tantos primos “normais”. Se uma ou outra brincadeira acabasse em discussão, era aquele monte de desaforo: “Olívia Palito” para a magricela; “Ferrugem” para a sardenta e para mim o mais cruel de todos os xingamentos (aquele que até hoje ainda arde em meus ouvidos): “GORDA!”, "BALEIA"...
Durante muito tempo não sabia o motivo para ter começado a engordar. Achava mesmo que foram os maus hábitos aliados a uma herança genética e talvez alguma ansiedade típica da adolescência. Hoje, depois de fazer terapia, sei o que me levou a engordar. É muito pessoal, logo, não vou dividir.
Mas tenho lembranças dos “sutis” conselhos para comer menos. Uma vez ou outra percebia que alguns parentes se preocupavam/ assustavam com meu peso, mas nunca ninguém tocou direto no assunto do jeito, ao meu ver, correto: sem punição, mas sim para me ajudar.
Sem querer achar culpados, acho que alguém deveria ter me perguntado “Você está feliz? Posso lhe ajudar?”. A repreensão só aumentava a raiva: de mim, por ser gorda; pelos outros, por não me ajudarem.
Minha auto-estima foi toda construída (ou destruída) com base no meu peso.
Mas tenho lembranças dos “sutis” conselhos para comer menos. Uma vez ou outra percebia que alguns parentes se preocupavam/ assustavam com meu peso, mas nunca ninguém tocou direto no assunto do jeito, ao meu ver, correto: sem punição, mas sim para me ajudar.
Sem querer achar culpados, acho que alguém deveria ter me perguntado “Você está feliz? Posso lhe ajudar?”. A repreensão só aumentava a raiva: de mim, por ser gorda; pelos outros, por não me ajudarem.
Minha auto-estima foi toda construída (ou destruída) com base no meu peso.
Aos 15 anos,a mãe de uma grande amiga me levou a um médico que estava “conseguindo emagrecer” um monte de gente na minha cidade. Fui à consulta feliz da vida. Saí de lá confiante. Todos me perguntavam quanto pesava e, pela 1a vez na vida, falei para alguém o meu peso: 74 kg. Mas falei porque sabia que perderia muitos deles.
E perdi mesmo! Em menos de 1 mês já pesava 64 kg. Eu, pela 1a vez na minha vida, era “magra”. Era a primeira vez que usava um biquíni, tomava sol sem vergonha e... podia pegar roupas emprestadas de amigas. Não dá para descrever nada do que senti naqueles dias de descoberta.
Podia, enfim, vestir um short da minha irmã... ai, que delícia!!! Eu era normal, gente, eu era normal! Não precisava usar camisa preta; não precisava usar saia com elástico; não tinha vergonha de comprar roupa: tudo me servia. E ficava lindo.
Passei alguns meses nessa felicidade: mais do que simpática ou inteligente, eu agora era muito GOSTOSA! Pela 1a vez eu era igual às minhas primas. Deus do céu, eu era magra, tinha rapazes me olhando, tinha prazer em sair para comprar roupas... eu era magra!
Mas foi tudo passageiro: emagreci a base de remédios fortíssimos e (todo mundo conhece esse filme) quando parei de tomar aqueles “remedinhos” é claro que voltei a comer tudo de gostoso.
Mas foi tudo passageiro: emagreci a base de remédios fortíssimos e (todo mundo conhece esse filme) quando parei de tomar aqueles “remedinhos” é claro que voltei a comer tudo de gostoso.
Mas agora era pior: eu já sabia onde era o céu e não tinha mais a chave daquele paraíso, não podia entrar naquela terra da felicidade onde só os magros moram.
Em 91, mudei de cidade. Em março procurei outro médico “daqueles” e que receitou outra “bomba”. Emagreci e fiquei pesando 68 kg. Era mais do que já havia pesado na primeira dieta, mas “dava pro gasto”. Passei o ano oscilando entre 67 a 69 kg mas nas férias... relaxei geral: 72/ 74 kg. Passei o ano seguinte infeliz e deprimida, sem conseguir levar dieta alguma em frente. Tinha duas amigas na escola que eram lindas, magras, gostosas,namoradeiras... Eu? Eu era a “amigona” (em todos os sentidos: grande amiga e amiga grande. Enorme. Imensa).
Passava um ar de séria, desapegada das coisas “fúteis” como ginástica, praia, roupas da moda... Namorados? De jeito nenhum, “às vésperas de prestar Vestibular não dá pra namorar”. Nem gostava de passear. Fotos? continuava a fugir. Não queria registrar aquele horror que eu era.
Uma ou outra fotografia que tenho naquela época, fui quase que obrigada a tirar. E quando via as fotos, passava a semana deprimida: só o que conseguia ver na frente era aquela imagem horrorosa, deformada pela gordura. Quando falo "depressão" não é aquela tristeza comum a todos, era depressão de verdade, que me paralisava e fazia sofrer.
Se algum amigo me falava que eu precisava emagrecer, ficava com raiva - porque sabia que era verdade. Se diziam que estava “bem”, sentia raiva porque sabia que era mentira.
Passei mais de dois anos assim: insatisfeita, tentava emagrecer, como não conseguia, sentia nojo de mim. (E essa era a palavra perfeita para descrever o meu sentimento em relação a mim mesma: nojo. É muito triste sentir isso).
Voltei a um dos médicos (na verdade, conheci a maioria dos médicos estilo "Dr. Caveirinha" - famosos ou não - do Rio). Queria emagrecer a todo custo. Na minha cabeça ainda assombrava a velha história de que tudo o que não conseguia, não tinha ou não podia era por causa da gordura. Principalmente os rapazes que não olhavam para mim. E eu dava razão a eles. Eu era imensa! Minha auto-estima diminuía na inversa proporção que engordava e isso me impedia de ser, um pouquinho que fosse, atraente.
Aos 23 anos, após diversas consultas com endocrinologistas (que constatavam não haver problema hormonal algum), me considerava um caso perdido. Tinha medo de perder minha juventude por causa desse imenso sofrimento.
Quem nunca teve problema com peso nem sequer imagina o que estou falando, pode até achar que meu sofrimento era futilidade ou exagero. Não dá para saber o constrangimento que sempre passei por ser gorda. É como se eu tivesse constantemente infringindo uma lei, cometendo um erro grave.
Quando mudei de emprego, resolvi começar (de uma vez por todas) uma nova etapa da minha vida. E a mudança iniciaria por trocar o manequim. Voltei ao médico. Mais “bolas” para conter a gulodice e a ansiedade. Mas eu jurei que era para valer daquela vez. O clima de mudança me animava: ao deixar meu primeiro emprego (de quatro anos) me sentia confiante; cortei o cabelo; aos poucos esquecia um amor não correspondido – que me dava a eterna ideia de ser inadequada. Eu tinha uma enorme certeza de que não merecia ser amada por causa do meu peso. Amada por um homem, por amigos e também pela família.
Dessa vez, focada nas mudanças, foi fácil perder 8 kg. Fiquei fascinada: era de novo GOSTOSA. Palmas para mim. O astral não podia ser melhor. Ainda faltavam muitas conquistas na vida, mas só por saber o meu poder de transformação, minha coragem já crescia.
Arrumei namorado; terminei namoro; arrumei outro ... Além de estar ótima comigo, fazia sucesso com os outros. Decidi não ir mais ao médico, pois além de ser muito cara a consulta, me achava forte o suficiente para continuar minha jornada sozinha. Eu ainda não entedia como funciona a doença chamada obesidade. Sequer desconfiava que era doente.
Procurei os Vigilantes do peso e emagreci quase 4 kg em 1 mês. UAU: pesava 62 kg! Descobri novamente que tinha um rosto bonito demais para ficar recheado de gordura. “Vai ser fácil manter-me assim”, dizia para mim mesma. Mas aí vem a fase mais difícil: todos estavam acostumados a me ver “gordinha” e quando a viam “magrinha”, diziam que se eu emagrecesse mais ficaria com cara de doente.
Começaram, então, os deslizes: um sorvete aqui (afinal, “eu estava bem”), uma pizza ali, uma lasagna “só hoje”. Claro que os 62 kg não duraram nem um mês. E eu no Vigilantes? Saí correndo, morrendo de vergonha de não conseguir manter o peso nem por duas semanas.
Estacionei por uns tempos nos 67 kg. Comecei a namorar um cara maravilhoso e que gostava de mim do jeito que era. Mas EU nunca estava bem comigo. Como pode? Realizei o sonho de toda mulher: encontrar um cara doce, amoroso, paciente e que não sabe a diferença entre estar com 70 ou 60 kg...
Um dos desastrosos efeitos da baixa auto-estima é depender da aprovação do outro para nos sentir bem e o desconforto de ser gorda por tantos anos fez eu ter uma ideia muito errada de mim mesma. Foi quando descobri que tenho uma doença muito séria chamada obesidade, uma doença cada vez mais presente na vida da população. Essa doença é muito mais séria do que pode parecer: ela deforma, machuca, enlouquece. Exclui.
Em 2001 concretizei um velho sonho: fiz plástica no abdômen e lipoaspiração (me livrei de 2,5 lt. de gordura). Virei outra pessoa. Emagreci 7 kg e passei a vestir roupas que sempre morri de vontade. Meu manequim diminuiu do 42 (apertado) para 40 (LARGO!). Foi uma transformação gigante.
Mesmo assim, voltei a brigar comigo mesma para não engordar, porque tenho a impressão de que se ganhar 500 gr. estarei assinando o atestado de incompetente.
Eu me cobro muito, eu sei, mas é assim que vivo. Já fiz terapia e tentei me convencer de que eu não sou só um corpo, sou muito mais. E percebi que nas épocas que estive magra, os problemas continuavam. Estar magra não era certeza de felicidade. Mas é difícil: são anos e anos de sofrimento. Repito:para quem não sabe o que é ser gorda pode parecer loucura isso, mas só quem sofreu ou sofre de obesidade entende.
Há uns 5 anos passei por momentos bem difíceis na vida profissional e pessoal e cheguei aos 77kg. Por mais esforço (dieta e exercício) não conseguia perder 100gr. De tanto tentar e falhar, tentei me convencer de que posso ser bonita gordinha. Mas recentemente na terapia descobri o seguinte: estar magra não me garante estar feliz, mas estar gorda, definitivamente, me deixa infeliz. Infeliz e medrosa, a ponto de sequer conseguir dar em cima de ninguém. Acho que nunca serei correspondida enquanto estiver gorda.
É por isso que continuo lutando contra a balança. E esse é um desafio muito particular, muito íntimo, por ser muito intenso e nem sempre as pessoas à minha volta entendem. Mas estou na luta ainda: pela perda de peso e pelo aumento de minha auto-estima.
Em 91, mudei de cidade. Em março procurei outro médico “daqueles” e que receitou outra “bomba”. Emagreci e fiquei pesando 68 kg. Era mais do que já havia pesado na primeira dieta, mas “dava pro gasto”. Passei o ano oscilando entre 67 a 69 kg mas nas férias... relaxei geral: 72/ 74 kg. Passei o ano seguinte infeliz e deprimida, sem conseguir levar dieta alguma em frente. Tinha duas amigas na escola que eram lindas, magras, gostosas,namoradeiras... Eu? Eu era a “amigona” (em todos os sentidos: grande amiga e amiga grande. Enorme. Imensa).
Passava um ar de séria, desapegada das coisas “fúteis” como ginástica, praia, roupas da moda... Namorados? De jeito nenhum, “às vésperas de prestar Vestibular não dá pra namorar”. Nem gostava de passear. Fotos? continuava a fugir. Não queria registrar aquele horror que eu era.
Uma ou outra fotografia que tenho naquela época, fui quase que obrigada a tirar. E quando via as fotos, passava a semana deprimida: só o que conseguia ver na frente era aquela imagem horrorosa, deformada pela gordura. Quando falo "depressão" não é aquela tristeza comum a todos, era depressão de verdade, que me paralisava e fazia sofrer.
Se algum amigo me falava que eu precisava emagrecer, ficava com raiva - porque sabia que era verdade. Se diziam que estava “bem”, sentia raiva porque sabia que era mentira.
Passei mais de dois anos assim: insatisfeita, tentava emagrecer, como não conseguia, sentia nojo de mim. (E essa era a palavra perfeita para descrever o meu sentimento em relação a mim mesma: nojo. É muito triste sentir isso).
Voltei a um dos médicos (na verdade, conheci a maioria dos médicos estilo "Dr. Caveirinha" - famosos ou não - do Rio). Queria emagrecer a todo custo. Na minha cabeça ainda assombrava a velha história de que tudo o que não conseguia, não tinha ou não podia era por causa da gordura. Principalmente os rapazes que não olhavam para mim. E eu dava razão a eles. Eu era imensa! Minha auto-estima diminuía na inversa proporção que engordava e isso me impedia de ser, um pouquinho que fosse, atraente.
Aos 23 anos, após diversas consultas com endocrinologistas (que constatavam não haver problema hormonal algum), me considerava um caso perdido. Tinha medo de perder minha juventude por causa desse imenso sofrimento.
Quem nunca teve problema com peso nem sequer imagina o que estou falando, pode até achar que meu sofrimento era futilidade ou exagero. Não dá para saber o constrangimento que sempre passei por ser gorda. É como se eu tivesse constantemente infringindo uma lei, cometendo um erro grave.
Quando mudei de emprego, resolvi começar (de uma vez por todas) uma nova etapa da minha vida. E a mudança iniciaria por trocar o manequim. Voltei ao médico. Mais “bolas” para conter a gulodice e a ansiedade. Mas eu jurei que era para valer daquela vez. O clima de mudança me animava: ao deixar meu primeiro emprego (de quatro anos) me sentia confiante; cortei o cabelo; aos poucos esquecia um amor não correspondido – que me dava a eterna ideia de ser inadequada. Eu tinha uma enorme certeza de que não merecia ser amada por causa do meu peso. Amada por um homem, por amigos e também pela família.
Dessa vez, focada nas mudanças, foi fácil perder 8 kg. Fiquei fascinada: era de novo GOSTOSA. Palmas para mim. O astral não podia ser melhor. Ainda faltavam muitas conquistas na vida, mas só por saber o meu poder de transformação, minha coragem já crescia.
Arrumei namorado; terminei namoro; arrumei outro ... Além de estar ótima comigo, fazia sucesso com os outros. Decidi não ir mais ao médico, pois além de ser muito cara a consulta, me achava forte o suficiente para continuar minha jornada sozinha. Eu ainda não entedia como funciona a doença chamada obesidade. Sequer desconfiava que era doente.
Procurei os Vigilantes do peso e emagreci quase 4 kg em 1 mês. UAU: pesava 62 kg! Descobri novamente que tinha um rosto bonito demais para ficar recheado de gordura. “Vai ser fácil manter-me assim”, dizia para mim mesma. Mas aí vem a fase mais difícil: todos estavam acostumados a me ver “gordinha” e quando a viam “magrinha”, diziam que se eu emagrecesse mais ficaria com cara de doente.
Começaram, então, os deslizes: um sorvete aqui (afinal, “eu estava bem”), uma pizza ali, uma lasagna “só hoje”. Claro que os 62 kg não duraram nem um mês. E eu no Vigilantes? Saí correndo, morrendo de vergonha de não conseguir manter o peso nem por duas semanas.
Estacionei por uns tempos nos 67 kg. Comecei a namorar um cara maravilhoso e que gostava de mim do jeito que era. Mas EU nunca estava bem comigo. Como pode? Realizei o sonho de toda mulher: encontrar um cara doce, amoroso, paciente e que não sabe a diferença entre estar com 70 ou 60 kg...
Um dos desastrosos efeitos da baixa auto-estima é depender da aprovação do outro para nos sentir bem e o desconforto de ser gorda por tantos anos fez eu ter uma ideia muito errada de mim mesma. Foi quando descobri que tenho uma doença muito séria chamada obesidade, uma doença cada vez mais presente na vida da população. Essa doença é muito mais séria do que pode parecer: ela deforma, machuca, enlouquece. Exclui.
Em 2001 concretizei um velho sonho: fiz plástica no abdômen e lipoaspiração (me livrei de 2,5 lt. de gordura). Virei outra pessoa. Emagreci 7 kg e passei a vestir roupas que sempre morri de vontade. Meu manequim diminuiu do 42 (apertado) para 40 (LARGO!). Foi uma transformação gigante.
Mesmo assim, voltei a brigar comigo mesma para não engordar, porque tenho a impressão de que se ganhar 500 gr. estarei assinando o atestado de incompetente.
Eu me cobro muito, eu sei, mas é assim que vivo. Já fiz terapia e tentei me convencer de que eu não sou só um corpo, sou muito mais. E percebi que nas épocas que estive magra, os problemas continuavam. Estar magra não era certeza de felicidade. Mas é difícil: são anos e anos de sofrimento. Repito:para quem não sabe o que é ser gorda pode parecer loucura isso, mas só quem sofreu ou sofre de obesidade entende.
Há uns 5 anos passei por momentos bem difíceis na vida profissional e pessoal e cheguei aos 77kg. Por mais esforço (dieta e exercício) não conseguia perder 100gr. De tanto tentar e falhar, tentei me convencer de que posso ser bonita gordinha. Mas recentemente na terapia descobri o seguinte: estar magra não me garante estar feliz, mas estar gorda, definitivamente, me deixa infeliz. Infeliz e medrosa, a ponto de sequer conseguir dar em cima de ninguém. Acho que nunca serei correspondida enquanto estiver gorda.
É por isso que continuo lutando contra a balança. E esse é um desafio muito particular, muito íntimo, por ser muito intenso e nem sempre as pessoas à minha volta entendem. Mas estou na luta ainda: pela perda de peso e pelo aumento de minha auto-estima.
sábado, 25 de fevereiro de 2017
O dia que meu amigo me deu um conselho
Ontem um velho amigo meu me falou "você já percebeu que em meia hora de conversa você já falou sobre mil defeitos seus?".
De fato, no meio da conversa eu soltava umas frases do tipo "nossa! minha unha tá horrível", "meu cabelo tá sem corte" ou "tenho de voltar a malhar, tô gorda".
Quantas vezes, num dia, a gente não repete essas coisas negativa sobre nós mesmas? A gente fala isso com tanta naturalidade, que nem percebe e, quando vê, esse monte de reclamações já virou uma grande verdade na nossa cabeça.
Respondi pro meu amigo que ele me deu um toque muito importante, pois eu, assim como um monte de mulher que conheço, ando precisando gostar mais de mim. Aí ele, que é meu amigo e gosta de mim, se lembrou de alguns elogios que já me viu recebendo. E que, em quase todas as vezes, fiquei sem jeito, quase como se dissesse "para com isso, eu não mereço ser elogiada". Ele saiu falando "Você tem olhos lindos", "suas pernas arrasam" e por aí foi. Falei que ele deveria estar muito inspirado, mas ele respondeu que estava mesmo é preocupado em ver eu mesma me colocar tão pra baixo e quase todas as vezes por causa de 6/ 7 kg a mais.
Entendi o quão profundo era aquele toque: afinal, sou mais do que isso, mais do que um corpo, mais do que o que a balança me mostra.
Acreditei no meu amigo e resolvi repetir para mim mesma, como se fosse um mantra, cada uma dos elogios. E me lembrei de outros: sou inteligente, sou uma boa amiga... Decidi não virar uma chata de galocha.
Pô! Gorda de cabelo sem corte e ainda por cima chata?
De fato, no meio da conversa eu soltava umas frases do tipo "nossa! minha unha tá horrível", "meu cabelo tá sem corte" ou "tenho de voltar a malhar, tô gorda".
Quantas vezes, num dia, a gente não repete essas coisas negativa sobre nós mesmas? A gente fala isso com tanta naturalidade, que nem percebe e, quando vê, esse monte de reclamações já virou uma grande verdade na nossa cabeça.
Respondi pro meu amigo que ele me deu um toque muito importante, pois eu, assim como um monte de mulher que conheço, ando precisando gostar mais de mim. Aí ele, que é meu amigo e gosta de mim, se lembrou de alguns elogios que já me viu recebendo. E que, em quase todas as vezes, fiquei sem jeito, quase como se dissesse "para com isso, eu não mereço ser elogiada". Ele saiu falando "Você tem olhos lindos", "suas pernas arrasam" e por aí foi. Falei que ele deveria estar muito inspirado, mas ele respondeu que estava mesmo é preocupado em ver eu mesma me colocar tão pra baixo e quase todas as vezes por causa de 6/ 7 kg a mais.
Entendi o quão profundo era aquele toque: afinal, sou mais do que isso, mais do que um corpo, mais do que o que a balança me mostra.
Acreditei no meu amigo e resolvi repetir para mim mesma, como se fosse um mantra, cada uma dos elogios. E me lembrei de outros: sou inteligente, sou uma boa amiga... Decidi não virar uma chata de galocha.
Pô! Gorda de cabelo sem corte e ainda por cima chata?
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
SOBRE PAIXÕES E AUTOESTIMA
Sou a favor do amor. Sempre. Sou daquelas que precisa estar apaixonada o tempo todo. Claro que na maioria das vezes o alvo da minha paixão é um rapaz mais ou menos alto, com cara de homem e que beija bem. Mas algumas vezes me apaixono também por um livro, por um trabalho novo. Até por novelas eu sou apaixonada.
Minha última paixão durou 10 meses. Quase um ano de adrenalina pura: frio no estômago, downloads de música para ele, contagem regressiva para o próximo encontro. Uma delícia de vida. Até que a chama foi apagando. A chama dele, é bom deixar claro. Comecei a perceber aqueles sinais que a gente adora fingir que não estão ali, acenando pra gente a fim de mostrar que o outro não está na mesma sintonia. Por sorte os percebi e tratei de fazer o que era preciso: me afastei. Certa vez ouvi que uma dama sempre sabe a hora de se retirar e, mesmo sem ser assim tão dama, tão fina, agi como se fosse. Doeu? Pra caramba, mas doeria muito mais ver aquela história tão gostosa ir morrendo aos poucos. Enchi-me de coragem e falei "acabou, né?". Ele ficou atônito, sem palavras e eu continuei: neguinho, lembra o que combinamos no início? Que só ficaríamos juntos para sermos felizes, nossos momentos juntos seriam os melhores do mundo. Nossa história foi incrível, mas você não está mais a fim, então é hora de acabar.
Acabamos eu e ele, a paixão continuou. Mas meu lado capricorniano fala alto de vez em quando e me faz usar a razão: não vale a pena estar com alguém que não vai feliz da vida ao cinema comigo. Não vale a pena fazer-me cega para a falta de paixão do outro. Semanas de choro e muito colinho de amigas depois, reencontrei meu eixo e fiquei feliz por saber que fiz algo tão bom para minha autoestima, para meu amor próprio. E, principalmente, por ver que não deixei uma linda história de paixão, sexo e desejo virar uma coisa mais ou menos. Nosso romance teve um infarto fulminante, não precisou ir pra UTI, não agonizou. E hoje é uma linda lembrança.
Ok, eu sei que você vai pensar "pô, Aline, você deveria ter investido mais" ou "Ai, você desiste muito fácil". Não, eu não desisto fácil, eu só aprendi que para mim "pouco" nunca é o bastante. Eu quero tudo, eu quero muito. Sim, você advinhou: eu sou exigente. Estar com alguém que não está comigo me faz um mal imenso. E há algum tempo aprendi que sou eu que preciso cuidar de mim, não posso deixar esta responsabilidade nas mãos do outro. É muita responsabilidade para ele e muita burrice da minha parte.
Geralmente condicionar a felicidade ao fato de ter um namorado faz mal à minha saúde mental, à minha autoestima. E quando a paixão vai ladeira abaixo, me dá uma vontade imensa de desistir do amor. E se tem uma coisa a que me recuso é endurecer meu coração. O dia que isto acontecer vou perder o que tenho de mais bonito em mim: a capacidade de amar. Então, prefiro eu mesma cuidar de mim, ser seletiva, ser cuidadosa. Sou especial demais para me entregar a qualquer um. Da mesma forma que abandono um livro ruim, não uso uma roupa que não me caia bem, também dispenso um namoro morno. Sou especial demais e qualquer hora vai pintar um carinha apaixonado por mim. Enquanto isso, vou curtindo outras paixões: meus livros, meus textos, meus amigos.
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segunda-feira, 7 de novembro de 2016
QUEM ENTENDE A VIDA?
Bonito esse cara. Bonito e simpático, uma combinação difícil de encontrar num único cara. Aposto que a mulher dele morre de ciúmes de ele olhar pra outra bunda. Mas será que ele é casado? Não vi aliança... amanhã vou prestar mais atenção.
Oba! Parou de chover: vou dar minha corridinha e - claro! - ver o gostosão.-Oi.-Oi.Droga! É muito rápido esse "oi" que a gente troca. Não dá nem pra dar um sorriso direito. Amanhã vou dar um sorriso malicioso. Ai, não acredito: parou pra beber água de coco. É agora ou nunca!
Da água de coco pro motel foi questão de semanas. Uma semana, pra ser bem exata. Se o cara paga a água de coco e o queijo coalho, eu é que não vou me fazer de santa. Além disso, se é pra dar pra alguém, que seja pra ele, que até que é bem cheiroso.O bom de azarar alguém no calçadão da praia é que dá incentivo, não tem desculpa pra não fazer exercício. Comecei a acordar cedo e correr na praia. Ele começou a sair do trabalho cedo e chegar em casa tarde. E a gente se encontra no motel ali pertinho. Rolou aquela paixão, ele virou o cara da minha vida, eu virei a mulher que ele procurou a vida toda e aquele blábláblá de início de paixão que todo mundo já sabe.
Hoje dei um ultimato: ou se separa ou a gente termina tudo. E que ninguém pense que sou daquelas fáceis, tipo putinha. Sou mãe solteira porque o babaca do namorado, quando soube da gravidez, disse que não tava preparado. Mas a mãe dele tem grana e paga uma pensão boa pro moleque. O que me irrita é a mania de se meter na minha vida. Ando meio preocupada com a reação da coroa quando souber que vou morar com meu amorzão.
Acabei de quase mandar a ex-sogra toda-poderosa pra pqp. A idiota disse que vai cortar a pensão. Vaca. "Dane-se, porque vou morar com ele e ele vai pagar minhas contas". O cara é louco por mim e pelo meu filho. Já alugou apartamento, botou o moleque na creche. E eu não preciso fazer nada além de cuidar dele e da nossa casa.Somos um casal feliz. Nunca fui muito fã de ralar em loja ou escritório pra ganhar salário de fome. E ele adora ter uma muher pra cuidar dele. Que casal feliz. Tem umas amigas se mordendo de inveja de mim, mas todo mundo sabe que encontrar a alma gêmea não é mole. Felizmente encontrei a minha. A gente só briga por ciúmes. Meu, claro. Odeio quando ele abre a porta do elevador pra uma vizinha vagabunda.O problema é que adoro sexo e ele já perdeu um pouco do vigor. Uma vez por semana e olhe lá. Pra ele tá bom demais.
Mas e eu? Tenho minhas vontades. E vou falar uma coisa: nunca fui de medir consequências, se bobear vou é dar pra um carinha daqui do prédio. Sim, porque se existem vizinhas gostosas por aí, também têm os vizinhos cheios de hormônios. Sou muito nova pra virar dona de casa. É só fazer bem feito, sem ninguém notar. Traçar aquele vizinho vai ser moleza. Quem nunca deu pra um vizinho, afinal de contas?
"Mas e se ele souber?" É isso o que a vozinha sensata (ou seriam as amigas?) me diz todo dia. Bem, se ele descobrir eu nego. Choro, se precisar. Ele sempre cai, acredita em mim. É só não deixar de servir o jantar às 7:30 em ponto. Caraca! Maior coisa de velho jantar tão cedo. E dobrar o pijama de manhã? Existe coisa mais de velho do que isso?Não pense mal de mim, sou gente boa. Tinha tudo pra ser mais uma dessas muitas mulheres na faixa dos trinta e poucos anos que ralam pra construir a carreira, depois de muito estudo e salário merreca de estagiária. Mas ficar que nem minha irmã? A coitada fez faculdade e até intercâmbio e mal consegue pagar a prestação do carro. Não nasci pra isso. Adoro olhar para minha casa, pra aquela família que construi. Na maior parte do tempo não é nenhum sacrifício escolher o que a empregada vai fazer pro jantar, mandar pra tinturaria os ternos dele, buscar o filho na escola. Não, definitivamente não é sacrifício. É prazeroso viver como quem brinca de casinha, com pai, mãe e filho. Do jeito que sempre quis que meus pais vivessem... mas minha mãe tinha uma mania insuportável de não se submeter ao meu pai. Tudo bem que meu pai é um pouco machista e ficava meio violento quando bebiam. Se separaram quando eu tinha uns 7 anos.Gosto de ser dona de casa dondoca. O problema é que faz quase 1 mês que não transo. Perdi a vontade, sabe? Na verdade, perdi a vontade com ele. Porque sei que vai ser aquele sexozinho meia bomba, papai-e-mamãe total. Quem sente vontade de fazer isso? Aliás, isso só dá mais vontade de dar pro vizinho. Dar mesmo, com força, com bastante desejo. Se alguém falar "fazer amor" perto de mim é bem provável que leve um murro. Tô precisando é trepar, foder mesmo. Mas com ele? Ai, desanimo só de pensar. Vou é tomar um sol e ler minha revista.
Tava descendo pra ir pra piscina e vi o vizinho. Senti uma coisa começando esquentar... Aí lembrei do marido e de tudo o que perderia se ele soubesse de alguma coisa. Até outro dia tava tudo sob controle mas o porteiro filho de uma puta jogou uma piadinha e ele começou a ficar cismado. Passou a prestar atenção nas conversas por telefone, a fazer cara feia quando vou sair com as amigas, até que um dia jogou na cara: quem paga as contas é dono. Tenho dono. Dá uma tristeza quando penso nisso.Em vez de ir pra piscina, deitei quietinha na cama e lembrei de tudo o que conquistei: um marido legal, bem de vida, carro na garagem, apartamento grande, bem decorado. Mesmo assim foi impossível não sentir inveja das amigas que vivem levando fora de carinhas babacas e se matam pra pagar o aluguel. Mas têm a liberdade de dar pra quem quiserem. Vai entender essa vida: eu aqui, doida pra dar e elas lá, sonhando em fazer amor.
Oba! Parou de chover: vou dar minha corridinha e - claro! - ver o gostosão.-Oi.-Oi.Droga! É muito rápido esse "oi" que a gente troca. Não dá nem pra dar um sorriso direito. Amanhã vou dar um sorriso malicioso. Ai, não acredito: parou pra beber água de coco. É agora ou nunca!
Da água de coco pro motel foi questão de semanas. Uma semana, pra ser bem exata. Se o cara paga a água de coco e o queijo coalho, eu é que não vou me fazer de santa. Além disso, se é pra dar pra alguém, que seja pra ele, que até que é bem cheiroso.O bom de azarar alguém no calçadão da praia é que dá incentivo, não tem desculpa pra não fazer exercício. Comecei a acordar cedo e correr na praia. Ele começou a sair do trabalho cedo e chegar em casa tarde. E a gente se encontra no motel ali pertinho. Rolou aquela paixão, ele virou o cara da minha vida, eu virei a mulher que ele procurou a vida toda e aquele blábláblá de início de paixão que todo mundo já sabe.
Hoje dei um ultimato: ou se separa ou a gente termina tudo. E que ninguém pense que sou daquelas fáceis, tipo putinha. Sou mãe solteira porque o babaca do namorado, quando soube da gravidez, disse que não tava preparado. Mas a mãe dele tem grana e paga uma pensão boa pro moleque. O que me irrita é a mania de se meter na minha vida. Ando meio preocupada com a reação da coroa quando souber que vou morar com meu amorzão.
Acabei de quase mandar a ex-sogra toda-poderosa pra pqp. A idiota disse que vai cortar a pensão. Vaca. "Dane-se, porque vou morar com ele e ele vai pagar minhas contas". O cara é louco por mim e pelo meu filho. Já alugou apartamento, botou o moleque na creche. E eu não preciso fazer nada além de cuidar dele e da nossa casa.Somos um casal feliz. Nunca fui muito fã de ralar em loja ou escritório pra ganhar salário de fome. E ele adora ter uma muher pra cuidar dele. Que casal feliz. Tem umas amigas se mordendo de inveja de mim, mas todo mundo sabe que encontrar a alma gêmea não é mole. Felizmente encontrei a minha. A gente só briga por ciúmes. Meu, claro. Odeio quando ele abre a porta do elevador pra uma vizinha vagabunda.O problema é que adoro sexo e ele já perdeu um pouco do vigor. Uma vez por semana e olhe lá. Pra ele tá bom demais.
Mas e eu? Tenho minhas vontades. E vou falar uma coisa: nunca fui de medir consequências, se bobear vou é dar pra um carinha daqui do prédio. Sim, porque se existem vizinhas gostosas por aí, também têm os vizinhos cheios de hormônios. Sou muito nova pra virar dona de casa. É só fazer bem feito, sem ninguém notar. Traçar aquele vizinho vai ser moleza. Quem nunca deu pra um vizinho, afinal de contas?
"Mas e se ele souber?" É isso o que a vozinha sensata (ou seriam as amigas?) me diz todo dia. Bem, se ele descobrir eu nego. Choro, se precisar. Ele sempre cai, acredita em mim. É só não deixar de servir o jantar às 7:30 em ponto. Caraca! Maior coisa de velho jantar tão cedo. E dobrar o pijama de manhã? Existe coisa mais de velho do que isso?Não pense mal de mim, sou gente boa. Tinha tudo pra ser mais uma dessas muitas mulheres na faixa dos trinta e poucos anos que ralam pra construir a carreira, depois de muito estudo e salário merreca de estagiária. Mas ficar que nem minha irmã? A coitada fez faculdade e até intercâmbio e mal consegue pagar a prestação do carro. Não nasci pra isso. Adoro olhar para minha casa, pra aquela família que construi. Na maior parte do tempo não é nenhum sacrifício escolher o que a empregada vai fazer pro jantar, mandar pra tinturaria os ternos dele, buscar o filho na escola. Não, definitivamente não é sacrifício. É prazeroso viver como quem brinca de casinha, com pai, mãe e filho. Do jeito que sempre quis que meus pais vivessem... mas minha mãe tinha uma mania insuportável de não se submeter ao meu pai. Tudo bem que meu pai é um pouco machista e ficava meio violento quando bebiam. Se separaram quando eu tinha uns 7 anos.Gosto de ser dona de casa dondoca. O problema é que faz quase 1 mês que não transo. Perdi a vontade, sabe? Na verdade, perdi a vontade com ele. Porque sei que vai ser aquele sexozinho meia bomba, papai-e-mamãe total. Quem sente vontade de fazer isso? Aliás, isso só dá mais vontade de dar pro vizinho. Dar mesmo, com força, com bastante desejo. Se alguém falar "fazer amor" perto de mim é bem provável que leve um murro. Tô precisando é trepar, foder mesmo. Mas com ele? Ai, desanimo só de pensar. Vou é tomar um sol e ler minha revista.
Tava descendo pra ir pra piscina e vi o vizinho. Senti uma coisa começando esquentar... Aí lembrei do marido e de tudo o que perderia se ele soubesse de alguma coisa. Até outro dia tava tudo sob controle mas o porteiro filho de uma puta jogou uma piadinha e ele começou a ficar cismado. Passou a prestar atenção nas conversas por telefone, a fazer cara feia quando vou sair com as amigas, até que um dia jogou na cara: quem paga as contas é dono. Tenho dono. Dá uma tristeza quando penso nisso.Em vez de ir pra piscina, deitei quietinha na cama e lembrei de tudo o que conquistei: um marido legal, bem de vida, carro na garagem, apartamento grande, bem decorado. Mesmo assim foi impossível não sentir inveja das amigas que vivem levando fora de carinhas babacas e se matam pra pagar o aluguel. Mas têm a liberdade de dar pra quem quiserem. Vai entender essa vida: eu aqui, doida pra dar e elas lá, sonhando em fazer amor.
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sábado, 26 de março de 2016
Meu pai ainda é o meu sol
(...)
Você é meu sol
Um metro e sessenta de cinco
De sol
E quase o ano inteiro
Os dias foram noites
Noites para mim...
Meu sorriso se foi
Minha canção também
Eu jurei por Deus
Não morrer por amor
E continuar a viver...
(...)
- Girassol, Ira!
Você é meu sol
Um metro e sessenta de cinco
De sol
E quase o ano inteiro
Os dias foram noites
Noites para mim...
Meu sorriso se foi
Minha canção também
Eu jurei por Deus
Não morrer por amor
E continuar a viver...
(...)
- Girassol, Ira!
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
VOCÊ TEM 1 NOVA MENSAGEM
Mensagem nova na caixa de e-mails. Se pensamento positivo atrai o que a
gente quer, foi você quem mandou.
Pensar positivo vale a pena e atrai o que eu mais desejei nestes últimos
tempos: é sua a mensagem. Uma dica de livro. Mas é um livro de autoajuda.
Detesto livros deste tipo, mas vindo de você não tem como não ler.
Você lembrou de mim porque era um destes best sellers babacas que falam sobre o quanto as “mulheres de trinta e pouco anos” perderam a feminilidade e lá eles dão todas as dicas de como devemos nos lembrar de nossas mães, sempre tão amáveis, sempre tão submissas aos nossos pais mantêm casamentos longos e felizes.
Eu preciso me feminilizar. Eu preciso deixar de ser metida a besta e parar com aquela mania de achar que sou independente e poderosa. Eu preciso de um casamento feliz. É isso que você tem a me dizer. É isso que você pensa sobre mim.
Você lembrou de mim porque era um destes best sellers babacas que falam sobre o quanto as “mulheres de trinta e pouco anos” perderam a feminilidade e lá eles dão todas as dicas de como devemos nos lembrar de nossas mães, sempre tão amáveis, sempre tão submissas aos nossos pais mantêm casamentos longos e felizes.
Eu preciso me feminilizar. Eu preciso deixar de ser metida a besta e parar com aquela mania de achar que sou independente e poderosa. Eu preciso de um casamento feliz. É isso que você tem a me dizer. É isso que você pensa sobre mim.
Faz 14 meses que não nos vemos. Há 14 meses eu sonho com você, mas sou cabeça dura demais pra te procurar e viver nossa história à distância. Eu tenho medo da distância que já existia quando morávamos
naquele conjugado sem privacidade.
Minha memória para datas te assusta e te faz pensar que sou racional
demais. Mas não tenho nada de cartesiana: se eu me lembro qual foi exatamente o
dia que nos vimos pela última vez é porque não consigo isolar um fato do
restante do cenário. Descartes nunca foi meu filósofo predileto. Não vou muito
com a cara dos franceses.
Você sabe que sou emoção no estado mais puro e que tenho coração até no
meio das pernas. E isto também te assusta.
Há 15 meses te deixei apavorado porque soltei um “eu te amo”, assim do
nada. Depois de uma crise de risos – destes, sim, não me lembro o motivo.
No dia seguinte você veio com aquele papo bem coisa de homem: não quero
te fazer sofrer, acho que não estou preparado para te amar.
Ninguém está, meu caro. Todo mundo diz que quer encontrar o grande amor
mas não quer, não. No fundo sabem que é uma espécie de bungee jump do qual não
se volta inteiro.
Dias depois, você chegou com um jantar surpresa e me derreteu toda. Fingi que não havíamos combinado que haveria carinho, mas nunca amor. Te amei
como nunca naquela noite. Mais até do lá em Penedo, naquela pousada gelada que
nos obrigava a passar horas abraçados debaixo do cobertor. Naquele dia eu te
amei muito, mas acho que era mais pelo sexo. O cenário convidava.
E 14 meses depois do último beijo eu ainda te amo e te desejo e espero
e-mails seus.
Esta seria só mais uma história de amor do cara que descartou a gata e
da gata que não esqueceu o gato. Milhões de histórias são assim. Milhões de
vezes eu vivi isso. No entanto, meu Tsunami, parei de lutar contra este babaca
coração e deixei a coisa rolar. Desisti de te esquecer e partir para outra
beijando um aqui e outro ali. Não que não tenha beijado alguns carinhas, é
claro. Só parei de fingir que aquilo lá importava.
Desisti de te esquecer porque assim consigo ainda sentir o gostinho
bom de, mesmo num momento tão caótico e extremo, gostar de um cara que se
apresentou como de bem com a vida e bem resolvido – e se mostrou tão assustado
quanto eu diante de um sentimento-ventania que balançou nossos alicerces.
Por ainda gostar de você, deveria produzir muito. Escrever milhões de
páginas. Mas como dá pra notar, até este texto ficou bem babaquinha.
Quase tão babaquinha quanto qualquer um dos trechos do livro que você
indicou. Eu nunca gostei de você por causa de suas histórias engraçadas, do seu
senso de humor e muito menos pelo seu “carioca way of life”.
Não havia nada mais prazeroso do que esperar você dormir de bruços só
pra olhar suas costas peludas. Eu amava até seu medo idiota de eu repetir “te
amo” em tão pouco tempo.
Eu gostava de você por nada e isso é coisa de quem gosta muito.
sábado, 26 de dezembro de 2015
Meu presente de Natal
Eu acho o Natal meio chato. Na verdade, acho um saco. Só é um pouquinho legal quando a gente faz amigo-oculto lá em casa. Aí, sim eu gosto.
Só que ninguém gosta de tirar meu nome. Mas, pelo que dizem, não é nada pessoal, não: é que, segundo a lenda, eu tenho tudo e é muito difícil escolher um presente pra mim.
Quando me perguntam o que quero ganhar, respondo "me dá qualquer coisa". Mas a verdade é que sou mesmo chata e nem sempre gosto de ganhar ''qualquer coisa". Bem, sou chata mas não sou insensível,né? O "qualquer coisa" que eu quero dizer é um presente escolhido com carinho.Pra mim, qualquer presente dado com carinho é o melhor do mundo. Mas a verdade é que todo ano a espinha da galera se arrepia só de pensar que pode tirar meu nome no amigo-oculto.
Fazia tanto tempo que eu não ganhava um presente, digo um presente especial. Um presente cuja vontade de me presentear fosse muito maior do que o valor dele em si.
Este ano eu ganhei. E foi o presente mais bonito do mundo. Do jeito que eu adoro: dado com carinho e cheio de ritual.
Ritual de amigo-oculto é aquele pra lá de batido: a pessoa começa a falar sobre a pessoa sorteada... "O meu amigo-oculto é isso, é aquilo...".
Foi assim que ganhei meu presente. O melhor do mundo.
"Meu amigo oculto é a pessoa mais importante da minha vida. Meu amigo oculto é o amor da minha vida: a minha filha Aline". Com essas palavras, meu pai me entregou uma caixa com um sabonete líquido e um creme hidratante. Só que eu nem olhei direito para a caixa. Eu só consegui sentir a eternidade daquele momento. Logo eu, que quero que o tempo passe logo porque acho que tudo é um saco, e o minuto seguinte será melhor e menos tedioso. Naqueles minutos eternos, achei o Natal a data mais bonita do mundo. Naqueles minutinhos o mundo ficou mais leve, mais colorido.
Se ficou mesmo, não sei. Deve ter ficado, mas pra falar a verdade, não prestei muita atenção. Eu só consegui pensar que aquele era o melhor presente do mundo. O mais precioso que eu ganhei na vida inteira.
A tal lenda não é lenda: eu realmente tenho tudo.
(Este texto foi publicado originalmente em dezembro de 2008. Ontem foi o Natal de 2015 e foi o 1o Natal sem ele, meu pai, meu grande amor. Se eu já não gostava de Natais, agora então...
Mas este ano fiz questão de estar junto de pessoas queridas. Falei "Feliz Natal" como havia muito não falava, falei com a alma, sabe? Fui para a ceia da "Grande Família", ou melhor, para a casa do Osmar, sogro da minha irmã.
É uma família especial, daquelas que a gente tem certeza de que não colocou no nosso caminho a toa. E eu realmente não sei o que teria sido de mim, da minha mãe e da minha irmã sem eles durante nosso "Tsunami emocional". Finalmente consegui abraçar cada um deles e falar o "obrigada" que eu tanto queria, pelo tanto que eles fizeram pela Gi, pelas meninas, pelo Érick, pela minha mãe e também por mim. Osmar, tia Léia e seu exército, seus gladiadores (filhos, noras, genro, netos e agregados), que tanto lutaram pela vida da Gi e do Érick; que amenizaram minha dor; que nos acolheram.
Perder meu pai me transformou de tal forma que jamais serei inteira novamente. Mas essa transformação se deu tanto de uma maneira negativa (meu sorriso não será nunca mais completo) quanto de um jeito positivo: nunca, mas nunca mais mesmo verei as coisas sob apenas um ângulo. Sofrer essa dor e estar junto àquela família me fez enxergar que eu não sou nada, que minha vida não vale absolutamente nada, se eu não puder, da maneira que for, ajudar alguém.
Afinal, de Simões, Mattos e louco, felizmente, os bons sempre têm um pouco.).
domingo, 24 de maio de 2015
Sobre olhares, saudades e meu velho
Esta é uma das fotos mais bonitas que já fiz: o registro da troca de olhares entre neta e avô. Neta que já era apaixonada sem ao menos ter idade para entender o que é amar. Avô que revivia, através das netas, a infância feliz que proporcionou às filhas com o incrível amor que sempre sentiu e demonstrou por elas.
Esse aí é meu pai: calado, cúmplice, afetuoso. Essa bebê é a Liv. Mas podia ser a Gi, a Lara, minha mãe ou eu... porque era desse jeito que ele, enxergando pouco, olhava para nós, as mulheres da sua vida.
Sob seu olhar, aprendi a fazer embaixadinha, amar o Flamengo e pilotar motos. Nossos domingos eram de música "de velho": Althemar Dutra, Roberto Carlos, Luis Ayrão e Julio Iglesias. Quando ele colocava Nelson Gonçalves, eu saía de perto porque "Naquela Mesa" me fazia chorar: eu sempre tive medo de meu pai morrer.
Em nossa despedida, cantei baixinho em seu ouvido a música "Meu querido, meu velho, meu amigo". Sempre que tocava essa música, a gente parava o que estava fazendo e dançava na sala. Fizemos isso tantas vezes e a última foi em fevereiro, uns 20 dias antes de tudo acontecer: Eu já te falei de tudo/ Mas tudo isso é pouco/ Diante do que sinto...
Ele gostava que eu o chamasse assim: meu velho. Claro que o "paiê" era campeão, mas se eu o quisesse deixar todo bobo, era só falar "Ô, meu velho!"
É, meu velho, que porra foi essa que aconteceu com nossa família? (Ih! Essa era a hora que ele me olhava torto: quando eu falava palavrão).Fomos devastados por um Tsunami emocional. Puta que pariu, como eu sinto sua falta! Como eu tenho sofrido de saudade.
Pela primeira vez na vida, conheci a solidão. Você me fazia companhia mesmo quando estávamos longe: bastava um telefonema para ouvir "filha, estava pensando em você".
Ainda evitamos, aqui em casa, falar muito sobre o acidente, mas quando é inevitável, digo que você está em paz, que D´us sabe o que faz e aquele monte de blá blá blá que se tornou meu discurso-armadura. Repito esse discurso várias vezes ao dia - não sei se é para me convencer ou para não chorar na frente deles. Temos feito isso direto: ninguém chora na frente do outro, que é pra não fazer o outro sofrer ainda mais. Acho que aprendemos isso com você: camuflar a dor.
Pai, eu sei que a vida estava difícil para você: sua vista, os tios Betinho e Claudinho... Mas lembra de um cartão antigo no qual escrevi "Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria"?, então,pai, se eu pudesse, sofreria todas as suas dores, só para ver você sorrindo.
Sua ausência parece queimadura na pele. Tenho dificuldade em olhar para a frente e lembrar que agora estou num mundo que não tem você. É estranho não ser mais filha - eu não estava preparada para virar adulta. Mas eu sou teimosa e vou ser sempre, sempre, sempre, a sua filhinha. Sua filhinha amada e queridinha. Seu colo ainda é meu lugar preferido. E toda vez que o mundo estiver muito complicado, vou lembrar de seu olhar, que diz tanto.
Esse aí é meu pai: calado, cúmplice, afetuoso. Essa bebê é a Liv. Mas podia ser a Gi, a Lara, minha mãe ou eu... porque era desse jeito que ele, enxergando pouco, olhava para nós, as mulheres da sua vida.
Sob seu olhar, aprendi a fazer embaixadinha, amar o Flamengo e pilotar motos. Nossos domingos eram de música "de velho": Althemar Dutra, Roberto Carlos, Luis Ayrão e Julio Iglesias. Quando ele colocava Nelson Gonçalves, eu saía de perto porque "Naquela Mesa" me fazia chorar: eu sempre tive medo de meu pai morrer.
Em nossa despedida, cantei baixinho em seu ouvido a música "Meu querido, meu velho, meu amigo". Sempre que tocava essa música, a gente parava o que estava fazendo e dançava na sala. Fizemos isso tantas vezes e a última foi em fevereiro, uns 20 dias antes de tudo acontecer: Eu já te falei de tudo/ Mas tudo isso é pouco/ Diante do que sinto...
Ele gostava que eu o chamasse assim: meu velho. Claro que o "paiê" era campeão, mas se eu o quisesse deixar todo bobo, era só falar "Ô, meu velho!"
É, meu velho, que porra foi essa que aconteceu com nossa família? (Ih! Essa era a hora que ele me olhava torto: quando eu falava palavrão).Fomos devastados por um Tsunami emocional. Puta que pariu, como eu sinto sua falta! Como eu tenho sofrido de saudade.
Pela primeira vez na vida, conheci a solidão. Você me fazia companhia mesmo quando estávamos longe: bastava um telefonema para ouvir "filha, estava pensando em você".
Ainda evitamos, aqui em casa, falar muito sobre o acidente, mas quando é inevitável, digo que você está em paz, que D´us sabe o que faz e aquele monte de blá blá blá que se tornou meu discurso-armadura. Repito esse discurso várias vezes ao dia - não sei se é para me convencer ou para não chorar na frente deles. Temos feito isso direto: ninguém chora na frente do outro, que é pra não fazer o outro sofrer ainda mais. Acho que aprendemos isso com você: camuflar a dor.
Pai, eu sei que a vida estava difícil para você: sua vista, os tios Betinho e Claudinho... Mas lembra de um cartão antigo no qual escrevi "Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria"?, então,pai, se eu pudesse, sofreria todas as suas dores, só para ver você sorrindo.
Sua ausência parece queimadura na pele. Tenho dificuldade em olhar para a frente e lembrar que agora estou num mundo que não tem você. É estranho não ser mais filha - eu não estava preparada para virar adulta. Mas eu sou teimosa e vou ser sempre, sempre, sempre, a sua filhinha. Sua filhinha amada e queridinha. Seu colo ainda é meu lugar preferido. E toda vez que o mundo estiver muito complicado, vou lembrar de seu olhar, que diz tanto.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
O meu pai
Há 1 mês o grande amor da minha vida foi embora deste mundo físico. Faz 30 dias que minha vida está de ponta cabeça e quase nada mais faz sentido. Incluindo minhas emoções - precisei deixar grande parte de minhas emoções de lado e deixei de sentir muita coisa. Para minha sobrevivência, preciso não sentir tanto.
Ê que eu sou feita de sentimentos e sentir tanto como eu sempre sinto me levaria à loucura.
Também sou feita de ossos e Cléber; de órgãos e Cléber; de células e Cléber e, como já falei, sou sentimentos e ... Cléber. Assim, de cara, sou capaz de apostar que jamais serei inteira novamente.
Mas por tanto amor que dele recebi, estou de pé ajudando na recuperação de minha irmã e de meu cunhado e dando força à minha mãe e minhas sobrinhas.
Ele foi o melhor pai do mundo. Eu fui a melhor filha para ele. Fui a filha sob medida par um pai como ele: jamais dei motivo de preocupação, dizia sempre "eu te amo, velho" e não houve uma única pendência entre nós dois. Fomos pai e filha, no mais belo e profundo significado desta relação.
Não sei o que será de mim nem a longo nem a curto prazo, mas de uma coisa eu tenho convicção: todo mundo merecia ter um pai como o meu velho.
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domingo, 8 de março de 2015
Feliz dia da mulher sem rótulos
Acho um desrespeito essa divisão de "times" que nos cobram. Temos de escolher um lado: ou ser "mulherzinha", que é como chamam as mulheres que optam por cuidar da casa, do marido e dos filhos, ou ser "mulher independente", que são aquelas que optam por trabalhar fora, não ter filhos ou até não se casarem.
Será que não dá pra respeitar a opção? Será que não dá pra pensar que ser uma coisa ou outra é questão de dom, de perfil, de escolha?
Trabalho desde cedo, pretendo estudar muito mais do que já estudei, já casei, já separei, adoro viajar sozinha, não quero filhos mas pretendo viver grandes amores. Quando me apaixono sou "mulherzinha": cuido do meu homem com muito carinho. Nem por isso deixo de ser eu. Sou feliz do meu jeito. Tão feliz quanto minha amiga que não teve oportunidade de nem ao menos conhecer a Ilha de Paquetá. Mas que é feliz da vida porque tem filhos lindos, bem cuidados. Perfis diferentes, noções diferentes do que é a felicidade.
Viva a mulher que escolheu cuidar da casa! Viva a mulher que prefere viajar sozinha pela Europa.
Viva a mulher que escolheu ser feliz.
Será que não dá pra respeitar a opção? Será que não dá pra pensar que ser uma coisa ou outra é questão de dom, de perfil, de escolha?
Trabalho desde cedo, pretendo estudar muito mais do que já estudei, já casei, já separei, adoro viajar sozinha, não quero filhos mas pretendo viver grandes amores. Quando me apaixono sou "mulherzinha": cuido do meu homem com muito carinho. Nem por isso deixo de ser eu. Sou feliz do meu jeito. Tão feliz quanto minha amiga que não teve oportunidade de nem ao menos conhecer a Ilha de Paquetá. Mas que é feliz da vida porque tem filhos lindos, bem cuidados. Perfis diferentes, noções diferentes do que é a felicidade.
Viva a mulher que escolheu cuidar da casa! Viva a mulher que prefere viajar sozinha pela Europa.
Viva a mulher que escolheu ser feliz.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Para você, que me tira do eixo, somente um poeta que me desestabiliza
Eu amo-te sem saber como,
ou quando, ou a partir de onde.
Eu simplesmente amo-te,
sem problemas ou orgulho:
amo-te desta maneira porque não conheço
qualquer outra forma de amar sem ser esta,
onde não existe eu ou tu,
Tão intimamente
que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão,
tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.
Eu amo-te sem saber como,
ou quando, ou a partir de onde.
Eu simplesmente amo-te,
sem problemas ou orgulho:
amo-te desta maneira porque não conheço
qualquer outra forma de amar sem ser esta,
onde não existe eu ou tu,
Tão intimamente
que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão,
tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.
ou quando, ou a partir de onde.
Eu simplesmente amo-te,
sem problemas ou orgulho:
amo-te desta maneira porque não conheço
qualquer outra forma de amar sem ser esta,
onde não existe eu ou tu,
Tão intimamente
que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão,
tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
O seu baseado
Aquele baseadinho que você fumou, bem despretensiosamente, ajudou a comprar a arma que matou o Marco.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
domingo, 1 de fevereiro de 2015
A Bunda da Paolla Oliveira e a Mulher Insegura
Para uma Mulher Feia, aquele "derrière" na telinha foi um tapa na cara. Compreensível: já não basta a coitada ser feia, ainda precisam mostrar, em cadeia nacional, o que é lindo?! Eu ficaria irada, se feia fosse.
Outras tantas são mulheres machistas. Dessas eu não falo. São amargas demais, detestam os homens demais e se permitem prazeres de menos.
O restante do grupo que de-tes-tou ver tanta beleza numa única bunda é composto por mulher insegura ela. Os comentários da Mulher Insegura são, em suma, estes:
a) Foi a luz que favoreceu;
b) Mas ela tem celulite que eu vi, eu vi!;
c) Agora entendi porque ela está na Globo;
d) Só pode ser Photoshop;
d) Homem é tudo bobo mesmo, não pode ver uma bunda.
A Mulher Insegura não conseguiu dormir aquela noite. A visão de uma Bunda (você há de concorda que aquela lá merece ser um substantivo próprio, merece uma letra maiúscula) redonda na medida certa, no tamanho exato, tão perfeita que parecia milimetricamente desenhada e -fantasia das fantasias - coberta/descoberta por uma calcinha mínima mexeu muito com a auto-estima da Mulher Insegura. No dia seguinte, ela dobrou as séries para o bumbum na academia. Malhou furiosamente, pediu aos deuses para serem justos e fazerem valer cada pingo de suor.Desde terça-feira passada a Mulher Insegura tem como objetivo de vida ter aquela Bunda.
Ao contrário da Mulher Feia, a Mulher Insegura ainda vai ficar muito mal, péssima mesmo, enquanto falarem da bunda da Paolla Oliveira. É que a Mulher Feia já está acostumada, resignada, a ser feia. E por isso aprendeu, ao longo da vida, a valorizar algo em si mesma que não seja tão horrendo. Nos casos de feiura extrema, todos sabemos, há ainda a opção de se destacar pelo humor, pelo intelecto.
A Mulher Insegura, não. Para ela, ser bonitinha, charmosinha, não vale: ela precisa ser linda. A Mulher Insegura, aliás, nem é feia. E sabe disso: ela olha para o espelho e vê um corpo bonito, um rosto bem feito, os cabelos bem cuidados. O problema é que ela precisa que o namorado/ marido também a ache linda. Precisa que a amiga a ache linda. Que a irmã, a vizinha, a mãe, o ex, a atual do ex (bem, esta principalmente) a achem linda.
Mas ela sabe que depois de verem a bunda da Paolla Oliveira, ninguém nunca mais vai achá-la, ao menos, bonitinha. E sem a aprovação do outro, a Mulher Insegura vale o quê?
E, ciente de tão pouco valor físico, acaba desprezando também seus outros atributos: não é culta o suficiente; não fez todas as viagens que planejou; seu emprego é sem graça. A Mulher Insegura é, sem dúvida, a derrota em pessoa.
Mas ela é persistente: dobrou sua série na academia e vai - ela tem fé! - ter uma bunda igualzinha àquela que você viu na TV e ficou babando. Afinal, ela não tinha cintura e a lipoaspiração resolveu isso. Não tinha peito mas o silicone resolveu isso. Não tinha cabelo liso e a escova progressiva resolveu isso.
A Mulher Insegura não desiste e corre atrás de seu sonho: se tornar igualzinha àquelas tantas mulheres das capas de revista, tão diferentes do que ela é.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
O mundo está ficando esquisito
Esta semana fui à abertura da exposição do Kandinsky, "Tudo começa num ponto" (recomendo!) no CCBB e fiquei impressionada com a quantidade de fotos que muitos faziam.
Era um tal de parar em frente a um quadro, dar uma olhadinha para o lado (para certificar-se de que o segurança não olhava) e ... "clique!", partir para a outra obra, "clique!". A maioria não apreciava o que via, sequer se dava ao trabalho de ler as informações: urgia clicar e publicar nos feissibruquis e enstagrans da vida (digital, é claro, porque esta é que conta).
Como cada um faz o que quer da vida, me restringi a comentar com minha amiga o quão esquisito o mundo está se tornando: mostrar aos zilhões de amigos que se foi a uma exposição é muito mais importante do que apreciar o valor (cultural ou emocional) de uma obra de arte. Mas não resisti e dei boas gargalhadas com a ignorância desse pessoalzinho.
Era um tal de parar em frente a um quadro, dar uma olhadinha para o lado (para certificar-se de que o segurança não olhava) e ... "clique!", partir para a outra obra, "clique!". A maioria não apreciava o que via, sequer se dava ao trabalho de ler as informações: urgia clicar e publicar nos feissibruquis e enstagrans da vida (digital, é claro, porque esta é que conta).
Como cada um faz o que quer da vida, me restringi a comentar com minha amiga o quão esquisito o mundo está se tornando: mostrar aos zilhões de amigos que se foi a uma exposição é muito mais importante do que apreciar o valor (cultural ou emocional) de uma obra de arte. Mas não resisti e dei boas gargalhadas com a ignorância desse pessoalzinho.
A exposição de Kandinsky fica no CCBB do Rio até 28/03.
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