Tem hora que só a razão e os bons modos que aprendi (aprendi?) me impedem de bater em alguém. Ou em mim mesma, já que o problema é comigo. Embora eu ache que o mundo todo esteja errado.
Só meu lado racional não me deixa fazer o que mais desejo de vez em quando: pular da janela, me jogar na frente de um ônibus. Ou dormir por muito, muito tempo, até a tristeza passar. E como ela não passa, me vejo por aí desejando quebrar tudo pela casa, atropelar alguém, me lixar pro que pensam de mim. A consciência me freia e, resignada, passo meu blush e um batom cor de boca e vou por aí, com a tristeza camuflada.
Quando sinto esta tristeza de agora, quase não suporto acordar. Detesto o sol entrando pela minha janela e sinto que vou explodir em lágrimas. Mas já não choro há tanto tempo. Não adianta chorar quando a tristeza é daquelas muito, muito grandes. Chorar, nessas horas, só aumenta o desespero porque me faz lembrar que não vai resolver porra nenhuma.
Além de saber que não resolver, ainda tem o agravante: como uma criatura nariz empinado como eu, arrogante como eu, vai explicar que passou horas chorando? Arrogância é isso aí: esconder até o que mora em mim, o que é tatuado em mim. Meu nariz empinado, meu ar de quem vence todas jamais me permite dizer nem que peguei o caminho errado, imagine deixar que vejam como sou quase só tristeza. Tem gente que vive experiência de quase morte; eu vivo experiência de quase vida, que é quando dou um jeito de maquiar minha tristeza. Seja gastando uma grana no shopping, seja viajando pela Europa, ou só dizendo que está tudo bem. Mas quase nunca está tudo bem.
O bombeiro consertou o vazamento do banheiro e paguei com dinheiro. Chegaram as cortinas novas e ficaram ótimas. O marceneiro fez uma mesinha de centro linda, do jeito que eu desenhei. Mas e daí? Não gostei de verdade. Não senti nem uma pontinha de alegria.
Estou aqui trancada em casa, nesse isolamento imposto por um vírus maior do que eu. Ontem terminei um livro ótimo. Hoje combinei de assistir a um filme cujo texto já conheço e adoro. Pode ser que fique quase feliz, afinal, filme com ele tem tudo pra ser o melhor programa do mundo. Pode ser que me alegre. Mas só de pensar que posso ficar felizinha, já fico mais triste do que antes, porque depois de um surto de alegria vem a tristeza de sempre. Vem como nunca. Dá vontade de não rir só pra não ter que chorar. Segunda-feira tenho médico on-line. Coisas da quarentena, e me parece um programa bem mais animador, afinal, à minha tristeza somam-se o desconforto dessa nova forma de consulta sem olho no olho de verdade.
Está decidido: não vou ver filme porra nenhuma. Ele nem vai se importar e isso me deixa triste pra cacete. Vou ficar aqui, de frente pra TV, letárgica. Triste profissional.
Ser adulto é isto. É dar bom dia pro vizinho no elevador, pagar conta pelo aplicativo do banco, esquecer-se da consulta com o médico. Fazer tudo isso com uma vontade tremenda de morrer, de dormir o dia todo, de atropelar alguém. É viver com uma tristeza involuntária sempre renascendo no peito. E não deixar a vida parar: tenho artigos pra ler, gaveta pra arrumar, dissertação pra escrever.
Se ao menos eu conseguisse chorar. Sei lá pra quê, só pra aliviar um pouco. Talvez fosse um caminho. Já tentei tanta coisa: bebida, exercício, jogo.... Sou dispersa demais para me concentrar num jogo de cartas e partidas de buraco são eternas e me deixam aflita. Bebida me dá ressaca, sem contar que é sempre assim : beber e ligar pra ele. Por isso a corrida me agrada. Quando pego o tênis, eu quero mesmo é fugir de mim. É na hora da corrida que fico um pouco mais esperançosa, porque botei na cabeça que um dia vou conseguir mesmo correr tanto, mas tanto, que vou me deixar pra trás. E quando eu estiver bem longe de mim, vou ser igual àquelas pessoas que são mais vivas do que eu, que têm sempre alguma coisa pra comemorar. Mas o raio do vírus não deixa a gente sair pra correr, não deixa a gente sair pra nada. Não dá pra eu me esquecer de mim.
Quem sabe um dia não vou não acordar cinco vezes no meio da noite pensando. Nem vou deitar pensando, acordar pensando. Outro sinal da minha arrogância: eu penso muito e quero entender. Mas não entendo nada e isso me enche mais de tristeza, de tanta tristeza que me dá vontade de sair de mim. Eu quero ir embora de mim e pensar menos, e ser humilde e deixar que os outros entendam aquilo tudo que não é feito pra ser entendido.
"Decido eu mesma engendrar lendas e episódios que me são atribuídos. Sempre tendo como desculpa a condição de escritora, a quem é dado o privilégio de inventar sem sofrer sanções morais". - Nélida Pinon
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sexta-feira, 18 de junho de 2021
sábado, 16 de junho de 2012
SEM SENTIDO
Seu lugar não é aqui. Você é maior do que esta cidade. Qualquer um daria
emprego para você, volta pra lá.
Ouço estas frases com uma periodicidade bem maior do que posso suportar.
Ms finjo prestar atenção.
Fica lá o outro falando e eu fazendo de conta que tô muito da feliz da
minha vida vivendo deste jeitinho bege.
Ou então só analiso e tento entender o porquê de tanto confete pra cima
de mim. E tudo o que percebo é que isso tudo me faz lembrar que um dia eu já
tive uma vida de verdade. Se eu sentisse alguma coisa, tenho certeza de que
doeria pra caramba. Vinagre nas minhas chagas.
Então, não falo nada. Só peço aos céus para aquele blábláblá acabar
logo.
– Cala essa sua boca porque você não tem a menor ideia do que tá
falando.
E as palavras soam como um castigo por todo aquele tempo que eu enganei
todo mundo fingindo ser uma profissional super competente, uma garota alegre e
de bem com a vida.
- Dá pra calar a boca, cacete? Enganei um monte de gente durante muitos
anos e de repente eles descobriram e acabaram com minha festa. Será que só você
não sacou isso?
Eu sou uma fraude. Uma ferida que não sangra. É como se eu usasse
sandália rasteira porque é moda, mas uso porque não sei andar de salto alto. Eu
engano o tempo todo.
Nem escrever, que era mais um jeito que inventei de manter a personagem competente-sensível-cult,
eu consigo mais. Fraude. Sou uma fraude que deu certo por um tempão e só você e
meia dúzia ainda não percebeu.
Dá vontade de gritar, de pedir pra não reparar bem em mim e perceber que
a pele bonitinha é maquiagem. Dá vontade de ligar pra minha melhor amiga e
falar “preciso de colo. Tô na merda”. Mas você acha que eu faço isso?
Se nem chorar sozinha eu consigo, imagina abrir o jogo e tirar o blush
pra mostrar meu rosto pálido e sem graça, que nem a minha vida.
Ficar triste era coisa que eu fazia no passado, quando eu enganava as
pessoas e até a vida. Ficar triste era transitório. Hoje é rotina, normalzão
isso. Se eu achasse que valeria a pena ter sentimentos, diria que ando muito
triste. Mas eu não sinto necessidade de falar isso. Eu não sinto.
Poderia aproveitar que escrevo direitinho e extravasar todo este vazio
aqui do meu peito. Podia inventar estórias dramáticas e ser a mocinha que
sempre é salva pelo bondoso e belo mocinho. Ou então ser aquela irônica que
transforma as merdas da vida em textos cheios de efeito e muita graça. Mas se
eu fizesse isso, se eu me dispusesse a me expressar através da escrita, teria
de me defrontar muitas vezes comigo e isto seria o caminho mais curto para um
belo surto psicótico e depressivo. Seria também um jeito babaca de fazer poesia,
o jeito mais escroto de poesia e eu jamais faria isso: combinar palavras certas
e cheias de significado para falar sobre meu vazio e minha solidão. Eu tocaria o
coração das pessoas com isso. E daria continuidade ao grande teatro que
construí nos últimos anos. Não tenho mais saco pra isso.
Nem falar mais com você eu tenho vontade. E não é falta de amor, é medo. Porque eu já perdi tanta coisa que constatar que também perdi
você seria uma dor muito mais forte do que eu poderia sentir.
E para conseguir levar esta vidinha de
passados, precisei parar de sentir.
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