"Decido eu mesma engendrar lendas e episódios que me são atribuídos. Sempre tendo como desculpa a condição de escritora, a quem é dado o privilégio de inventar sem sofrer sanções morais". - Nélida Pinon
segunda-feira, 23 de janeiro de 2023
Um poema da Florbela Espanca - A nossa casa
A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
UM POST SÓ PRA VOCÊ
Em tempos de megaeventos, entretenimentos high tech, super produções, é bom experimentar passeio na rua histórica, com o dia chegando de mansinho, em silêncio.
Nesses dias em que só se fala de crise, faz bem conversar sobre cachoeira e pipas.Faz bem sair de casa mesmo sem vontade, de vez em quando.
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
Martha Medeiros - Um texto que podia ser meu
SE EXISTE UM TEXTO NESTE BLOG INTEIRINHO DEDICADO A UMA PESSOA, É ESTE. NÃO FOI ESCRITO POR MIM, MAS SINTO COMO SE FOSSE ESCRITO PRA MIM. DE MIM PRA VOCÊ. COM O CARINHO DE SEMPRE. SIM, CARINHO, AFETO E QUERER BEM NÃO SE DILUEM DE UMA HORA PRA OUTRA.
"Deixei a porta aberta e você entrou. Ou será que abri a porta justamente para você (só servia você) entrar, invadir ou chegar? Sua falta de jeito com a delicadeza era parecida com a minha e achei tão bonitinho isso. Nem grosso demais e nem polido demais, porque pisar em ovos é um saco.
Não te pedi nada, só que me tratasse bem. Até hoje não te cobro e nem peço nada que seja esquisito demais ou dê muito trabalho. Não grite comigo porque eu também sou pavio curto. Respeite minha preguiça matutina e eu entro no seu ritmo também preguiçoso. Conte suas novidades, faça massagens nos meus pés e não tenha medo de quem toma Rivotril pra dormir.
Virei presa fácil, barata até, você se esforçará pouco para me ter para sempre. Acredite quando eu digo que é melhor com você. Não duvide do que eu digo mas prometo que se a verdade for chata, feia e boba, eu escondo. Não me conte as suas tristezas porque eu também disfarço as minhas. Prometo segurar o choro, mas se ele vier, fica do meu lado, segura a minha mão. Tem hora, quem hoje, que eu só preciso que você segure na minha mão.
Não tente me agradar porque eu odeio gente boazinha. Seja mais inteligente do que os outros e diga as coisas de que gosto de ouvir. Vou te achar o máximo. Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a mesmice, xingue a vida doméstica e também os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes. Me enlouqueça não ligando de vez em quando. Mas me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ... Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia... isso a gente vê depois ... Nunca deixe eu dirigir o seu carro, diga que não confia, só pra eu ficar meia hora com raiva de você. Seja só um pouquinho canalha e olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos.
Me trate como uma rameira, mas só quando estivermos deitados. No dia-a-dia fale palavras doces, principalmente hoje. Não me magoe com ironias porque não sou nem um pouco altruísta e posso sentir raiva por ter deixado a porta aberta."
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
Um texto da Fernanda Young
Bom, você não foi. E não ligou. A mim, só restou lamentar a sua falta de educação. Imaginando motivos possíveis. Será que você não foi porque realmente não pôde ou simplesmente não quis? Será que não ligou para não me magoar ou justamente o inverso disso?
Estou confusa, claro. Achava que você iria.
Tanto que eu aguardei sua chegada por mais minutos do que deveria, inventando desculpas esfarrapadas para mim mesma. O trânsito, o horário, a meteorologia. Qualquer pneu furado serviria. E até o último instante, juro, achei que você chegaria a qualquer momento. Pedindo perdão pelo terrível atraso. Perdão que você teria, junto com uma cara de quem está acostumada, e assim encerraríamos o assunto. Mas você não foi.
Esperei outro tanto pelo seu telefonema, com todas as esclarecedoras explicações. Para cada razão que houvesse, pensei numa excelente resposta. Para cada silêncio, um suspiro. Para cada sensatez de sua parte, uma loucura específica da minha.
Se você tivesse ligado do celular, eu seria fria. Se tivesse ligado do trabalho, seria levemente avoada. Se a ligação caísse, eu manteria a calma.
Foram muitos dias nessa tortura, então entenda que percorri todas as rotas de fuga. Cheguei a procurar notícias suas pelos jornais, pois só um obituário justificaria tamanha demora em uma ligação.
Enfim, por muito mais tempo do que desejaria, mantive na ponta da língua tudo o que eu devia te dizer, e tudo o que você merecia ouvir, e tudo. Mas você não ligou.
Mando esta carta, portanto, sem esperar resposta. Nem sequer espero mais por nada, em coisa alguma, nesta vida, para ser sincera. No que se refere a você, especialmente, porque o vazio do seu sumiço já me preenche; tenho nele um conforto que motivos não me trarão.
Não me responda, então, mesmo que deseje. Não quero um retorno; quis, um dia, uma ida. Que não aconteceu, assim deixemos para lá.
Estaria, entretanto, mentindo se não dissesse que, aqui dentro, ainda me corrói uma pequena curiosidade. Pois não é todo dia que uma pessoa não vai e não liga, é? As pessoas guardam esses grandes vacilos para momentos especiais, não guardam?
Então, eis a minha única curiosidade: você às vezes pensa nisso, como eu penso? Com um suave aperto no coração? Ou será que você apenas esqueceu de ir?
segunda-feira, 2 de janeiro de 2023
A sua ausência deixou a festa mais bonita - Renato Essenfelder • 2 de jan.
A sua ausência deixou a festa mais bonita.
Desculpe, eu sei que ninguém gosta de ouvir isso, mas é verdade. Você era o convidado por educação, sem muita sinceridade, que a gente chama porque senão fica chato. Porém desagradável. No fundo (e não tão fundo assim), a gente não queria mais te ver.
A gente preferia, inclusive, nunca mais te ver.
Pensávamos que a festa demandava a sua odiosa presença, pensávamos que sem você a festa não era completa. Parecia importante que as trevas aparecessem apenas para serem inundadas de luz. Parecia importante a sua presença apenas pela liturgia da cerimônia, apenas para dizer adeus, goodbye, auf wiedersehen, sayonara. Mas, na verdade, não era.
Que presente maravilhoso, a sua ausência. A festa ficou mais bonita sem você.
Sem você as pessoas puderam dançar mais soltas, beijar mais gostoso, falar em voz alta, celebrar até o amanhecer. Sem você ficou mais fácil perceber que somos grandes, que somos belos, que somos felizes quando não somos oprimidos pela sua sombra sinistra, seu bafo de naftalina, sua frouxidão e seu cheiro de carne decomposta que, francamente, já nos enojava - mas que aturávamos, ou fingíamos aturar, em nome da civilidade.
Mas não havia civilidade possível na sua presença, apenas falsidade e uma inexplicável pulsão de morte - quando não a própria, que nos sentíamos mal só de ouvir a sua voz, a de tudo mais que vibra no país: natureza, cultura, música, povo.
Na presença de um homem tão minúsculo, todos nós nos apequenávamos, às vezes sem nos apercebermos disso. O senhor diminuía não apenas o Brasil, mas a gente brasileira. Que bom ver que somos tantos e tão fortes, longe da sua influência macabra. Que orgulho.
Vá com Deus, homem minúsculo, e que a Justiça dos homens o encontre onde quer que você esteja.
O amanhã será duro, o resgate da nossa dignidade não será fácil - nem rápido. Mas a festa já ficou mais bonita sem você.
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
MORAR SOZINHA É UMA ... BELEZA!
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022
Como ser uma Princesa sem sapatinho de cristal?
Não tá me reconhecendo? Olha, tudo bem: sei que não tenho olhar frágil, nem uso laço de fita no cabelo, nem tenho o andar suave, mas sou eu, acredita.
Me tira daqui. Me salva deste castelo assombrado. Só você pode me salvar.
Ok, sei que fui eu mesma quem construiu esta torre inalcançável pra ficar isolada, mas agora eu quero descer. Olha pra cá que eu tô falando com você!
Eu sei que foi burrice envenenar minha própria maçã e por isso mereço dormir este sono de 100 anos, mas seu beijo pode me despertar. Só seu beijo.
Puxa! O que custa você acreditar em mim? O fato de eu não usar sapatinho de cristal não quer dizer que deva ser condenada a ficar à mercê de dragões malvados. Olha, não é fácil usar sapatinhos de cristais. Principalmente quando se calça 39. Mas, vai por mim: sou eu mesma. Sua Princesa.
Para. Não precisa jogar na cara que não tenho absolutamente nada de Princesa, já sei disso há muito, muito tempo. E, pra seu governo, vivi muito bem até agora assim. Ser Princesa é muito desgastante quando se tem que ganhar o próprio salário, pagar mil contas e tudo o mais. Sim, rapazinho, eu mato um dragão por dia. Mesmo assim eu preciso que você me salve.
Me tira daqui, cara. Já tô perdendo a paciência e esse lance de ficar suplicando não faz minha cabeça. Além do mais, se eu precisar insistir muito vou acabar me convencendo de que é mentira essa estória de ter meu próprio Príncipe. Quebra meu galho e me tira daqui.
Me salva desse mar de lama, onde tem um monte de sapo que só serve pra uma noite e também pra me sentir culpada. Olha, embarquei nessa de ser salva pelo Príncipe porque me falaram maravilhas sobre você e seus nobres colegas. Adorei aquela parte do “Felizes para sempre”. Agora você tem de colaborar. Pra falar a verdade, eu até que me dou bem com alguns dos sapos desse imenso brejo que cerca minha vida, por isso mantenho o telefone deles na minha agenda. Ou melhor, no IPhone. Afinal, sou uma Princesa (sou?) moderna.
Ai, ai, ai. Como é? Vai ficar aí parado enquanto eu vejo todas as outras Princesas se dando bem? Vai fingir que não é com você que eu tô falando, enquanto vejo daqui de cima o Grande Baile cheio de casaizinhos dançando lindamente? Pô! Que sacanagem.
Bateu uma dúvida agora. Responde aí: você tem várias Princesas ao longo da vida ou será que existe uma Princesinha feita sob medida pra você? Tô perguntando isso porque eu já descobri que na minha vida só existe um Príncipe (você!), por isso os outros têm cara (alguns têm, inclusive, caráter) de sapo. Olha só, raciocina comigo: se você tem sua Princesa-metade (e obviamente sou eu) como você sai por aí beijando todas as outras? Ah, deixa disso: não tô com ciúmes. É curiosidade. Será que você não se sente perdido também? Será que não lhe dá aquela sensação de que seu pedaço de bolo veio sem recheio, ou que seu Sundae tem menos calda de chocolate? Sim, porque é exatamente isso o que eu sinto: na minha caixa sempre falta um bombom. Meu biscoito tem menos cobertura. É assim que eu sinto o mundo.
Mentira! Não sinto o mundo todo assim, só o que diz respeito a beijos e aquelas outras coisas tão gostosas quanto bombom ou sorvete. Sinto que falta o melhor, falta o complemento. Por isso, chamos-os de sapos. E você, que me fará sentir, finalmente, o gostinho daquilo que tava faltando, eu chamo de Príncipe.
Vai continuar ai, né? Já entendi: se eu quiser descer daqui desta torre gelada, que eu desça com meus pés. Até que você tem razão: fui eu que subi sozinha. Mas, puxa vida, custa me ajudar?
Ah! Quer saber de uma coisa? Agora quem não quer que você me salve, sou eu, tá legal? Fica aí, assiste seu futebol, toma sua cerveja e eu me arrumo. Já fiz coisas muito mais difícil do que despertar de sono de 100 anos. Não preciso de beijo de ninguém.
Eu só queria saber porque você não quis me salvar. Será que laço no cabelo é fundamental? Princesa de cabelo curto pintado de vermelho não tem chances de ser salva? Ou será que a tal aparência frágil e indefesa é que é fundamental? Mulher que sabe descer de torre sozinha tem mais é que ficar com sapo. É isso? Tenho de ser mais calminha, mais passiva e viver à sua sombra? É isso que, no fundo, esperam da gente.
Príncipe, eu queria de verdade que você me salvasse de todos aqueles feitiços, dragões e sapos horríveis. Queria mesmo. Mas se o preço a pagar é perder minha identidade e ser do jeito que dizem que eu tenho de ser; é me comportar como boa moça e só fazer o que me permitem, bem, se o preço é esse, lamento informá-lo, mas eu tô fora!
terça-feira, 1 de fevereiro de 2022
Quantas marcas
sábado, 19 de junho de 2021
Aniversário do Chico Buarque, o poeta
Hoje é aniversário do Chico Buarque, um dos meus poetas prediletos. Já se falou tanto sobre ele, que não há mais nada inteligente a acrescentar.
sexta-feira, 18 de junho de 2021
Moço, me dá aí dois quilos de humildade, por favor.
Só meu lado racional não me deixa fazer o que mais desejo de vez em quando: pular da janela, me jogar na frente de um ônibus. Ou dormir por muito, muito tempo, até a tristeza passar. E como ela não passa, me vejo por aí desejando quebrar tudo pela casa, atropelar alguém, me lixar pro que pensam de mim. A consciência me freia e, resignada, passo meu blush e um batom cor de boca e vou por aí, com a tristeza camuflada.
Quando sinto esta tristeza de agora, quase não suporto acordar. Detesto o sol entrando pela minha janela e sinto que vou explodir em lágrimas. Mas já não choro há tanto tempo. Não adianta chorar quando a tristeza é daquelas muito, muito grandes. Chorar, nessas horas, só aumenta o desespero porque me faz lembrar que não vai resolver porra nenhuma.
Além de saber que não resolver, ainda tem o agravante: como uma criatura nariz empinado como eu, arrogante como eu, vai explicar que passou horas chorando? Arrogância é isso aí: esconder até o que mora em mim, o que é tatuado em mim. Meu nariz empinado, meu ar de quem vence todas jamais me permite dizer nem que peguei o caminho errado, imagine deixar que vejam como sou quase só tristeza. Tem gente que vive experiência de quase morte; eu vivo experiência de quase vida, que é quando dou um jeito de maquiar minha tristeza. Seja gastando uma grana no shopping, seja viajando pela Europa, ou só dizendo que está tudo bem. Mas quase nunca está tudo bem.
O bombeiro consertou o vazamento do banheiro e paguei com dinheiro. Chegaram as cortinas novas e ficaram ótimas. O marceneiro fez uma mesinha de centro linda, do jeito que eu desenhei. Mas e daí? Não gostei de verdade. Não senti nem uma pontinha de alegria.
Estou aqui trancada em casa, nesse isolamento imposto por um vírus maior do que eu. Ontem terminei um livro ótimo. Hoje combinei de assistir a um filme cujo texto já conheço e adoro. Pode ser que fique quase feliz, afinal, filme com ele tem tudo pra ser o melhor programa do mundo. Pode ser que me alegre. Mas só de pensar que posso ficar felizinha, já fico mais triste do que antes, porque depois de um surto de alegria vem a tristeza de sempre. Vem como nunca. Dá vontade de não rir só pra não ter que chorar. Segunda-feira tenho médico on-line. Coisas da quarentena, e me parece um programa bem mais animador, afinal, à minha tristeza somam-se o desconforto dessa nova forma de consulta sem olho no olho de verdade.
Está decidido: não vou ver filme porra nenhuma. Ele nem vai se importar e isso me deixa triste pra cacete. Vou ficar aqui, de frente pra TV, letárgica. Triste profissional.
Ser adulto é isto. É dar bom dia pro vizinho no elevador, pagar conta pelo aplicativo do banco, esquecer-se da consulta com o médico. Fazer tudo isso com uma vontade tremenda de morrer, de dormir o dia todo, de atropelar alguém. É viver com uma tristeza involuntária sempre renascendo no peito. E não deixar a vida parar: tenho artigos pra ler, gaveta pra arrumar, dissertação pra escrever.
Se ao menos eu conseguisse chorar. Sei lá pra quê, só pra aliviar um pouco. Talvez fosse um caminho. Já tentei tanta coisa: bebida, exercício, jogo.... Sou dispersa demais para me concentrar num jogo de cartas e partidas de buraco são eternas e me deixam aflita. Bebida me dá ressaca, sem contar que é sempre assim : beber e ligar pra ele. Por isso a corrida me agrada. Quando pego o tênis, eu quero mesmo é fugir de mim. É na hora da corrida que fico um pouco mais esperançosa, porque botei na cabeça que um dia vou conseguir mesmo correr tanto, mas tanto, que vou me deixar pra trás. E quando eu estiver bem longe de mim, vou ser igual àquelas pessoas que são mais vivas do que eu, que têm sempre alguma coisa pra comemorar. Mas o raio do vírus não deixa a gente sair pra correr, não deixa a gente sair pra nada. Não dá pra eu me esquecer de mim.
Quem sabe um dia não vou não acordar cinco vezes no meio da noite pensando. Nem vou deitar pensando, acordar pensando. Outro sinal da minha arrogância: eu penso muito e quero entender. Mas não entendo nada e isso me enche mais de tristeza, de tanta tristeza que me dá vontade de sair de mim. Eu quero ir embora de mim e pensar menos, e ser humilde e deixar que os outros entendam aquilo tudo que não é feito pra ser entendido.
PERSONAGENS
Mas aí vieram aqueles fantasmas de sempre, o romantismo descarado e sem talento pra ficar na dele: voltei a pensar, a questionar e aí fodeu de vez. Meu grande inimigo mora em mim. Uns chamam de vocação, dom, talento. Eu chamo de fodição. Eu odeio saber escrever, saber pensar, saber sentir o mundo todo desse jeito que eu sinto.
Eu odeio saber como transformar uma quase-tragédia num texto engraçadinho só pra não dizer que sou uma azarada e tudo na minha vida chega de um jeito, digamos, mais difícil. Se pudesse escolher, não floreava minha dor e nem a transformava numa historinha bonitinha.
Já tentei fugir dessa mania que nasceu comigo de pensar minha história com olhos de quem está de fora e fazer de mim mesma uma personagem mais legal, mais interessante. Só que manias são mais fortes do que eu. Meus vícios são mais fortes do que eu e quando fico muito tempo sem escrever, fico chata.
Eu não gosto de escrever, acredite você ou não. Eu preciso escrever. É diferente, não acha? E não escrevo pra ninguém ler, não. Escrevo pra me aturar, porque eu mesma não me aturo.
Desde que assumi que meu coração não pode viver vazio, passei a sentir mais. E isso faz acender a luzinha vermelha: CUIDADO, SOFRIMENTO A VISTA.
Tenho medo desse sofrimento que pode embarcar em qualquer estação. Tenho medo do sofrimento que se sentou ao meu lado. E tenho medo, muito medo, de pensar no sofrimento disfarçado, que está logo ali.
Ouço de vez em quando "você é corajosa, se expõe tanto. Não tem medo?". Tenho, tenho medo de tudo. E mais ainda de me confundir com as personagens. Pensando bem, melhor que seja assim, porque meu maior medo é o de perceber que minha vida é chata, entediante. Por isso, nas minhas estórias serei sempre a personagem que vive todas as emoções. E que fica com o mocinho no final.
quinta-feira, 17 de junho de 2021
Porque eu nunca deixei de te amar
Pode parecer promessa
mas eu sinto que você é a pessoa
mais parecida comigo
que eu conheço
só que do lado do avesso.
Pode ser que seja engano
bobagem ou ilusão
de ter você na minha
mas acho que com você eu me esqueço
e em seguida eu aconteço.
Por isso deixo aqui meu endereço
se você me procurar
eu apareço
se você me encontrar
te reconheço.
Alice Ruiz
quarta-feira, 16 de junho de 2021
Convite ao naufrágio
Traz as roupas
(poucas).
Vinho, água e mel
(muito).
Poemas e livros,
lavanda, lírios.
― da música cuido eu.
Traz velas, castiçais,
mapas rasgados,
bússola
(sem Norte).
Te espero.
Cartas náuticas sobre o corpo.
Olhos a bombordo
no cais.
Te espero.
(Karina Gercke)
terça-feira, 15 de junho de 2021
Enquanto ele não chega
Minha última paixão durou 10 meses. Quase um ano de adrenalina pura: frio no estômago, downloads de música para ele, contagem regressiva para o próximo encontro. Uma delícia de vida. Até que a chama foi apagando. A chama dele, é bom deixar claro.
Acabamos. A paixão continuou. Mas meu lado capricorniano fala alto de vez em quando e me faz usar a razão: não vale a pena estar com alguém que não vai feliz da vida ao cinema comigo. Não vale à pena fazer-me cega para a falta de paixão do outro. Semanas de choro e muito colinho de amigas depois, reencontrei meu eixo e fiquei feliz por saber que fiz algo tão bom para minha autoestima, para meu amor próprio. E, principalmente, por ver que não deixei uma linda história de paixão, sexo e desejo virar uma coisa mais ou menos. Nosso romance teve um infarto fulminante, não precisou ir pra UTI, não agonizou. E hoje é uma linda lembrança.
Ok, eu sei que você vai pensar "pô, Aline, você deveria ter investido mais" ou "Ai, você desiste muito fácil". Não, eu não desisto fácil, eu só aprendi que para mim "pouco" nunca é o bastante. Eu quero tudo, eu quero muito. Sim, você adivinhou: eu sou exigente. Estar com alguém que não está comigo me faz um mal imenso. E há algum tempo aprendi que sou eu que preciso cuidar de mim, não posso deixar essa responsabilidade nas mãos do outro. É muita responsabilidade para ele e muita burrice da minha parte.
Geralmente, condicionar a felicidade ao fato de ter um namorado faz mal à minha saúde mental, à minha autoestima. E quando a paixão vai ladeira abaixo, me dá uma vontade imensa de desistir do amor. E se tem uma coisa a que me recuso é endurecer meu coração. O dia que isso acontecer, vou perder o que tenho de mais bonito em mim: a capacidade de amar. Então, prefiro eu mesma cuidar de mim, ser seletiva, cuidadosa. Sou especial demais para me entregar a qualquer um. Da mesma forma que abandono um livro ruim, não uso uma roupa que não me cai bem, também dispenso um namoro morno. Sou especial demais e qualquer hora vai pintar um carinha apaixonado por mim. Enquanto isso, vou curtindo outras paixões: meus livros, meus textos, meus amigos.
sábado, 12 de junho de 2021
Parei de fingir e espero que não me julguem
Se toda panela tem uma tampa, cadê a minha? Eu quero um amor de presente, Destino. Eu quero ser amada de verdade, Santo Antônio. Eu quero que o mito da "mulher moderna" vá se foder!
E já que tô ficando cafona, vai ser por completo: quero um amor pra ver filme juntinho, pra me chamar de "Mô" e me levar pra casa da mãe no domingo. Vamos almoçar macarronada com frango com um monte de sobrinho e cunhada.
Parei de fingir e espero que não me julguem. Parei de fingir que tá tudo bem ser dona do meu nariz e fazer todas as escolhas eu mesma. Cansei. Não quero mais viajar sozinha. Não quero mais pedir prato pra uma pessoa só e comer no sofá. Não quero nunca mais que me apresentem um amigo que "tem tudo a ver comigo" e então descobrir que ele até que é legal, mas não bateu.
Quero ouvir "não precisa" quando eu começar a Dieta das Proteínas e "pra quê?" quando eu cismar fazer lipo no culote. Quero telefonemas no final da tarde para saber se tá tudo bem. "Tá! Tá tudo bem, meu amor! Com você tá tudo sempre bem".
Quero um homem forte o bastante pra aguentar minhas contradições e não se assustar com minhas carências. E sensível no ponto certo para perceber que sou assim mesmo e que, de vez em quando, fico melancólica.
Quero dizer na frente do Padre que vou respeitá-lo e amá-lo até o fim da nossa vida e dizer, com certeza plena, que nosso amor vem de outras vidas.
Quero cafuné quando brigar com minha mãe ou fizer alguma merda no trabalho. Sexo selvagem quando beber vinho e fazer amor depois da missa.
Vamos jantar juntos, com mesa posta e arroz integral. Quero, mais do que tudo, olhar para ele de repente e pensar "você é o homem que esperei enquanto me fingia de mulher independente".
E então, quando minha próxima amiga disser que vai se casar, eu a abrace forte e diga de todo meu coração "seja tão feliz eu sou".
quinta-feira, 10 de junho de 2021
FRAZES KAMIKAZES - Ou, como espantar um carinha imaturo
sexta-feira, 21 de maio de 2021
Carta à uma amiga moderna e machista
segunda-feira, 3 de maio de 2021
PRINCESA TOMA RIVOTRIL?
Papo vai, papo vem, tomei coragem e falei: Dr., fiquei mal estes dias. E danei a falar da onda que me sufocou só porque eu desisti de brincar de ser feliz ao lado do cara que escolhi pra ser meu príncipe.
Geralmente, não falo exatamente o que me deixou triste, o que tá me afligindo, tento ser superficial, como quase tudo (e todos) por aí. É que falar da dor faz a maldita aumentar. Eu falo e fico pensando nas palavras e elas saem cortando o resto do coração que ainda tá intacto. Ou quase.
Mas já que comecei, continuei e falei tudo: fiquei mal pra cacete, até chorei. Era feriado e o mundo estava comemorando os dias de folga, só eu que fiquei em casa, nem telefone atendi. Tudo por causa dele e dessa mania de me apaixonar. E quanto mais eu pensava em como estava triste, deprimida e pedindo comida por telefone, pra não ter que encarar a realidade lá fora, mais eu ficava puta comigo mesma. No início tentei aquele blablablá: olhar tudo o que eu tenho, pensar em quem não tem nada, olhar as vítimas da enchente e dar graças a Deus por morar no 8o. andar... De vez em quando, isso melhora o astral. Mas desta não rolou. Além de deprimida eu me senti mega culpada por ter o armário cheinho de roupa bonita, ver o Cristo da janela e, mesmo assim, estar ali, letárgica, sem vontade nem de ver novela.
Falei tudo pro Doutor.
Falei que senti vontade de ter morrido no acidente, de não ter voltado da Europa e que tudo perdeu o sentido.
Ele só me olhava, balançava a cabeça de vez em quando e eu também, de vez em quando, perguntava: tá prestando atenção? Então para de fazer cara de quem não tá nem aí. Sofri pra cacete e você é meu médico, tem a obrigação de me ouvir e aumentar a dose do remédio pra eu dormir mais e acordar feliz.
Como é que é? Não vai aumentar? Você não sabe o que é perder um amor, sacar que ele não tá nem aí pra você. Aposto que nunca tomou um fora. Tomou nada. E homem liga pra isso? Homem dá o fora primeiro, só pra ter o gosto de ver a gente sofrer.
Anda, me dá logo essa receita que eu vou embora. Tô perdendo meu tempo. Ainda bem que o plano de saúde reembolsa o valor integral da consulta. Era só o que faltava: eu ter que pagar pra ver você nem ligando pros meus problemas. Não tô fazendo drama. Tô é sofrendo. E para de falar assim, tá parecendo um ex-namorado que dizia que eu sofro mais a dor do que o problema. Eu sofro porque dói. Eu chorei porque doeu. Não consigo ser forte o tempo todo, e por isso você tá aí: pra me ajudar. Mas não tá ajudando e ainda tá fazendo pouco caso.
Se ele não gostava de mim, por que não falou? Eu sei que ele nunca disse que gostava, mas pensei que era coisa de homem, essa babaquice de não querer demonstrar o sentimento e tal. Eu? Eu também não falei que gostava. Só uma vez. E ele fingiu que não escutou.
Tá louco? Claro que ele não sabe que eu tô aqui, ainda mais falando dele. Se ele já percebia que eu era meio maluca, saber que tenho um psiquiatra ia ser a comprovação.
Não! Nunca falei que vinha aqui. Dizia que era dermatologista, ginecologista. Deus me livre deixar ele saber que eu tomo antidepressivo. Ele era meu príncipe, eu tinha que ser a princesa dele. E onde já se viu princesa doida?
Por que eu não escrevi o que tava sentindo? Porque não rola esse tipo de assunto, sei lá, é muito pesado. O pessoal que me lê entra lá no blog pra rir das coisas engraçadas que eu escrevo e não pra ver coisa sofrida. Você tem cada uma... Quem é que vai ser fã de doida, que se tranca em casa por dor de cotovelo, que toma rivotril e vai pro psiquiatra?
Não! Eu escrevo coisa legal de ler, pra descontrair. Sobre o que eu escrevo? Sobre as bobeiras que me acontecem. Nada especial. Falo de como é difícil convencer os outros que eu tô bem sem namorado, falo de como é uma merda morar sozinha e não saber trocar uma torneira, essas coisas de mulher moderna, que vive se fodendo pra dar conta de tudo. Só isso.
Não, eu não falo da minha vida. Só um pouco. Claro que já dei bandeira e falei mais do que devia, mas nem a pau vou dar na pinta assim. Eles pensam que sou engraçada e não louca.
Quer saber? Vou embora porque você tá mudando o assunto, não quer aumentar a dose do remédio e vou acabar perdendo a novela. E também porque você é homem e nunca vai entender o que é isso que eu tô sentindo. Tô sentindo, não: senti. Senti! Já passou.
É, faz mais de um mês que aconteceu isso. Ai, só de lembrar que perdi um final de semana prolongado por causa disso... ai, que ódio.
Claro que eu botei a fila pra andar, não sou freira, né? A vida é assim, a gente perde aqui, ganha ali. Odeio quando você diz "o tempo cura tudo". Não cura. Tem noção do tempo que perdi sofrendo por ele? Ele, o ... o... Você sabe quem.
Doutor, só uma coisa, aqui entre nós: eu sou normal? Responde, cacete! Para de rir assim. Tô perguntando porque, de vez em quando, eu acho que sou tudo, menos normal. Uma criatura normal não faz um carnaval desses que eu fiz só por causa de um pé na bunda, né? Mas eu, eu, cara, eu transformo tudo numa novela mexicana. É por isso que te perguntei: sou normal?
Eu? Eu sei lá o que é ser normal. Certamente é algo beeeem diferente do que eu sou.
Como é que é? Ser normal é ser assim que nem eu?
Caramba, como tem gente doida por aí...
