quinta-feira, 28 de abril de 2011

Deixa eu te contar uma história?

Era uma vez, uma menina que tinha medo de algumas coisas: de cachorro, de dormir no escuro, mas o maior medo de todos, de todos mesmo, era de tomar injeção. Qualquer agulha, para ela, era do tamanho exato da maior dor do mundo.
Depois ela cresceu e deixou alguns desses medos na infância. Mas o medo de injeção cresceu junto com ela.
Ai um dia, quando ela já era adulta, fez uma cirurgia plástica. Como doeu a recuperação. Doía muito mesmo. Mais do que qualquer injeção.
Você é um menino esperto e já adivinhou que estou falando de mim mesma, né? Mas continua prestando atenção porque hoje eu quero te contar uma história.
Depois que eu fiz essa cirurgia, perdi o medo de injeção. Ou melhor, eu não sentia mais dor quando tinha de encarar uma agulhada.
Um dia eu sofri muito. Não foi só um dia, na verdade, foram muitos, inúmeros dias e eles nem cabem no calendário de tanto que se multiplicaram. Foi por causa de um namorado que foi embora. Mentira! Não foi só assim, não foi só ir embora: ele me magoou bastante e de várias formas antes de ir embora. E mesmo depois de partir, ainda me magoava. Por isso que eu sofri tanto, porque doía muito.
Depois, eu tive outros namorados. Alguns eu mesma pedi pra irem embora, outros foram sem nem me avisar. Quando isso acontecia, eu pensava “ai que droga, vou sofrer de novo”. Só que eu não sofria mais, porque não doía. Eu não sentia mais esse tipo de dor. Foi igual depois que eu operei e injeção parou de doer pra mim.
Sabe o que aprendi com isso? Que nosso corpo tem memória e balança: ele se lembra de uma coisa e, depois de pesar, ele compara com outra coisa.
Claro que essa história da balança e da memória eu inventei. Mas foi só essa parte. É que, às vezes, inventar histórias é melhor do que não fazer nada. Pode ser a história mais boba do mundo, mesmo assim faz bem. Sei lá porquê. Ainda não tive tempo de pensar nisso.
A gente perde muito tempo pensando em coisas que não têm explicação. Agora eu queria te pedir uma coisa: pra você não perder tempo pensando que eu to triste porque você não quer ficar. Juro que não vou sofrer só porque eu queria uma coisa e você quer outra. Faz muito tempo que eu não sofro. Sofrimento de verdade foi só daquela vez, o resto é coisa à toa.
Às vezes eu ainda sofro aquela dor. Mas é só às vezes, e só aquela. Tem gente que gosta de sofrer junto. Eu não gosto. Nem junto e nem separado. E também não divido minhas dores com ninguém: se elas são minhas eu que as sofra quietinha. Ninguém fica sabendo.
Você falou que está preocupado comigo, mas não precisa. Puxa, será que você se sente responsável pela dor dos outros? Esquece isso: você já deve ter dores, que são só suas.
Você sabe guardar segredo? Quero te contar um: quando escrevo uma história, eu escrevo que tenho poderes mágicos, que nem super-herói ou fada madrinha.
Se na vida de verdade fosse assim, você não teria dor nenhuma, nunca. Nem eu. Nem ninguém nunca iria embora da minha vida. E meu coração ia ser imenso, sem buracos, pra caber todo mundo que eu amo, sem precisar escolher.
Hoje à noite teria uma festa linda. A gente ia dançar as músicas mais bonitas do mundo e só ia parar para ver a Lua. Depois a gente continuava nossa dança. Dançava até desmaiar, de prazer, de alegria. Porque nesta noite, ah! nesta noite não haveria nem dor e nem sofrimento. E muito menos culpa. E a noite ia durar muitos e muitos dias.
Mas eu não tenho poderes mágicos e nem tudo é do jeito que deveria ser. Nem toda noite tem lua, nem toda música é feita pra dançar... Então, se você quer ir embora, vai. Eu fico bem. Eu só acho que você vai perder uma companhia ótima para festas em noites de lua. Mas se já está na hora, vai. Leva uma flor amarela no bolso, pra de vez em quando você se lembrar de mim.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Só mais um

Fui me encontrar com você só porque não tinha nada pra fazer e estava com uma vontade danada de tomar uma caipirinha. Quando você sugeriu a Lagoa, o convite ficou irresistível, você há de convir. Você era só mais um. Entre vários. Ok, não precisa me olhar com essa cara de "Menina, tá pensando que você é quem?" , sei muito bem que não sou nenhuma Sheila Carvalho, mas tenho lá meu fã clube.

Você era só mais um com quem eu me encontraria, que me falaria que sou mais bonita pessoalmente e depois me ofereceria uma carona, porque não custa nada, a gente mora perto mesmo. Depois desse encontro, educada que sou, continuaria conversando com você no MSN por uns dias, cada dia menos. Depois te bloqueava. Mai s um.

Até que seu papo foi legal, sabia? Mais um com um papo legal. Não! Você era muito legal, gostei do seu papo. Fiquei à vontade com você, nem fiz gênero. E nossa conversa não parava, né? A gente tinha um monte de assunto e, de repente, vi que você não era assim tão comum. Já estava achando você diferente quando você me beijou: igualzinho aos outros.

Caramba! Que beijo, hein? Cara, você me beijou do jeito que eu gosto. Fazia um tempão que eu não beijava assim.

No dia seguinte eu só pensava em duas coisas: conversar com você no MSN e quando será que a gente ia se beijar de novo. Afinal, com um beijo daquele você começou a me parecer um pouquinho diferente, sei lá como, mas diferente. Mas aí veio a bomba: "vamos ao cinema?". Que sacanagem! Isso é muito clichê, muito comum. É... só mais um.

Êta filminho chato,né? Mas tava tão gostoso estar ali: carinho, abraço, risadas. Adoro homem alto e você é imenso. Nossa, como seu abraço também é gostoso! Dentro do carro, então, melhor ainda, né? Tira essa mão daí, garoto! Tá pensando que vai me comer hoje, né? Todos pensam. Pára. Não! Aí,não. Hum, beijo aí é bom...

Olha, eu nem tive tempo de te falar, mas eu não costumo dormir com um cara assim, que eu nem conheço direito, viu? Juro, nunca fiz isso. "Nunca" é mentira, mas não costumo fazer isso. Ainda bem que somos dois adultos, né? É bom quando dois adultos querem a mesma coisa: sexo. Pô, legal você entender que eu não sou "fácil" só porque eu gosto de sexo e porque dormi com você logo de cara. Que bom que somos adultos. Ainda não somos íntimos. Que bom! Porque eu tenho o maior medo de bancar a apaixonadinha depois de uma bela trepada. Maneiro você não levar a mal. Eu encaro isso superbem. Tô acostumada, não quero me envolver de verdade.

Ah! Queria te pedir só uma coisa: não faz mais isso,não. Esse lance de dormir abraçadinho é coisa de casal de verdade, você entende, não entende? É que eu não quero me envolver. Puxa! Será que vou ter que pedir pra você não me chamar de lindinha? Cara, eu sou foda, hein? Acredito logo... Pronto! Tá vendo o que você fez? Tá vendo minha cara de boba? Cara, agora eu já estou achando o mundo um lugar muito legal, colorido.

Acabei de ficar feliz por eu não ter feito uma pergunta pra você. Sim, porque geralmente eu já teria te perguntado há muito tempo "O que eu sou sua?". Ainda bem que segurei a onda, não perguntei. Ainda bem que a gente nem toca no assunto e não deu nome pra isso. Porque "isso" não tem nome, mas existe, né? E seja lá o que for, é gostoso pra caramba! É libertador. Foda-se se doer lá na frente, hoje ta bom demais. Tô até achando a vida o maior barato. Até quando você não está aqui é bom. Não ri de mim, não. É sério: quando você não está aqui é que eu sinto como "isso" é forte.

Não quero debochar de ninguém, mas tem um carinha aí que já me ligou umas 10 vezes. Teve outro que me mandou uma poesia bem bonitinha. Mas, tadinhos deles: não têm a menor chance. Aquele da festa só serviu pra me lembrar do quanto eu adoro você. E eu adoro tudo em você. Já te falei que sua alegria é linda, né? Mas aposto que não falei que eu adoro não tomar banho depois, só pra sentir por mais tempo seu cheiro em mim. Não te falei que adoro esquecer os joguinhos e falar deliberadamente, exaustivamente, repetitivamente que eu adoro ser sua.

A gente não deu nome a isso, mas o "não nome" disso parece muito com aquilo, como é o nome mesmo? Não vou nem falar porque não tem nada a ver. É só sexo, né? A gente só tem uma boa química na cama, nada mais. Não quero me envolver, você entende. Nem você quer. Você tem sua vida, eu tenho minha vida. Ok, minha vida ficou muito mais gostosa depois que eu virei sua. Mas acho que é só coincidência.

domingo, 24 de abril de 2011

Encontros

Estou há dias protelando um 1º encontro. Também tenho dados desculpas para um reencontro com um ex.
Primeiros encontros são sempre embaraçantes, é difícil me sentir confortável. Tenho um medo absurdo de acontecerem algumas coisas que detesto, como por exemplo o cara não beber. Encontrar-se a 1ª vez com uma pessoa exige uma certa dose de álcool, pra relaxar. Fico sempre na ansiedade enjoativa de eu estar vestida daquele jeito que os fashionistas dizem “casual”, que é o mesmo que “meio largada”: nada de grandes produções, pouca maquiagem, salto baixo e ele aparecer lá todo produzidinho. Ou o contrário: eu caprichar na produção e o cara aparecer “casualmente” vestido. Ok, é deste tipo de homem que eu gosto: dos que não ficam pensando em qual roupa usar e tal e tal.
Pra mim é sempre chata a hora de me arrumar: odeio o estilo patricinha, mas também não dá pra chegar lá no meu estilo “Babilonia Feira Hypie”. Dizem que homem não gosta. Tenho outro problema: encontrar um vestido ou uma camiseta que não deixe meus peitos saltando e que o façam virar a atração da noite. Este é um outro assunto que me embrulha o estômago: o tipo de homem que conversa com meu peito “Oi, peito da fulana,tudo bem?”.
Detesto aqueles silêncios constrangedores, quando ele se instala, sinto uma vontade doida de ir correndo pra casa. Então, pra não fazer isso e o cara achar que sou uma louca varrida, eu falo, falo qualquer coisa. Muitas vezes ganho fama de faladeira por causa disso. Puxa! É melhor alguém ter o que falar do que deixar aquele silêncio que parece até ter legenda “isso aqui ta um saco, né?”. Ou, o que é meu pior pesadelo: ele me beijar. Odeio beijos no 1º encontro. Sei lá o porquê, mas não gosto.
Outra coisa que me faz odiar ter aceitado o convite é quando o sujeito é metido a entender de vinhos. Puta que pariu! Já reparou como é patético? O cara pega a taça, faz um gestos (sempre muito esnobes) com ela, cheira o conteúdo... e faz um comentário: adocicado, amadeirado. Argh! “Garçom, traz um Plasil, por favor? Vou vomitar.” . É exatamente esse meu pensamento cada vez que isso acontece. Francamente...
Posso dizer que tenho uma certa prática em 1os encontros, então, dou sempre um jeito de saber aonde vamos. Se o cara me chamar pra ir a um restaurante japonês, recuso na hora. E nunca mais atendo telefonema do “homem-clichê”.
Com essa lista imensa do saco que, geralmente, é um 1º encontro, eu não deveria estar há semanas inventando desculpas para o tal ex. Afinal, além de gatinho, ele não comete estes pecados. Só que também tem umas coisas chatas em sair com o ex.
Tem uns que pensam que o tempo não passou e faz umas perguntas tão idiotas: e sua sobrinha, como ela está? Já está andando? Po! Ele conheceu a garotinha com 3 meses de idade e ela agora tem 4 anos. É falta de assunto ou ele pensava que ela tinha alguma deficiência?
Na verdade, a maioria pensa mesmo que o tempo não passou e assim que pede a conta do barzinho ou do restaurante, tem a certeza absoluta de que vamos para onde sempre íamos: ou pro motel ou pro meu apartamento. E faz isso com uma naturalidade irritante, sem nenhum clima de sedução ou coisa do tipo. Parece que faz parte do pacote: chopinho, tira-gosto e cama. Só que, geralmente, eu não sou consultada.
Ok, não sou tão bobinha a ponto de achar que a gente ia ficar só no tira-gosto. E, pra falar a verdade, eu caprichei na lingerie: se o ex não valesse uma transa, não valeria um reencontro. Mas custava a criatura me levar pra um motel diferente? O tempo, afinal, passou, né?

sábado, 23 de abril de 2011

A CULPA NÃO É MINHA!




O Alexandre Camerini, além de ser um fotógrafo nota 10, é tão espirituoso quanto eu. Então me mandou esta frase:


"Calorias são pequenos vermes inescrupulosos que vivem nos guarda-roupas e que durante a noite encolhem as roupas da gente.”


PS: Acho que ele gosta de mim, né? Bem, pelo menos me tirou a culpa: eu me esforço pra ficar em forma, mas o que se pode fazer contra vermes inescrupulosos?

VIDA QUE SEGUE

Hoje, depois de muito tempo, eu senti ciúmes. De tudo. Pensei em você boa parte do dia, mas pensei mesmo foi em você durante a noite. Entrando em casa com a mala da academia, despejando a mochila com o laptop e outras tranqueiras em cima do sofá.
Não deve haver nenhuma sobra minha por lá. A faxineira não é lá tão caprichosa, mas certamente já varreu todos os fios de cabelo vermelho, meu cabelo, que cai e deixa rastros. Sim, ela já varreu a casa milhares de vezes desde que estive aí pela última vez.
Minha mania de esquecer brincos deve ter causado algum desconforto em você. Será que incomodou a nova "Lindinha"? Por milésimos de segundos tenho uma vontade louca de que sim, ela tenha ficado puta da vida por ver um brinco que não era dela. Era meu.
Minhas fotos já saíram da estante. Será que foram para o álbum de "momentos felizes do passado"? ou estão lá, no fundão da gaveta, por justa preguiça de se lembrar de mim?
Entendo a urgência de se livrar de qualquer lembrança minha, afinal, faço parte do que quase aconteceu e não posso assombrar o que ainda pode ser. Mas que é a maior sacanagem do mundo ela dormir no lençol que escolhi com tanto cuidado, isso é.
Será que ela dá risada quando vê você procurando aquele documento? Ou será que ela faz o tipo séria e companheira e, em vez de ficar sentada na sua cama olhando e rindo, vai lá e te ajuda?
Senti um ciúme danado imaginando outra menina deitada no seu ombro, aproveitando o tanto que ele é grande e bom de se deitar. Pior do que isso: e se ela não der valor a isso?
Deitar nos seus braços era a apoteose do meu dia, era o momento do "sim", era tudo o que eu mais gostava na vida. Se essa louca não gostar do seu abraço eu adoraria que ela encontrasse uma camisola qualquer minha na sua gaveta. Só pra ela também sentir ciúme de você e talvez saber que tem uma "Lindinha" que daria tudo para ganhar seu abraço e esquecer o mundo.
Ciúme não leva a nada, ciúme é insegurança. Mas também é a verdade jogada na cara: a brincadeira acabou. Eu não tenho mais meu parque de diversões chamado seu corpo.
Meu momento ciumenta passou, mas não resolveu nada. Continuo pensando em você. E isso me faz lembrar que a vida às vezes sacaneia a gente. A vida, essa mesma que é tão boa de viver, me sacaneou. Deu um jeito de me tirar do jogo, fui pro chuveiro mais cedo.
Essa mesma vida vai me fazer acordar qualquer hora com a sensação de que já não sinto mais tanta coisa por você. Vai me fazer conhecer outro cara, que vai gostar de vinho tanto quanto você, ou melhor, tanto quanto eu. Porque a vida vai lavar você, mesmo que aos poucos, de minhas lembranças e eu vou voltar a seu eu.
Enquanto essa vida sacana não prova logo que é linda, aposto que vou ter de vez quando essa vontade de você. De você procurando documento perdido. De você roncando ao meu lado. De você dormindo com TV ligada. De você me fazendo gostar pra caramba da vida.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

BRINCANDO DE CONCURSO

Você, meu leitor querido, minha leitora fofa, que sempre deixa um comentário bacana (hoje recebi um da Nacilia que me deixou tão metida a besta...ai, ai). E também você que lê, relê e não deixa comentário, seja por vergonha, seja porque tem mais o que fazer mesmo, é com vocês que eu quero propor uma brincadeira.
No post anterior, anunciei a abertura do 6o Prêmio Off FLIP. Agora neste aqui eu peço sua indicação: qual dos textos publicados aqui (meus, claro!) eu deveria inscrever para concorrer ao Prêmio? Vote até o dia 29/04.
Sempre tive vergonha de me inscrever neste prêmio (acho sempre que não vou ganhar), mas há 2 anos minha avó pediu para eu me inscrever e ano passado eu não pude. Este ano conto com a ajuda de vocês: vocês indicam qual texto é mais legal e tem mais chance de ganhar. Eu me inscrevo e depois a gente ri junto do resultado. Combinado?

Prêmio Off Flip de Literatura abre inscrições

Já estão abertas as inscrições para o VI Prêmio Off Flip de Literatura 2011. Criado em 2006, o prêmio é um concurso de textos que busca estimular a criação literária em língua portuguesa. Embora seja uma ação independente, sem vínculo com a curadoria ou produção da Flip, ocorre paralelamente e conta com a parceria da Festa Literária para sua divulgação.



O Prêmio Off Flip já teve como participantes autores iniciantes e consagrados, e conquistou reconhecimento no Brasil e no exterior. Dividido nas categorias poesia e conto, abarca textos de autores residentes no Brasil, brasileiros que vivem no exterior e escritores de países lusófonos.


Os vencedores serão contemplados, nessa sexta edição do concurso, com prêmios em dinheiro, ingressos para as mesas da Flip e estadia em Paraty. Os 30 textos finalistas serão publicados em uma coletânea pelo Selo Off Flip.


As inscrições vão até o dia 30 de abril de 2011 e devem ser feitas pelo correio. O regulamento pode ser lido no site do evento: www.premio-offflip.net. A premiação ocorre durante a 9a Flip, entre os dias 6 e 10 de julho.

Muito longe.


Acordei antes das sete hoje. Não pode ser um bom sinal. Ou melhor, é um puta de um sinal: um mau sinal. Tô com problemas. Sonho ruim, pesadelo. Levantei, tomei meu banho de duas horas e nem ouvi direito o que o Boechat falava. Só pensava no sonho que tive.
Sonhei com um cara que amei (amei?). Combinávamos um passeio para um lugar que a gente chamava de fazenda, mas que não era fazenda porra nenhuma. Sei que não era porque eu odeio fazenda e tava feliz da vida por estarmos indo pra lá. Talvez fosse fazenda, sim, porque eu nem me importo pra onde vou quando vou com ele.
Tava todo mundo no carro, mas eu não conhecia ninguém desse "todo mundo". Era o "todo mundo dele": irmãos, filhos, acho que só. Aí eu cismei de levar minha moto. Fazenda sem moto? Já me privo tanto das minhas duas rodas que me libertam da vida chatinha que levo, não poderia perder a chance de pilotar numa fazenda: estradas calmas, só uma ou outra vaca passando.
Mas ele falou "não tem lugar pra você no carro". Eu sempre soube que não tinha lugar pra mim na vida dele, mas essa do carro me pegou de surpresa. No carro a gente leva qualquer um. Menos eu. Não tinha lugar pra mim.
-Então eu vou de moto.
- Você não sabe andar de moto.
- Moto eu não ando, eu piloto!
- Você é marrenta.
- Se não tem lugar no carro, que outro jeito ? Tem de ser de moto.
- Melhor você não ir.
Tem conversa que é melhor não insistir. Se eu tivesse ficado quieta quando ele disse que não tinha lugar no carro pra mim, me poupava de ouvir o que não queria. Só que meu problema é que eu ouço até o que não é dito. E entendo bem.
- Eu vou pra outra fazenda. Só pra não perder o final de semana. A mala tá pronta.
- Cê que sabe. Se cuida.
Aí pensei em tudo o que eu ia enfrentar: Via Dutra, caminhão, sol forte, chuva forte. Sinto muito frio nas mãos e não encontrei minhas luvas. Nem minhas botas de pilotar na estrada. Peguei um cachecol qualquer, meu capacete branco. Mas ele não era mais branco, ele perdeu a cor. Acabou o lugar no carro e a cor do capacete. Da estrada. Vai ver até a fazenda ia ser preto e branco. Só porque eu não tenho lugar no seu carro.
Eu nem fazia questão de sentar na frente: valia ir lá atrás com a criançada, cantando aquelas músicas de viagem longa. Minha estrada de repente ficou longa, porque você tava na outra estrada, oposta. E não vinha na minha direção. Perdeu o sentido. O final de semana perdeu o sentido. Pegar uma estrada de moto perdeu o sentido.
Pra quem eu ia contar que levei uma fechada de um caminhão e o cara arregalou os olhos quando viu como fui rápida na manobra? Você não estaria lá pra ouvir. Você nunca me ouve mesmo. Você nem acredita que eu saiba me desvencilhar de caminhões na estrada. Aposto que nem se lembra do dia que contei que fui pra Vitória de moto. Você não me ouve. Por isso valia ir lá atrás com a criançada. Se a gente cantasse alto aquelas músicas de viagem longa, talvez você me ouviria. Mas não tinha lugar pra mim no carro.
Fiquei em casa e falei mil vezes "eu odeio fazenda". Aí minha prima ligou. Ainda tá procurando apartamento. Separação já é foda, quando a gente tem de procurar onde morar é foda ao quadrado. A Fefê machucou o dedão de novo no basquete. Lembrei do dia que a gente foi com ela até o hospital e começou a rir quando falou na recepção "moço, ela tem de ser atendida urgente. Quebrou o dedão". Rimos tanto: quebrar dedão é emergência? É motivo de riso.
Eu pensava que a gente ria junto, pensava que as coisas que eu te contava eram coisas interessantes. Você nem ouvia. Você já me ouviu?
Naquele dia que bebi demais e falei na lata: te amo! Você ouviu? Naquele dia eu acho que você ouviu,sim, porque foi depois daquilo que eu perdi o lugar no seu carro. No seu quarto. Lugar na sua vida eu nunca tive, mas pensei que ia ter. Um dia. Só um dia.
Eu quero uma moto imensa, com todas as cilindradas do mundo. Eu quero acelerar tanto, mas tanto, quero ir pra bem longe desse meu mundo que tá cheio de lembranças e referências suas.
Eu quero ir pra um lugar onde eu nunca tenha dito que te amo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

TIA CORUJA NEWS INFORMA

Domingo, 10/04, nasceram em Laranjeiras meus 2 sobrinhos: João e Paulo, filhos da minha "irmã" Guigui e do Léo.



sábado, 9 de abril de 2011

Eu




Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minha fonte, meus favores
To regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

terça-feira, 5 de abril de 2011

MANTRA PRA NÃO FICAR CHATA



Ontem um velho amigo meu me falou "você já percebeu que em meia hora de conversa você já falou sobre mil defeitos seus?". De fato, no meio da conversa eu soltava umas frases do tipo "nossa! minha unha tá horrível", "meu cabelo tá sem corte" ou "tenho de voltar a malhar, tô gorda".
Quantas vezes, num dia, a gente não repete essas coisas negativa sobre nós mesmas? A gente fala isso com tanta naturalidade, que nem percebe e, quando vê, esse monte de reclamações já virou uma grande verdade na nossa cabeça.
Falei pro meu amigo que ele me deu um toque muito importante, pois eu, assim como um monte de mulher que eu conheço, ando precisando gostar mais de mim. Aí ele se lembrou daquele tal bilhete que um ex apaixonado me mandou e disse: faça dele um mantra! Acredite em cada uma das palavras. Se não, você vai virar uma chata de galocha.
Po! Gorda de cabelo sem corte e ainda por cima chata? É melhor fazer o que ele, que gosta de mim, mandou: Repetir que sou linda, maravilhosa e também ler este famoso bilhete.


"Será que você nunca reparou que pra mim não importa quanto você pesa? Em vez de tentar adivinhar isso, prefiro te abraçar e acariciar seu corpo macio. Aliás, adoro ver seu ritual de passagem de cremes: nas pernas, nos braços, na barriga. E quando você pede ajuda pra alcançar as costas, aí eu adoro ainda mais você.
Não sei seu manequim e nem me interessa. Sei o tamanho da sua cintura pelas minhas mãos e isso basta. E se alguma vendedora de roupa me perguntar seu tamanho vou responder: do tamanho exato para caber no meu abraço e dividir minha cama.
Aliás, foi uma resposta parecida que dei quando meu irmão perguntou como você era: do jeito que eu gosto. É, menina encanada com o peso e com o manequim, você é do jeito que eu gosto. Nunca reparou nisso, né? Por isso me deixa sozinho em casa e vai pra academia suar.
Não estou reclamando de você se cuidar. Eu só quero que você se goste desse jeito aí que você já é. E se você não acredita que é tudo isso, pergunta pra mim. Pra mim, viu? E não para nenhuma daquelas suas amigas do trabalho ou da faculdade ou sei lá de onde. Nenhuma mulher confessa para um homem que outra mulher é linda.
Para de me chamar de exagerado: eu acho você linda e pronto. Eu te olho diferente do que você se olha. Você está presa a padrões de beleza, já eu prefiro olhar pra você e descobrir cada dia um detalhe que te faz diferente e bela. Por exemplo, quando você toma uma decisão e nem me consulta: vai lá e faz. Eu faço cara de chateado mas acho um charme você saber o que quer. Também gosto de ouvir que eu não mando em você. Ah, e sua carinha de brava?É a coisa mais sexy que já inventaram. Aposto que tem amiga sua que treina na frente do espelho pra ficar igual.
Quer ver você me deixar com os quatro pneus arriados? É só dizer "Tô com fome de doce" e devorar aquela barra de chocolate sozinha, em 10 minutos. Quando você abre o armário e diz que não tem roupa e fica olhando pra 3 mil vestidos e saias e calças, eu penso "vou casar com essa mulher".
Mas sabe o que me atrai mesmo em você? É que mesmo dizendo que é muito branca, que tem celulite desde que nasceu e que precisa de outra lipo, contraditoriamente você desfila pela casa sem roupa, numa naturalidade que me deixa perplexo. Eu amo ver você nua, ver suas pernas brancas, não ver nem marquinha de biquine. Outras mulheres precisam de marquinha de biquine para serem sensuais. Você não. Você só precisa ser você. De cabelo castanho ou vermelho, longo ou curtinho. Você está sempre na moda. Você merece sempre uma poesia. E eu sou louco por você.

Meu mundo é pequeno demais até pra mim

Eu tinha tanta coisa pra falar pra você. Algumas são importantes, outras não muito. Mas todas tem a ver comigo.
Eu queria te pedir poucas coisas e tenha certeza de que são muito, muito importantes. Pelo menos pra mim.
Mas você acha que eu consigo? Você acha que aprendi a falar de mim? Da única vez que consegui, ganhei uma cicatriz. Doi até hoje.
Eram sobre cicatrizes, medos, estranhezas o que eu queria falar com você.
Será que você já conheceu meu lado de menina medrosa? Ou será que ainda está encantado com o mulherão que dá conta de tudo: da própria vida, das contas dos outros, que faz a hora e odeia ter de esperar acontecer? Este mulherão fascina, né? E seria uma baita injustiça dizer que é só uma máscara, um disfarce: ela existe, sim. E divide espaço com uma menina assustada, que tem medo de só mudarem os protagonistas, mas o enredo ser o de sempre.
E se eu der mole e você conhecer o lado mais frágil de mim, o lado meu que só pede, que precisa ouvir "tá tudo bem. Já passou"? E se você tiver medo dele? E se você se assustar?
Foge, não. Eu prometo não chorar na sua frente, que é pra não te assustar assim logo de cara. Mas se você sair correndo e sumir na estrada, eu entendo. Eu também não gosto dela.
É por isso que não vou falar nada do que eu tinha pra falar, embora esteja com uma vontade imensa de dizer logo que eu sou chata pra caramba, que preciso do meu canto e não sei dividir todo meu tempo, por mais legal que você seja.
Estou com vontade de falar logo, sem anestesia, que não vale muito a pena tentar entrar no meu mundo, porque nele não há lugar pra mais ninguém que não seja eu. É que comigo estão tantas e tantas tralhas, lembranças e que minhas pirações ocupam muito mais espaço do que eu mesma.
Então lá vai, já que eu gosto de acabar com aquilo que tem tudo pra dar certo: não cabe nem você e nem mais ninguém em mim. E se você insistir eu vou ficar mais distante.
Mas se você insistir um pouquinho mais, eu vou achar lindo e,quem sabe, possa até arrumar um lugarzinho pra você. Mas não insiste,não: já vi este filme antes. E eu morro no final.