sexta-feira, 22 de abril de 2011

Muito longe.


Acordei antes das sete hoje. Não pode ser um bom sinal. Ou melhor, é um puta de um sinal: um mau sinal. Tô com problemas. Sonho ruim, pesadelo. Levantei, tomei meu banho de duas horas e nem ouvi direito o que o Boechat falava. Só pensava no sonho que tive.
Sonhei com um cara que amei (amei?). Combinávamos um passeio para um lugar que a gente chamava de fazenda, mas que não era fazenda porra nenhuma. Sei que não era porque eu odeio fazenda e tava feliz da vida por estarmos indo pra lá. Talvez fosse fazenda, sim, porque eu nem me importo pra onde vou quando vou com ele.
Tava todo mundo no carro, mas eu não conhecia ninguém desse "todo mundo". Era o "todo mundo dele": irmãos, filhos, acho que só. Aí eu cismei de levar minha moto. Fazenda sem moto? Já me privo tanto das minhas duas rodas que me libertam da vida chatinha que levo, não poderia perder a chance de pilotar numa fazenda: estradas calmas, só uma ou outra vaca passando.
Mas ele falou "não tem lugar pra você no carro". Eu sempre soube que não tinha lugar pra mim na vida dele, mas essa do carro me pegou de surpresa. No carro a gente leva qualquer um. Menos eu. Não tinha lugar pra mim.
-Então eu vou de moto.
- Você não sabe andar de moto.
- Moto eu não ando, eu piloto!
- Você é marrenta.
- Se não tem lugar no carro, que outro jeito ? Tem de ser de moto.
- Melhor você não ir.
Tem conversa que é melhor não insistir. Se eu tivesse ficado quieta quando ele disse que não tinha lugar no carro pra mim, me poupava de ouvir o que não queria. Só que meu problema é que eu ouço até o que não é dito. E entendo bem.
- Eu vou pra outra fazenda. Só pra não perder o final de semana. A mala tá pronta.
- Cê que sabe. Se cuida.
Aí pensei em tudo o que eu ia enfrentar: Via Dutra, caminhão, sol forte, chuva forte. Sinto muito frio nas mãos e não encontrei minhas luvas. Nem minhas botas de pilotar na estrada. Peguei um cachecol qualquer, meu capacete branco. Mas ele não era mais branco, ele perdeu a cor. Acabou o lugar no carro e a cor do capacete. Da estrada. Vai ver até a fazenda ia ser preto e branco. Só porque eu não tenho lugar no seu carro.
Eu nem fazia questão de sentar na frente: valia ir lá atrás com a criançada, cantando aquelas músicas de viagem longa. Minha estrada de repente ficou longa, porque você tava na outra estrada, oposta. E não vinha na minha direção. Perdeu o sentido. O final de semana perdeu o sentido. Pegar uma estrada de moto perdeu o sentido.
Pra quem eu ia contar que levei uma fechada de um caminhão e o cara arregalou os olhos quando viu como fui rápida na manobra? Você não estaria lá pra ouvir. Você nunca me ouve mesmo. Você nem acredita que eu saiba me desvencilhar de caminhões na estrada. Aposto que nem se lembra do dia que contei que fui pra Vitória de moto. Você não me ouve. Por isso valia ir lá atrás com a criançada. Se a gente cantasse alto aquelas músicas de viagem longa, talvez você me ouviria. Mas não tinha lugar pra mim no carro.
Fiquei em casa e falei mil vezes "eu odeio fazenda". Aí minha prima ligou. Ainda tá procurando apartamento. Separação já é foda, quando a gente tem de procurar onde morar é foda ao quadrado. A Fefê machucou o dedão de novo no basquete. Lembrei do dia que a gente foi com ela até o hospital e começou a rir quando falou na recepção "moço, ela tem de ser atendida urgente. Quebrou o dedão". Rimos tanto: quebrar dedão é emergência? É motivo de riso.
Eu pensava que a gente ria junto, pensava que as coisas que eu te contava eram coisas interessantes. Você nem ouvia. Você já me ouviu?
Naquele dia que bebi demais e falei na lata: te amo! Você ouviu? Naquele dia eu acho que você ouviu,sim, porque foi depois daquilo que eu perdi o lugar no seu carro. No seu quarto. Lugar na sua vida eu nunca tive, mas pensei que ia ter. Um dia. Só um dia.
Eu quero uma moto imensa, com todas as cilindradas do mundo. Eu quero acelerar tanto, mas tanto, quero ir pra bem longe desse meu mundo que tá cheio de lembranças e referências suas.
Eu quero ir pra um lugar onde eu nunca tenha dito que te amo.